25.12.07

Diário do Oeste - 2

25 de Dezembro, dia de ressaca para grande parte do pessoal, não só do champanhe mas também daquela comezaina toda da noite de 24. Não é o meu caso, que desta vez não fiz abusos e portei-me bem… e mesmo assim o sacrista do Pai Natal deu-me umas pantufas em pano de cobertor e um belo pijaminha azul cueca, a última moda do chinês. Bem, pelo menos lá se lembrou de me trazer o livro do Harry Potter, portanto ainda não está assim tão xexé.



Oh pra mim de pijama azul e pantufinhas (ghhh...!)

Coisa mais linda, dois cabritinhos recém-nascidos, um todo preto e o outro preto e branco, já aos pulos à volta da teta, de rabinho no ar e a abanar a toda a mexa. Pena minha não poder aproximar-me, que havia uma cerca entre eles e eu e os quadrados de arame não aguentavam comigo sem ficarem todos tortos, senão bem que tinha saltado a vedação só pela fuçanguice de lhes tirar o retrato (‘tá visto que eu devia ter comprado uma maquineta com mais zoom). Assim, tive de me contentar em fotografar umas ovelhinhas que por ali andavam, mais um bode malhado que veio quase até à cerca para fazer o reconhecimento, “olá bicho preto, tens alguma coisa pra mim?” 
Segundo me contou um fulano que entretanto apareceu, aparentemente tão curioso como o bode malhado, na véspera já tinham nascido outros dois; consequências da lua cheia. E tranquilizem-se vocês todos, que os cabritos mais a progenitora foram devidamente recolhidos para dentro do estábulo antes de o sol se ir embora, que isto por aqui tem feito um frio do caraças.


Olá... temos visitas?
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Que queres tu daqui, hem?
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Ao menos tens aí alguma coisa que se trinque?
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Assinalável a capacidade de resistência ao frio que os indígenas adquiriram ao longo de várias gerações a bater o dente… ou talvez seja antes uma espécie de resistência aos casacos, porque se repararmos bem eles afinal batem os dentinhos como qualquer sulista desprevenido, mas parecem ter uma estranha aversão aos agasalhos. Pela conversa de alguns, é quase como se um casaco fosse uma peça de luxo, que só usa quem tem dinheiro, ou em ocasiões especiais (um dia ainda vou observar os nativos à saída da missa, a ver quantos é que vestiram o casaco – se me conseguir levantar da cama suficientemente cedo, claro). Bom, estes indígenas a que me refiro não são os meus vizinhos, estes são os das aldeolas ao redor da vila, porque aqui onde eu moro o pessoal não tem ideias frescas - frio = camisola de lã + casaco por cima. Eu então estou neste momento com dois edredões na cama e um cobertor, para além dos lençóis de flanela, da borracha de água quente e do gato. E mesmo assim começo a considerar que aquela moda dos antepassados, de dormirem com um barrete enfiado na cabeça, até é capaz de ser uma ideia óptima num clima destes.

13.12.07

Diário do Oeste - 1

São cinco e um quarto e o meu horizonte de quase 360 graus está lavanda claro. A vantagem de viver numa torre é esta paisagem toda. A desvantagem é ter de chegar cá acima, porque não há elevador. À noite levanta-se vento, as janelas estremecem todas e as frestas uivam, ao melhor estilo casa assombrada (weeee!!!). Ok, já sei, agora no Inverno vou ter de calafetar isto tudo para poupar energia e essa coisa toda, mas por enquanto é bastante fixe.

Além das compras semanais para me abastecer, a única saída do dia é normalmente o ginásio. Até agora tem sido a melhor oportunidade para observar os indígenas da Terra dos Loureiros e para ter algum contacto com eles. É muito mais difícil relacionar-me com os nativos daqui do que na ilha; o que é perfeitamente normal e previsível, porque lá eu estava em casa de famílias que me misturavam com outras pessoas e aqui estou sozinha com o gato.
Mas voltando ao ginásio. É um tanto diferente de todos os outros por onde passei até agora. Agrada-me bastante porque o treino é bastante melhor do que o do Cacém City, por exemplo, mas espanta-me o facto de grande parte dos homens tomarem suplementos e de alguns andarem a meter esteroides à descarada. Na semana passada houve um concurso qualquer a que uns quantos deles foram assistir, o concurso do Mister Batatas, com certeza, a avaliar pelas imagens do cartaz. E estranhamente os meus colegas olhavam para aquilo com alguma inveja confessada, por não se sentirem à altura dos batatudos do cartaz. Às vezes é bastante evidente que o ideal de beleza dos homens e das mulheres é muito diferente do que seria de esperar. Claro que isto não se aplica a toda a gente, mas pela tendência geral o ideal dos moços é tornarem-se cada vez mais musculados, até chegarem ao exagero daquelas batatas aberrantes dos super-heróis da banda desenhada rasca, que costumam meter nojo à maioria das mulheres. Por outro lado, o ideal das meninas é tornarem-se cada vez mais magras, o que acaba inevitavelmente numas perninhas estilo palito arqueado, o que as torna bastante desinteressantes para a maioria dos homens. Há aqui qualquer coisa que não bate certo... Até mesmo em termos de evolução da espécie. Mas isto não tem nada a ver com evolução, tem a ver é com uma tendência cerebral qualquer para cairmos facilmente no exagero. É claro que isto é só para quem persegue o tal do ideal de beleza, como os moços do ginásio que emborcam esteroides; a maioria do pessoal até pode ter ideais, mas parte do princípio que são inatingíveis ou que exigem demasiado esforço e continua de cu sentado no sofá a trabalhar para a banha, ora pois.
É um sítio onde falta muita coisa. Tenho de ir a Torres para arranjar seitan, tenho de encomendar a comida para o gato porque ninguém tem a marca de que ela gosta, há quinze dias que o Minipreço não tem suicinhos dos meus e no mês passado nem sequer havia selos nos Correios (!!!).
A corrente eléctrica é bastante irregular, daí que o fulano que me vendeu o meu lindo computas me quisesse impingir um estabilizador, que na altura achei perfeitamente dispensável. De facto, há dias em que a maquineta se apaga e reinicia, como se eu tivesse carregado no reset, ao mesmo tempo que a luz do candeeiro fica mortiça e amarelinha e o meu gravador de chamadas se desliga com um trlipipi e fica tudo em branco. Por outro lado, quando há tempestade (já apanhei várias desde que cá estou), o gravador farta-se de se manifestar e há um candeeiro que se acende sozinho, enquanto os carros lá em baixo tocam os alarmes em coro – uma festa. Nunca me tinha acontecido destas no Cacém City.
Mas em compensação o ar é muito mais leve que o da cidade e a vila é suficientemente pequena para se poder ir a todo o lado a pé. Há duas farmácias na terra, uma perto da outra, o que quer dizer que não é preciso ir muito longe para encontrar a que está de serviço.
Normalmente não há gente à espera nas urgências do posto de saúde, é chegar e entrar. É claro que nos mandam para Torres ou para Lisboa à primeira dificuldade, mas a rapidez é bastante reconfortante para quem está à rasca.
De vez em quando há casas assaltadas e carros roubados, mas ainda não ouvi falar de ataques directos, tipo “para p’ra cá a carteira”, nem nada que se pareça. Só os crimes passionais e os ajustes de contas próprios das terras pequenas, onde toda a gente se cusca uns aos outros e se sabe logo quem é que pôs os palitos a quem e quem é que andou a lixar o negócio ao parceiro – o trivial, inofensivo para quem não se mete em sarrabulhos. ...Esperemos.

Aqui há dias o fulano da bomba de gasolina perguntou à minha tia se eu era viúva. Aparentemente não há mais góticos por aqui, mas também ainda não saí à noite, não vi a fauna nocturna local; talvez eu seja exemplar único, mas não acredito. Mas como não será pelo menos habitual, a malta estranha. E se assim não fosse, quem estranhava era eu.

E vocês viram o Bush e respectiva famelga a fazerem figuras tristes na televisão? Bom, de facto eu nem sequer liguei ao que estavam a dizer, acho que era uma treta natalícia qualquer, porque a minha atenção estava toda focada nos canitos, dois scottish terriers (= pelo-de-arame todo preto de patinhas curtas, para quem não está a ver), que é uma raça que me agrada muito por ser bestialmente activa, tipo cão a pilhas, danado prá dentada, e que no entanto ali no anúncio pareciam uns pastelões, que nem pica tinham para correr atrás da bola. O comportamento dos canitos era tão atípico, que não posso deixar de perguntar – será que aquele sacana anda a dar calmantes aos cães?! Cá p’ra mim eles estavam pedrados. Palavra. Como se já não bastassem as outras barbaridades todas...

29.11.07

Sexy pussy...

Ok, não é lá muito ilustrativo porque o blog engasga-se com os ficheiros maiores, mas dá pra ver que a Zarosky anda com uma telha das boas. Janeiro está próximo...

23.11.07

Incêndio no ermitério

Estava o ermita a tirar as suas batatinhas fritas do lume quando tocou o telefone; era a tia do ermita. Conversa pra cá, conversa pra lá, e entretanto o óleo continuava com o lume aceso. Quando o ermita finalmente desligou, já estava tudo a arder, com uma fumarada do caraças e um cheiro pestilento pela casa toda. Apagado o fogo, o resultado foi este:
...e é preciso um gajo chegar a esta idade pra fazer uma asneira tão básica. Isto já deve ser do Alzheimer...

18.11.07

Photo do Leo

Atomic usine, by Leo Mendonça.
Já viram o site dele?

Recebida pela net

As calorias são uns bichinhos que vivem nos roupeiros e que durante a noite apertam a roupa das pessoas.

Citações

"Caralho ta foda, que tás aqui tás a levar nos cornos!"
- a vizinha do lado a falar com a filha de 8 anos

Momento histórico

Este aqui é o Gabriel, o meu afilhado de 3 anos (quase 4), que se chegou ao pé de mim um tanto acanhadito e disse que também queria tirar uma fotografia. Passei-lhe a maquineta para a mão e disse-lhe onde é que se carregava.

E ele pegou, apontou, e o resultado foi este:
De assinalar que está focada e bem enquadrada. O puto tem jeitinho, hem? Ah lindeza da madrinha!

16.11.07

Saiu o último Harry Potter (em português)

Embora a autora aqui há dias tenha aparecido no telejornal a dizer que o Dumbledore pegava de empurrão, escusam de estar aí já todos aos pulos, que o livro não vai ter cenas destas lá dentro.
~ ou seja, temos de continuar a ir aos sites de slash ~

9.11.07

Sou um miserável ladrão de tapetes!!!

Recebi uma mensagem do Francisco (Insoniário) a dizer "A tua vizinha fanhosa diz que lhe gamaste o tapete..."
Está assim explicado como é que me apareceu aqui um capacho castanho às bolinhas, muita feio, que eu não me lembrava nada de ter visto lá em casa mas palavra que pensei que devia ser alguma coisa que a minha mãe tinha posto debaixo do cesto das batatas ou que era mais um daqueles achados arqueológicos que saíram do fundo da despensa.
Muita pena, mas tão depressa não vou voltar ao local do crime. Quando lhe devolver o coiso já ela entretanto comprou outro e me rogou pragas até à quinta geração.
Acho que me incomoda mais ficar com fama de ter um péssimo gosto do que de andar por aí a fanar tapetes...

2.11.07

O ermita de mudança

Não acreditavam? Pois foi mesmo: o ermita deu de frosques p'ra bem longe dos chatos todos e agora está ao pé do mar, a respirar outros ares num ermitério muito maior, onde o gato já pode dar grandes corridas e apanhar vento nos bigodes. O clima é mais frio e bastante húmido, mas nada que não se resolva com mais um casaquito e um aquecimento em casa.
Depois de grandes estrafegos e de o ermita chegar à conclusão de que afinal a sua palhota tinha muito mais tralha lá dentro do que o espaço parecia comportar, o fulano da carrinha das mudanças conseguiu fechar as portas com tudo lá dentro e ficou assim concluída a fuga definitiva de Cacém City para a Terra dos Loureiros. Olaré.
...Com tanta sorte que logo haviam de se ter lembrado de fazer obras no prédio ao lado e dos sacristas começarem a fazer buracos logo às 8 da manhã, quando o ermita se está ainda a virar para o outro lado. Isto há sinas do caraças...

26.10.07

Primeiras impressões (1988)

Não sei se por culpa dos filmes americanos ou pela cara dos nossos emigrantes, eu imaginava Paris como uma espécie de cidade-circo habitada por uma fauna fervilhante de boémios, costureiros famosos e intelectuais de barbicha, dispersos por um cenário megalómano, todo de néons e brilhos. Com o passar do tempo foram mudando os meus gostos em matéria de cinema, ao mesmo tempo que se ia acentuando em mim uma espécie de desprezo passivo pela malta que vem passar o mês de Agosto à santa terrinha cheio de ganas de exibir aquela cultura toda que adquiriu lá fora (“Micheliiiii... viens já ici à mãe!”)
"Lá a vida é a cores, enquanto que aqui é a preto e branco", disse-me alguém já não sei quando. Ficou-me a curiosidade, mas nem por isso me deixei impressionar.
E agora aqui estou eu. Então Paris é isto. Rodo sobre os calcanhares a olhar em volta. É limpo. Arrumadinho. Nem uma poia de cão para animar o ambiente. O ar é leve, às vezes com nuances que lembram cheiro de champô.
Seis e coiso da manhã. O meu amigo já saiu para trabalhar. Engoli o pequeno almoço e vim para a rua cheio de vontade de ver onde estou. Cheguei ontem à noite e ainda nem percebi exactamente onde é que entrei, já um tanto zonzo com o meu anfitrião tagarela sempre a enumerar instruções sobre o funcionamento da cidade e o trato com os indígenas desde a estação até aqui. Nos próximos dias ele começa as férias e então terei um cicerone para fazer a voltinha da praxe pelos monumentos, os museus, as putas da zona do Pigalle e tudo o mais que constar no roteiro turístico.
Mas agora sou só eu, numa cidade que nunca vi, em voltinha de reconhecimento, completamente por minha conta.
Assim de repente, a rua parece estar asséptica como um hospital. Será então a qualidade da limpeza que faz os emigrantes chegarem lá a Portugal com ar de quem se foi meter no meio dos porcos depois de terem vivido num palácio? Só dos contentores do lixo é que vem um cheiro pestilento, mas não é do lixo, é o cheiro do desinfectante amarelo que uma brigada de agentes de desinfecção, também amarelos, vai pulverizando com umas maquinetas um tanto suspeitas, que mais parecem armas alienígenas. Vêm vestidos de plástico, com cógulas, luvas e galochas, tudo amarelo, ao melhor estilo espacialo-folcórico. A avaliar por toda aquela protecção, a bodega amarela deve ser altamente tóxica. Aperto o nariz e passo rapidamente adiante.
Continuo o meu passeio. Sinto-me um parolo com os olhos bestialmente abertos, ávidos, como se tivesse medo de deixar escapar algum pormenor. Não sei porquê, mas talvez por causa desta neblina da manhã, desta luz ainda pouco nítida ou deste cheiro artificial com que a cidade acorda, tenho a impressão de estar a caminhar por um grande cenário, onde o som dos meus passos ao longo da alameda é bem mais real do que as fachadas dos edifícios onde eles ressoam. As casas são todas iguais. Prédios forrados de tijoleira vermelha com frisos de pedra branca a debruar as janelas, onde até as cortinas estão penduradas da mesma maneira em todos os andares. Cortinas brancas presas dos lados como as das casinhas que os putos desenham. E depois, todo o ambiente é leve e claro, onde o cinzento dos passeios não pesa e no asfalto negro nem se repara, sobretudo quando se é turista, porque os turistas andam sempre de nariz no ar. Os prédios vermelhos parecem feitos com peças de encaixar. Tudo tem um ar de coisa a fingir, de jogo de construções feito por um miúdo maníaco da simetria. A alameda podia ter sido feita na véspera, armada às pressas só para eu lá poder passar hoje. Imagino que são apenas fachadas, que por trás estão todas seguras por tábuas toscas cravadas no chão. Habituado aos contrastes de Lisboa, tamanha uniformidade chocalha-me os sentidos e acentua-se mais a consciência de estar no estrangeiro. E isso agrada-me porque se trata já de uma pequena vitória sobre o meu lado fleumático.
No passeio central da alameda há banquinhos de jardim onde bandos de velhos jogam às cartas e tagarelam com palavras estranhas de um dialecto só deles. Velhos vestidos de preto, com boinas enterradas até às sobrancelhas, como as dos franceses castiços que falam inglês de sotaque arranhado nos filmes americanos do tempo da guerra.
Aqui e ali, canteiros de sardinheiras e grandes jarrões de metal verde. Os canteiros são tão altos que quase me chegam à cintura. Segundo a explicação do meu amigo, quando vínhamos da estação na noite passada, é para as flores ficarem protegidas dos cães. E com efeito, cães é coisa que não falta por aqui. Caniches, sobretudo caniches, caniches de todas as cores e de todos os tamanhos, dos anões aos matulões, caniches tosquiados e caniches peludos, caniches ao natural e caniches de verniz nas unhas e laçarotes na cabeça, caneco, que nunca vi tanto caniche junto. E a estas horas matinais do pré-expediente, o pessoal que anda pela rua divide-se entre os fulanos em fato de treino que praticam o seu jogging e os fulanos de trela na mão que praticam o footing do caniche. Alguns juntam os dois exercícios e correm com o cão atrás, que os segue em passinhos curtos, saltitante, com as orelhas a bater. Mas apesar desta canzoada toda, reforça-se a minha ideia de que esta cidade é anti-cão.
Nos passeios, limpos e sem frestas, nem uma erva raquítica se atreve a despontar. Os canteiros, demasiado altos, também deixam tudo o que é verde fora do alcance do nariz de qualquer cão. Nada passível de ser tasquinhado. No fim da alameda há um jardim, mas mesmo esse está vedado. Na cancela há uma placa com a silhueta de um cão cortada por um xis a vermelho. Quer isto dizer que nem aí lhes dão hipótese de cheirarem árvores e terra. Penso no que será a vida desses cães de apartamento, que nunca esgravatam o chão, que nunca metem o dente numa coisa verde e viçosa, que nunca correm atrás dos pombos, que nem licença têm para farejar os outros – o último que tentou ia sendo estrafegado pela dona ali na outra esquina. Instinto censurado por trelas curtas e tensas, condenados a uma castração olfactiva. Uma vida de cão. Arrepio-me.
Mas logo a seguir lembro-me que me ensinaram no liceu que os franceses gostam de passear aos fins de semana, como qualquer europeu com semana inglesa (já que não faço a mínima ideia de quando é que os outros passeiam). O tal do Bois de Boulogne, pois claro, fartavam-se de falar nisso... E penso então que com certeza estes cães acompanharão os donos nesses passeios pelo meio das árvores. E que mesmo aqueles caniches impecáveis, de pêlo escovado e coleiras de strass irão rebolar na relva molhada, alçar a pata onde bem entenderem, com a satisfação funda de quem se vinga das mijas acanhadas na berma do passeio, encontrar outros e encher o nariz de cheiro a cão, chapinhar nas poças de água, correr feitos doidos, só por correr, só para sentir o corpo a funcionar como um corpo de cão. Ah sim, só esses fins de semana podem justificar aquela fleuma com que os caniches pisam o chão quando acompanham os donos naqueles passinhos miúdos e saltaricos, indiferentes a tudo. Só isso explica que suportem estoicamente aquelas tosquias atrozes, a comida enlatada, os dois passeios diários do regulamento. É que eles esperam pacientemente o fim de semana.
Deixando para trás o jardim do bairro-dormitório, encontro a zona das lojas. Aí estão elas, as primeiras montras cá do sítio. Saco do bolso a arma imprescindível para a defesa de qualquer turista com um nível de vida como o meu: a calculadora. Passo à acção. Vou fazendo o câmbio dos preços sempre a tentar manter o sangue frio, ainda que de vez em quando tenha de repetir as contas para ter mesmo a certeza de que não me enganei nem nada. Para não entrar em pânico, lembro-me que estou aqui de passagem e que, tirando a questão de ter de comer todos os dias, não vou precisar de comprar nada extra (claro que a esta altura já desisti dos souvenirs para a família). Respiro fundo e guardo a maquineta, ainda um tanto zonzinho das ideias. Mas afinal, como é que raio um português consegue sobreviver num sítio destes? ...A despejar o lixo dos franceses, evidentemente.
Pessoas, movimento, trânsito de cidade grande, gente que faz as compras para o almoço ainda distante. Passa uma senhora anafada com uma baguette (= carcaça muito comprida de casca dura e pouco miolo) debaixo do braço e fico meio hipnotizado, a segui-la com os olhos, talvez à espera de ver aparecer uma equipa de filmagens cheia de camones a ruminar pastilha elástica. Mas não, a senhora anafada vira a esquina e vai à vida dela sem perceber as minhas observações (e ainda bem, que ainda me arriscava a levar com uma baguette nas ventas). Então era mesmo verdade. Este pessoal não embrulha o pão. E eu que sempre pensei que isso era coisa da era pré-plástica, que já só aparecia nas caricaturas. "Mas porquê?", perguntei eu mais tarde ao meu amigo francês, já de regresso ao apartamento. "Como é que querias que fosse?", admira-se ele, com os olhinhos arremelgadinhos, como quem nunca pensou que pudesse ser de outra maneira. Lembro-lhe a existência dos sacos de plástico. “Sabe-se lá onde é que já andou o saco de plástico...”, diz-me o gajo a torcer o nariz num arzinho superior. Portanto, a bem da higiene, põem um papelinho pardo a enrolar o meio do cacete, só para agarrar, e deixam o resto de fora, que é para impregnar bem a fumarada dos escapes... E como farão se estiver a chover? Debaixo do braço, a ponta da baguette deve ultrapassar o chapéu de chuva... Não chego a aprofundar a questão. Já percebi que é melhor não fazer demasiadas perguntas sobre os costumes locais. São coisas que se explicam só por existirem. São, porque são, e ninguém pensa mais nisso.
Acima de nós, os placards. Retratos enormes, propaganda de eleições breves para a administração do bairro de Clichy. Os candidatos têm todos um ar muito simpático, de quem toma banho todos os dias, e sorriem para os eleitores com dentinhos de publicidade. Sim, têm realmente um ar de gajos porreiros. Mas até aposto que nenhum deles se atreveria a fazer concessões a favor dos cães deste bairro (até porque os cães não votam).
Dou-me conta de que é melhor não ir mais longe sem mapa e resolvo reconstituir o caminho todo que fiz até aqui, de volta ao mini-apartamento do meu amigo. Mas então e quanto às cores de que não-sei-quem falava? Bom, tomando-as à letra, noto que os franceses se vestem geralmente com tons claros, que têm uma pele cor-de-rosa pálido, coisa própria de quem nunca viu sol a sério, e que a percentagem de louros é maior do que em Portugal. Mas os nativos são só uns tantos, a que nem me atrevo a chamar a maioria. Pela rua ouço falar italiano, português, diversas variantes africanas e outras línguas indecifráveis, talvez dialectos árabes. Cruzo-me com mulheres que vestem túnicas e mantos que lhes encobrem o cabelo todo até à raiz. Na testa, no queixo e nas mãos trazem tatuagens toscas, traços e pontos azuis bastante esborratados pelo tempo ou pela falta de perícia. Se houver aqui turistas como eu, acho que não os consigo identificar (a não ser que seja uma excursão de japoneses de câmaras em riste, claro).
Retomo as ruas por onde passei, de volta a casa do meu amigo francês que teve a amabilidade de me convidar a vir passar uns dias com ele. Acho que ainda não será desta que vou ficar a saber o que é uma "vida a cores", mas é muito cedo para tirar conclusões. Ainda não passei das primeiras impressões numa manhã em Paris. Cheguei aqui ontem e ainda não vi nada. Mas é claro que antes de cá vir eu já sabia, como toda a gente, que não são as cidades que tornam a vida mais colorida; somos nós mesmos que lhe damos as tonalidades, seja em que lugar for.

20.10.07

Tá decidido: vou dar de frosques

Depois daquela calma da ilha, acordar com uma gaja a cantar que o "Jésuis é o nosso reeeeei" é um bocadinho demais para um ermita, por muito urbano que seja.
Acho que chegou a altura de empacotar os tarecos, contratar uma camionete de mudanças, agarrar no gato e bazar daqui. Não acreditam? Vão ver. Desta vez é que é: bye bye Cacém City.

You know you've been watching too much yaoi when...

by Helena Söderberg em http://hellena.deviantart.com/
(é bom poder voltar aos antigos vícios)

El Baile (1998)

Chega-se lá por uma escada vermelha, que desce em caracol por entre o fumo que vem do fundo. Uma descida aos infernos, ou pelo menos a um dos seus átrios, um sítio escuro e enevoado onde as almas queimam as últimas energias antes da rendição.
A música toma conta de tudo, trovejante tentativa frustrada de parecer alegre. Mas para quem entra aqui pela primeira vez o ambiente é bem mais grotesco do que qualquer castelo fantasma de feira popular.
Figuras deambulam de copo em punho, sombrias e difusas pelo meio da névoa, criaturas do limbo com olhos à prova de fumo. Cruzam-se connosco em farejadelas furtivas e longas observações de predador, mas para quem chega tudo não passa de uma amálgama de formas indistintas com cheiro a muita gente. Só passado algum tempo é que a vista se habitua às trevas e ao ardor e começa a conseguir apreciar a fauna local.
À minha frente vão passando devagar alguns ventres traídos pelas camisas demasiado justas que se arreganham em esgares entre os botões. Circulam interessados nas mesas, onde se instalaram grupinhos de amigas, mulheres que já foram fêmeas e que talvez ainda se lembrem vagamente dos incómodos do período. Também elas observam os seus satélites, ainda que tentem mostrar um ar distraído. Avaliam-se mutuamente. Todos aqui querem escolher e ser escolhidos. Percebo então (anjolas completo) que a tal da "sala de baile" para onde me trouxeram é afinal um ponto de engate. Mas é um engate que impressiona quem vem de fora e nunca ouviu falar desta espécie de boites para a terceira idade.
Os meus olhos vão-se conformando a todo o peso da escuridão e do fumo e começam a distinguir mais pormenores; o contorno raiado das bocas sanguíneas, estrelas vermelhas que lentamente se estendem ao longo das rugas, as mamas gelatinosas literalmente penduradas ao pescoço, os dedos bronzeados onde as alianças que agora rebolam pelo forro dos bolsos deixaram o seu fantasma branco. Há folhos e botões dourados nas camisas de alguns homens secos, talvez ciganos. Os outros, mais anafados ou simplesmente mais recatados, não se atrevem a exuberâncias. O mesmo critério (ou pudor) não existe entre as mulheres. O volume não lhes impede a extroversão. Só assim se explica a profusão de decotes, de franjas e de lantejoulas em vestidos que ameaçam explodir a qualquer movimento.
Penso que isto não seria possível na minha terra. Que nenhum português seria capaz de parecer natural depois dos sessentas metido num traje de luzes. No entanto esta gente está na maior. Constrangimento, só mesmo o meu.
Mas por muito estranhos que estes espanholitos me pareçam, não posso deixar de admitir que têm razão. Eles não desistiram. Não ficaram em casa a ver televisão. E nestes folhos todos há alegria de viver, ou alegria de engatar, não importa; é uma alegria qualquer.
No palco, alguns pares arriscam-se a exibições requebradas, ainda que o som da orquestra tome por vezes aspectos arrepiantes. A voz do cantor já acusa uns tantos whiskies e os músicos limitam-se a acompanhá-lo sem convicção. Tocam música espanhola que os meus avós espanhóis também devem ter dançado, um repertório bolorento que já devia ter passado à história (p’raí dos anos vinte…), mas que pelos vistos continua a reunir adeptos. Talvez seja por causa do saudosismo típico da idade dos clientes… ou pelo facto da música ser irrelevante no que toca a engates, desde que seja apropriada a um roça-roça ritmado socialmente aceitável, ainda com a vantagem dos direitos de autor já terem caído todos no domínio público.
O meu guia é um frequentador habitual do lugar, um primo em não sei que grau que a família me apresentou hoje ao almoço. Explica-me ele que isto é um bom lugar para "ligar". Até aí não me está a dar nenhuma novidade, ainda que me pareça que será preciso estar já muito desesperado para "ligar" com alguma matrona destas. No entanto, nem por isso deixam de ser especímenes altamente interessantes. Muito pelo contrário. Nesta altura já tenho a máquina fotográfica a dar pulos de impaciência dentro da bolsa do cinto. Tiro-a cá p’ra fora a pensar se a fumarada não irá ser fatal para a nitidez. Atraem-me especialmente um grupo de três mulheres numa mesa, a soprarem fumo em silêncios simultâneos, e um cigano castiço que se passeia com uma camisa às bolas com folhos à frente, nitidamente a mostrar-se. Só quando o meu primo me agarra o pulso e me obriga a voltar a guardar a câmara com um ar de urgência é que me apercebo dos olhares inquietos (ou furiosos, mais exactamente) das pessoas ao redor. Se tivesse chegado a disparar uma flashada, suponho que teria sido linchado antes mesmo de perceber porquê.
Afinal este pessoal tem mais pudor do que eu imaginei. Exuberância, sim, engate, pois claro, mas em privado. Território perigoso para um caçador de imagens demasiado impulsivo, dos que fotografam primeiro e pensam depois. Ok, já percebi; há alturas certas para tudo, até para guardar a câmara, por muito que ela proteste dentro da bolsa.
E entretanto o meu primo espanhol em não sei que grau apresenta-me a uma loura ainda em razoável estado de conservação que não estava nada interessada em me ser apresentada e me vira as costas ostensivamente enquanto lhe resmunga qualquer coisa em voz baixa. Percebo que é por minha causa que o meu primo, além de chegar atrasado, ainda não se tinha ido sentar na mesa dela. Pelos vistos está toda lixada por ter passado tanto tempo ali à espera e resolve passar-lhe um belo raspanete. Intervenho, insisto para que nos sentemos todos, mas ela deita-me uns olhos de quem vai morder. A minha presença desagrada-lhe, quanto mais não seja pela minha falta de rugas. Ninguém com a minha idade vai a lugares destes, e quando vai é para se rir dos outros. O episódio da máquina fotográfica só veio reforçar o meu rótulo de indesejável.

Percebo que de repente me tornei o centro das atenções. Todos ali à volta me observam com uma desaprovação explícita. Seguem-me os movimentos e cochicham entre eles, um peso desagradável de muitos olhos em cima de mim. Agora sou um espião desmascarado e não me atreveria a tocar na bolsa onde guardei a máquina nem para tirar o cartão de consumo que o porteiro me deu. Afinal, aqui dentro o bicho raro sou eu.
Deixo o meu primo com a sua loura e saio. Primeiro devagar, até chegar à entrada, mas assim que me apanho na escada desato a correr por ali acima a sentir um alívio enorme, porque afinal acabei me safar do inferno lá de baixo. Na rua, o ar frio e contaminado de Madrid bate-me na cara com um cheirinho a churros e a óleo quente que sai de um café ali próximo. Vou andando, de olho nos carros a ver se passa um táxi, cá por dentro ainda com um incómodo esquisito qualquer, como um pressentimento mau, e tento garantir a mim mesmo que não acabei de ter um vislumbre do meu futuro.

17.10.07

Haja pachorra (e tampões para os ouvidos)

A ver... no sexto andar há brasileiros a pôr música nordestina a manhã toda, enquanto não vêm os angolanos do quintal lá de baixo, aí pelas quatro da tarde, e desatam a tocar música africana até à hora do jantar, além dos ensaios da banda do segundo andar (à falta de garagem, é uma banda de varanda) que nunca tem hora marcada, e da igreja esquisita no barracão lá ao fundo que põe a malta toda a cantar em côro durante não sei quanto tempo.

Há dias em que a sorte dos meus vizinhos é eu não ter uma caçadeira.

14.10.07

Regresso ao ermitério

De Stornoway para Edimburgo, de Edimburgo para Faro, de Faro para Lisboa e de Lisboa para Cacém City. Uff.
Abri a porta, larguei a mala, sentei-me no chão e agarrei-me ao gato, mas ele estava mais interessado em me farejar, como que para ter a certeza que desta vez era mesmo eu e não a vizinha de cima que lhe vinha dar a ração do dia. Farejou-me as mãos, a cara, a roupa e a mala antes de renhaunhar finalmente, em resposta às minhas efusões, ainda num tom reprovador, "mas onde é que te meteste durante este tempo todo, oh meu sacana dum raio?", mas já a deixar-se embalar e chocalhar e espremer contra o meu peito.
E agora não posso sair de casa nem para ir lá abaixo ao supermercado, p'a tratar de abastecer o frigorífico, que ela pensa (ah sim, eu digo "o gato" mas a Zarosky é uma gata; faz falta uma forma neutra eficaz no português), mas dizia eu que ela pensa que me vou voltar a pirar por mais dois meses e fica histérica de todo, em renhaus desesperados do outro lado da porta. Avizinham-se longos tempos de nhonhós, de colos e de coçar barrigas; há que tratar do stress do animal.
E não me apetece nada desfazer a mala. Não é que queira fugir outra vez; é preguiça mesmo, só de pensar que tenho de arrumar a tralha toda nos armários. Fica pra depois; por agora ainda estou na ressaca da viagem e só me apetece ferrar o galho no sofá com um gato em cima.

6.10.07

Postais à família - 4 (para o progenitor do ermita)

The Village, St. Kilda, postal de Colin Baxter

Isto aqui é um sítio que muito provavelmente não vou ter oportunidade de ver, mas entretanto vi umas casas parecidas, reconstruções das antigas que agora servem de estalagem de fins de semana para grupos de miúdos, que fazem visitas com a escola para verem como era a vida na ilha há uns anos atrás. Estas de pedra são conhecidas como as "black houses" e as tais reconstruídas aqui em Lewis têm o telhado em palha, com uma rede por cima para aquilo não voar tudo. Estas do postal são noutra ilha, St. Kilda, e como ainda são habitadas, o pessoal meteu-lhes telhados a sério, que já devia 'tar tudo farto de acartar palha.



Rodel Church, postal de Martin Guppy


Isto aqui é a igreja de St. Clements, em Rodel, na ilha de Harris, vista das traseiras. Topa-se que o telhado é recente e no geral está bem conservada. O sítio é dos poucos planaltos com terra que existem na ilha; o resto é só calhaus e montanhas. As ovelhas devem ter a perna mais gorda por aqui à conta do exercício.

Postais à família - 3 (para o progenitor do ermita)

Stornoway, postal de Mike Guy

The butt of Lewis, postal de Patricia e Angus MacDonald

Lews Castle, postal de Sue Anderson

Isto aqui é o Lews Castle, que fica no porto de Stornoway e é o único sítio da ilha onde conseguiram fazer um bosque com árvores exóticas; depois há uns bosques por aqui e por ali de pinheiros plantados uns em cima dos outros para aguentarem o vento e mesmo assim os das pontas costumam estar mortos. O castelo é de 1847 e está a cair (por fora não parece); está fechado e tem avisos de perigo de derrocada por todo o lado. O parque é sobretudo frequentado por escoceses a correr em calções. Muito giro.


Osprey (Pandion haliaetus), postal de Neil McIntyre

Carapau pró almoço!

Postais à família - 2 (para o progenitor do ermita)

The Standing Stones, Callanish, postal de David Morrison

Olé a todos, isto aqui é o cromelech de Callanish tal com eu gostaria de o ter visto (e fotografado, claro), porque enquanto lá estive o tempo estava bestialmente farrusco e de vez em quando chovia a sério. Mesmo assim é bestial para quem é taradinho pelos calhaus, claro, e calhaus por aqui não faltam. No entanto, a malta é muito simpática mas pouco informada e interessada sobre o próprio património. E depois de se achar muito giro este espaço todo, acaba por não passar disso mesmo: muito espaço mas sempre igual. Dá-se a volta a isto num instante. Mas por enquanto vou andando por aí a ver as vistas e a encher os pulmões, que pelo menos o ar aqui é bestial (tenho dormido que nem um calhau).

Dun Carloway, postal de Colin Baxter

Dun Carloway, postal de Charles Tait

O broch num ângulo muito semelhante ao que eu apanhei na minha máquina, com a diferença de que estes aqui tinham bom tempo e claridade suficiente para se verem as pedrinhas todas. É tudo feito em pedra solta, muito bem encaixadinha, para conseguir durar ainda meio em pé desde a Idade do Ferro. Há uma série de coisos destes aqui nas ilhas (14 ao que consta), mas este é o que se conservou mais.


Dun Carloway, postal de Charles Tait (escada)


E aqui é outra vez o broch de Carloway, mas visto por dentro; as paredes são duplas, com uma escada no meio, e se aquilo não tinha janelas mais acima, na parte que já caiu, então o pessoal não via a ponta dum corno lá dentro (mesmo agora, cheio de buracos, é difícil).

17.9.07

St. Clements


postal com uma vista geral de Rodel


photo sacada da net onde se vê bem que isto fica num cabeço

pedra tumular no interior; os desenhos repetem-se




baixo relevo no interior

e como o ermita ficou sem flash, teve de ir sacar estas duas à net
para vos poder mostrar o interior de St. Clements:
nave

dois túmulos encaixados na parede
(acho que quem tirou esta também estava com problemas no flash...)

Rodel - igreja de St. Clements

entrada de St. Clements


igreja vista do outro lado, com o cemitério dos MacLeods de Harris


o ermita em St. Clements


o ermita ao pé de um túmulo bué da gó - topem-me bem os desenhos



vista da torre

Black Houses

the black houses - aldeamento para visitas de estudo com uma resconstituição das casas tradicionais da ilha

pormenor do telhado das black houses
a rede é para o vento não levar a palha e as pedras é para o vento não levar a rede; ah sim, isto por aqui é ventoso como o caraças

Ilha de Harris

o riacho raquítico que divide Lewis de Harris

ilha de Harris - montes finalmente

Crónica das Hébridas - 9

Planos de visita à ilha de Harris com os primos reformados que vieram do Canadá. “Espero que esteja bom tempo…” dizia ela, receosa de que o passeio se transformasse numa granda banhada (literalmente); “e eu espero que ao menos lá tenham um bom pub…”, acrescentou o marido entre dentes, muito mais virado para o turismo copofónico do que propriamente para ver as vistas, mas afinal o dia acordou com um tempo invulgarmente porreiro, com sol e tudo, prova de que o São Pedro está do lado das primas canadianas, e lá fomos nós para Harris no jipe da Chrisella.
É uma ilha curiosa, primeiro que tudo porque não é uma ilha; decidiram que um riacho indecente é que faz a fronteira e pronto, e praticamente podemos pôr um pé em Lewis e outro em Harris, questão de abrir bem a perna e de ter cuidado para não escorregar nos calhaus molhados, e depois porque a paisagem, essa sim, uma divisão bem mais efectiva, é completamente diferente de Stornoway e arredores. Em vez de planícies cheias de turfa e ovelhinhas, aqui temos montes e vales e lagoas com monstros aquáticos e tudo, uma paisagem de serra onde as ovelhinhas têm de fazer muito exercício para chegar à erva, mas que para mim se revelou bestialmente relaxante. Nunca ouvi falar em síndroma das planícies nem do stress dos grandes horizontes, mas alguém já deve ter estudado alguma coisa sobre isto (e não falo de agorafobia – o pavor dos espaços abertos). Aqui há uns anos, era eu ainda chavaleca, passei uma semana no Ribatejo, em casa de uma amiga, e lembro-me que ao terceiro dia já estava capaz de morder. Por muito que até achasse que os campos cheios de vaquinhas e as plantações de arroz eram uma beleza, não deixava de ser tudo irritantemente plano. Nem uma lombazita, nem um montinho, nada que animasse a pasmaceira geográfica. Do meio da estrada conseguíamos ver o alcatrão por ali fora, todo direitinho até à linha do horizonte. E por muito bonita e verdinha que seja, é um facto, a planície contunde-me cá com o sistema. Daí que Harris tenha sido um descanso bestial para os estranhos macaquinhos que habitam o meu sótão – montanhas …aaaaah, que alívio.
A estradeca, só de uma via, é assim um vai acima vai abaixo e vira e torna a virar e lá vai outra e sobe e torna a descer, estrada de serra, pois claro, que nos levou hora e meia para fazer 15 milhas (!!!), embora todos achassem que, das duas uma, ou a história das 15 milhas é uma galga dos nativos para não assustarem os visitantes, ou então o gajo que lá pôs as placas andou a medir as distâncias com uma régua em cima do mapa – 15 milhas, só se for a direito. Mas eu cá não sei, não digo nada, que estava muito mais interessada na paisagem do que no conta-quilómetros (ou conta-milhas?) e nisto de medidas a olho eu sou uma perfeita nabiça.
A ideia era chegarmos a Rodel, mais exactamente à igreja de St. Clements, uma construção medieval dos séculos XIII ao XVI (reconstruções sucessivas) que eu já tinha visto no boneco mas agora queria ver ao vivo e a cores. Metemo-nos então pela “golden road” [estrada de ouro], assim chamada, não por ser muito boa, mas por ter custado uma fortuna a construir. Só tem uma via, mas percebe-se perfeitamente para onde foi a massa toda; para evitar tanto sobe e desce, foi preciso escavar passagens através da montanha, mas o que parece um monte de terra cheio de urze e ovelhinhas a pastar, não passa afinal de uma camadinha de turfa em cima de rocha maciça. Grande parte da estrada passa no meio de blocos compactos de pedra, partida à marretada para encurtar caminho.
St. Clements não é nenhum espanto para quem já viu muita igreja velha, mas vale sempre a pena, pelo sítio, pelo valor histórico, por ser praticamente a única construção da época ainda em bom estado (há outras por aí mas estão todas a cair), pelos túmulos lá dentro, etc etc etc, ok, pode ser isso tudo, mas a mim agradou-me especialmente pelo ambiente bestialmente gótico da coisa, e não falo só do gótico – estilo de arquitectura, mas sobretudo do gótico – estética mórbida. Uma igreja quase vazia, num cabeço longe da povoação, com o cemitério dos MacLeods de Harris cá fora, as lápides já meias tombadas, uma delas com instrumentos de tortura gravados, facas e tenazes em torno de uma caveira, corvos aos pulos na relva, e lá dentro, numa luz fraca de janelas ogivais, túmulos gastos com figuras jacentes de cavaleiros de armadura vestida, capacete incluído, a segurar as espadas, mais caveiras esculpidas, uma delas na mão do próprio St. Clements, por cima de um anjo e de um demónio que pesam as almas numa balança, sentados frente a frente, aparentemente em amena cavaqueira – “atão quantas almas vais tu levar hoje?” – enfim, um ambiente perfeito onde só falta aparecer o fantasma.
À falta de fantasma, apareceu um cão entusiasmadissimo, um Scottish Collie ( = Lassie a preto e branco), grande e gordo, que por escassez de fêmeas disponíveis nas redondezas, resolveu aliviar os calores contra as pernas dos turistas, dificultando-nos bastante a mobilidade e as fotografias; levar com um canzarrão em cima quando já temos finalmente o enquadramento perfeito para a fotografia, lixa logo o trabalhinho todo.
O túmulo mais ornamentado é o de um tal Alasdair Crotach, o oitavo chefe dos MacLeod de Dunvegan. Logo à entrada há outro semelhante, que pertence ao filho, o William MacLeod, também de espada e armadura, já que naqueles tempos os MacLeods passavam a vida à pêra com os MacDonalds (hoje são todos amigos), e ao fundo há um terceiro, do John of Minguish, seja lá ele quem tenha sido, que não consegui encontrar mais informação nenhuma.
No chão da igreja eram enterrados os porta-estandarte (não tem nada a ver com escolas de samba), sempre no mesmo sítio, em cima uns dos outros. O costume era estranho, mas tem a ver com a história do estandarte do clã, uma bandeira mágica conhecida como a “fairy flag” [bandeira das fadas], que protege os MacLeods todos até aos dias de hoje – durante a segunda guerra mundial, contam que muitos soldados do clã levaram fotografias do que resta da bandeira e que todos voltaram vivos e de saúde. O homem que transportava a bandeira, antes dela ser promovida a atracção de museu, de alguma maneira devia herdar também características mágicas, e daí este costume de guardarem os restos de todos eles no mesmo sítio; cada vez que morria um, abriam espaço entre os ossos dos anteriores e enfiavam o cadáver no meio (…ah sim, este sítio é mesmo bué da goth).
Praticamente só há uma estrada, pelo menos na zona em que Harris é quase uma ilha; pelo mapa, comecei por pensar que só aquele bocado é que contava, um torrão redondo ligado a Lewis por uma cinturinha de terra, mas afinal o nome muda muito antes, assim que as planícies acabam e as montanhas começam, no tal riacho de que já falei. Fomos por um lado e voltámos pelo outro, sempre a acompanhar costas recortadas de onde se vêem mais ilhas, Skye já aqui e as Highlands mais ao longe, Uist do outro lado, coisas que no mapa parecem distantes mas afinal, se berrarmos daqui com um megafone, estou convencida de que os indígenas das outras ilhas são bem capazes de ouvir.
Grandes praias e paisagens de muito calhau e pouca terra. De vestígios arqueológicos, sei que existem muitos mais, mas eu só vi ao longe uma pedra erguida, já um tanto inclinada, que a placa na estrada indicava como “a pedra do MacLeod” (Clach Mhic Leoid). Num terreno destes deve ser muito mais difícil encontrar um bom sítio para instalar um cromelech, como fizeram no norte, na ilha de Lewis; aqui o chão não é cavável e o espaço plano é muito curto. Mesmo hoje isto continua muito desabitado. Tirando Tarbert, uma povoação do tamanho de uma vila pequena onde o ferry aporta, o resto são só casas dispersas nos poucos terrenos mais ou menos planos que conseguiram encontrar. Provavelmente, o pessoal só cá vive pela pesca ou pela paisagem. Mesmo para cultivar umas batatinhas, deve ser uma trabalheira; duas cavadelas e poing!, entortam a enxada na rocha lá debaixo. Harris é uma ilha de pedra …ok, provavelmente nem tanto, mas a primeira impressão, pelo que se vê da estrada, é a de um grande calhau com meia dúzia de carolas que ateimam em cá viver.
O sítio é tão deserto que aqui há tempos usaram uma das ilhotas desabitadas, só calhaus, turfa e gaivotas, para fazer o programa do “sobreviventes”. Largaram lá uma série de desgraçados e agora desenrasquem-se. Mas hospitaleiros como são os ilhéus, não tardou muito e foram até lá de visita, com um barco cheio de cerveja e paparoca, prontos para fazerem uma grande farra com os concorrentes. Como as câmaras estavam por todo o lado, deram logo por eles e estragaram-lhes a festa. A partir daí tiveram de instalar patrulhas de militares à volta da ilhota, para os indígenas não poderem abastecer os esfomeados da televisão, mas mesmo assim consta que houve uns quantos furos ao bloqueio, fora as tentativas, porque conseguir chegar lá sem ser agarrado passou a ser um desafio a sério, bem mais estimulante do que assistir ao programa. Se os organizadores fossem mais espertos, tinham aproveitado para fazer o show dos fura-cerco, em vez de insitirem em mostrar um bando de chatos pagos para passarem fome em directo. Falta de olho pró negócio.
Enfim, atestados os olhinhos com estas paisagens acidentadas, vou agora tentar medir por quanto tempo me vai durar o alívio, para enfrentar as planícies da ilha de Lewis.

1.9.07

Fauna local

photo sacada da net com uma cena que eu já vi muito por aqui

as scottish black face - ovelhas com cornos ou cabras que dão lã?
(as pinturas azuis são as marcas dos donos)

dois cabeludos das Highlands - os créditos do postal são da Laurie Campbell, que aqui o ermita só conseguiu fotografar vacas a dormir no meio da urze, onde praticamente não se vê um boi (literalmente)

lontrinhas lindas das Hébridas - estas aqui eu gostaria muito de ter conseguido ver ao vivo, mas é um postal do J. MacPherson, que teve muito mais sorte do que eu

29.8.07

Crónica das Hébridas - 8

Eu no escritório com um caixote na mão, encomenda do progenitor chegada da pátria lusa, com três maços de tabaco e uma data de chouriços lá dentro, a saber – dois vermelhinhos normais, um preto, duas farinheiras e um salpicão (“a Marisa vai ficar toda contente, a pensar que é um vibrador”, aproveitou logo a tarada da Moira para meter a bucha), mais dois postais com as novidades e as instruções: “se conseguires arranjar as couves, podes fazer um cozido com isto, pra mostrares aí aos selvagens o que é comida a sério”. E eu arranjei dois repolhos parecidos com couve galega e os selvagens lamberam o prato, concordando todos que depois de um almoço daqueles devíamos ir bater uma bela sorna, ficando assim explicado o hábito da “siesta” para estas cabecinhas, que continuam a achar que Portugal e Espanha têm nomes diferentes mas é tudo a mesma coisa, “assim como nós e os irlandeses, não é?” Menos clara ficou a minha grande proeza em me conseguir manter elegante (por muito que eu proteste que tou gorda que nem uma texuga) porque se os portugueses costumam enfardar comidas destas, deviam ser todos rechonchudos e luzidios; e se se vissem melhor ao espelho, iam concluir que à conta das “comidinhas leves” que fazem aqui na ilha, andam todos a rebentar as costuras, mas enfim… É como o leite – quando fiz caretas por eles beberem leite às refeições, a acompanhar comida salgada, a Marisa argumentava que era essencial para a saúde: “faz bem aos ossos e aos dentes”, dizia ela, mas se reparasse melhor, ia notar que o marido tem um lindo sorriso com dois incisivos a menos (um em cima e outro em baixo, desencontrados), a irmã tem os molares todos pretos e as filhas dividem-se entre o amarelo-desvitalisado e o cinzento translúcido das cáries interiores. Ainda não vi ninguém nesta ilha com um teclado cinematográfico, mas por falta de beberem leitinho, garanto que não é.

Noite numa festa de escola, muito ao estilo das nossas escolas, por fora com ar de estar a cair aos bocados, por dentro mais ou menos pintada e remendada para ir adiando as despesas das obras por mais uns tempos; as festas servem para arranjarem umas massitas extra para a escola. O anúncio dizia Ceilidh & coffee evening (ceilidh lê-se como “kêli” e consta de danças tradicionais com gaitas de foles), mas de ceilidh houve muito pouco e quase toda a gente preferiu beber chá. Mas eu não podia faltar. Vim por causa do coro gaélico de Point (Coisir an Rubha), onde a Moira e a Chrisella cantam, soprano e contralto respectivamente. À falta de melhor pra fazer, comecei por ir com elas aos ensaios e acabei por me interessar, por me entusiasmar com os progressos, por ficar de cabelos em pé com as fífias ainda por limar, a viver a coisa de tal maneira, que nesta noite acho que vim tão apreensiva como o próprio maestro. Mas o coro portou-se bem. O som foi talvez demasiado curto para uma sala tão grande, mas pelo menos estavam afinadinhos. Daqui a uns dias têm um concerto a sério, um concurso de coros gaélicos em Oban, e daqui até lá vai haver ensaios todas as noites, que já começam a fatigar as minhas colegas. Ainda por cima a Chrisella não se conforma que a parte dela seja tão pouco melódica; entrou no coro porque gostava de cantar, mas como tem uma bela voz de contralto, ficou limitada a servir de suporte à harmonia – “é como se os sopranos fossem de férias e os contraltos tivessem de lhes acartar com a bagagem…” – queixava-se ela um dia destes, por muito que o maestro explicasse que o coro é um trabalho de grupo e que todos são fundamentais. Lembrei-me então de uma das minhas noites em casa dela (que acabaram quase todas em copos e altas filosofias), em que estivemos a ouvir discos de vinil dos anos oitenta e a dançar em pijama, e disse-lhe que aquilo não era o triste destino dos contraltos; veja-se o exemplo da Annie Lennox. Acho que ficou mais animada, pelo menos com a ideia de que um contralto pode fazer uma bela carreira a solo quando não tem bagagens para acartar.

Sábado de filmagens. A realizadora é uma menina-miniatura, uma indiana bonita de vinte e poucos anos e menos de metro e meio de altura, que está a fazer um documentário sobre as ilhas. A ideia dela era tentar reconstruir cenas quotidianas dos anos cinquenta. E então, como precisava de actores e ainda por cima pagava para isso, ofereceram-se uns quantos do coro de Point, para arranjarem mais umas massas para pagar a estadia da equipa durante durante estes dias que vão passar em Oban. Reunidas as vestimentas da época e feitos os penteados a condizer, tínhamos três mulheres e dois homens, mais a Moira e eu para ajudar a espalhar a confusão. Metemo-nos à estrada e parámos no meio do campo, ao pé de uma casota minúscula, como as que em tempos foram usadas pelos criadores de ovelhas como “residências de verão”; o rebanho mudava de pastagem e o dono mudava-se com família e bicharada para o meio destes terrenos desertos. Esta ainda é usada e habitada por um senhor simpático, que aceitou logo emprestar a casa para as filmagens da menina indiana. Mas a pobre da rapariga teve montes de azar com o tempo, tanto que já admite voltar na Primavera e repetir tudo outra vez, porque o dia foi de banho. Dia de chuva horizontal, de tão batida a vento, escuro e miserável, dos que não dá vontade nem de pôr o nariz de fora. Nos últimos takes, com os dois homens e uma das mulheres a fingirem que cortavam a turfa (usada como combustível), as condições eram tão más que teve de ser a própria realizadora a fazer as filmagens, porque o cameraman recusou-se a continuar. Só não sei se foi por causa do tempo ou por estar ainda demasiado encavacado para sair da carrinha… Passo a explicar: estando eu, a Moira, a cortadora de turfa e um dos homens dentro do carro, todos a beber chá para aquecer, apareceu o cameraman, olhou em volta e como não viu ninguém, que os vidros do carro estavam embaciados, vá de abrir a braguilha e começar a fazer a sua mija a favor do vento, mesmo virado para nós. E então, em vez de ficar quietinha, a Moira desatou logo a limpar o vidro com a mão para ver melhor o panorama. Assim que percebeu que afinal tinha assistência, mas já demasiado lançado para poder interromper, o moço virou-se logo de costas para nós, ou seja, ficou literalmente a mijar contra o vento. Provavelmente tinha-se esquecido de que naquele dia o deserto estava particularmente habitado.

Aqui há meses, estando a Marisa a cavar batatas no seu quintal – e o quintal é qualquer coisa como um quilómetro até à falésia, com outro tanto ou mais de largo – fez cloinc numa coisa de metal e vai-se a ver sai-lhe um arreio de cavalo, um freio ferrugento, em que ela agarrou e ficou a pensar “a qual dos meus antepassados terá pertencido esta coisa?”. Com efeito, se estava no terreno dela, pode-se dizer que de certeza era coisa de um dos avós MacKenzie (ou do cavalo do MacKenzie, mais exactamente) que por ali andaram a cultivar as suas batatinhas naquele mesmo chão. Esta ligação telúrica, esta identificação entre terra e gente, dá a este pessoal a certeza do “eu pertenço aqui”, um absoluto conforto moral, meio caminho para aceitarem os limites acanhaditos desta ilha sem qualquer problema. As famílias que até agora conheci estão cá pelo menos desde o século XVII, a cultivar os mesmos terrenos que os avós cultivaram, praticamente com as mesmas famílias como vizinhas, o que automaticamente prolonga o mesmo círculo de amigos através das sucessivas gerações. O vizinho do lado é o neto do vizinho do avô, tudo é seguro, partilhado e conhecido desde o tempo dos MacAfonsinhos.
Como consequência, quem vem de fora com propósitos de se instalar fica logo debaixo d’olho. Ninguém lhes conhece a família, ninguém os viu crescer, portanto, ou provam logo à partida que são boa gente, fazem amizades e procuram integrar-se, ou então ficam irremediavelmente condenados ao ostracismo e vão-se ver à rasca para conseguirem ter uma vida normal. Os ilhéus são boa gente, não me interpretem mal, mas uma comunidade pequena torna-se facilmente desconfiada em relação a estranhos, e se eu tenho conseguido entrar em todo o lado e ser bem recebida é porque, basicamente, eles são naturalmente hospitaleiros e eu tenho cara de menina séria (um tanto excêntrica, é um facto, mas como sou estrangeira tenho direito a desconto), mas se fosse um matulão mal encarado ou tivesse ar de quem andava a atacar no Intendente, estava lixada logo à partida.
De certa maneira, têm tido muitas razões para ser desconfiados. Ainda que nunca tenha havido nenhum problema, as Hébridas têm sido usadas como refúgio para os programas de protecção a testemunhas e outro pessoal que precisa de desaparecer; mudam-lhes o nome, inventam-lhes uma história e mandam-nos para cá para recomeçarem a vida. Erro crasso, porque os nativos já os topam à légua e por muito boas pessoas que sejam, toda a gente foge deles. Normalmente as casas entram em obras antes destas famílias se mudarem, para instalar portas blindadas, vidros especiais e reforçar paredes (que as interiores são normalmente uma bela bodega, feitas com uma matéria plástica que se parte facilmente a pontapé, mesmo sem metade do caparro do Schwarznegger). Ora como os pedreiros são recrutados na ilha, o tal programa de protecção vai logo por água abaixo (...bom, se fossem pedreiros de fora também iam levantar suspeitas). Sabendo-se que o próximo habitante tem alguém atrás dele com ganas de lhe dar cabo do canastro, claro que ninguém quer estar por perto quando isso acontecer. Pode não ser justo para quem já tem problemas de sobra, mas é uma reacção natural.
Ainda por cima, nestes últimos dias, Stornoway tem estado em destaque pelos piores motivos – prenderam um bando de tarados que molestou três miudinhas daqui, o que tem deixado toda a gente agarrada aos noticiários. O que incomoda mais os indígenas (além do crime, claro) é estarem só a divulgar que os pedófilos são habitantes da ilha, sem nunca referirem que nenhum deles é natural daqui. É tudo pessoal que veio de fora e que se tinha instalado há pouco tempo a norte de Lewis.
Depois disto, começa-se a falar em fazer petições para a câmara de Stornoway passar a proibir a instalação de gente com passados suspeitos – e a suspeita pode ser apenas o facto de ser alguém que tenha mudado meia dúzia de vezes de morada durante os últimos anos, como quem anda a fugir de alguma coisa. As vizinhanças estão já a escolher representantes da comunidade e a planear recolhas de assinaturas. Aparentemente não tarda muito para Stornoway estar novamente nos noticiários, desta vez com manifestações anti-estranhos à porta da Câmara Municipal. Brrrr...
Portanto, se alguém por aí está com ideias de vir pra cá, que trate de arranjar um curriculum perfeitinho, com muitas recomendações em anexo, passe um pente no cabelo, vista-se decentemente e vá à missa logo desde o primeiro domingo, senão arrisca-se a ser deportado para a mainland no primeiro ferry boat.

11.8.07

Postais à família - 1 (para a tia do ermita)

Stornoway - postal de James Smith
Por aqui tudo Ok. Isto é a cidade onde eu estou, que vista assim parece muito grande, mas deve ser pouco maior do que a Lourinhã (6000 habitantes). O resto é campo sem árvores, só pasto e ovelhas.

Highlan Cow - postal de Colin Baxter

Aqui vai ele, o autêntico escocês das ilhas, matulão, loirinho e cabeludo, muito mais lindo que os de duas pernas (cada canastrão...). Segundo a menina que me vendeu o postal, este aqui deve ter sido lavado e penteadinho para tirar o retrato, que eles ao vivo são mais encaracoladinhos. Será que também lhe fizeram um brushing? Muuuuuú!

Lamb - postal de Normal MacSween

Ok, o animal tem cornos mas dá lã. é com esta raça de ovelhas (Scottish Black Face) que fabricam o tweed. Portanto, se é uma ovelha com cornos ou uma cabra que dá lã, decidam vocês que pró efeito é igual ao litro.

Sheep shearing - postal de Charles Tait

Tudo na palheta cheios de cotonetes à volta.


Gannet (Morus bassanus) - postal de Colin Baxter

Eu comi um destes! ...enfim, só uma coxinha, que o bicho é muito caro e não quis abusar da oferta da dona da casa; só havia um e tinha de dar para duas pessoas. A maior parte do pessoal torce o nariz, mas para os outros é uma especialidade (como gostar de queijo Rockfort - miam!); é muito salgado e com um gosto muito activo. Como a população destes passarocos estava a diminuir, a caça é limitada, dependendo da quantidade de ninhos de cada ano (mas não faço ideia como é que os contam - de helicóptero? por satélite?). Quando vi o postal perguntei à Marisa se era isto que nós tínhamos comido. Como ela sabe que eu gosto muito de bichinhos disse logo "ah, mas o que nós comemos era muito feio, não era assim bonito como esse..." Desatei-me a rir e lembrei-me de ti, de quando eu vi a travessa das lulas grelhadas à frente e fiquei com dúvidas se elas seriam inteligentes como os polvos, e tu disseste "não não, essas aí eram estúpidas que nem uma porta..."

Crónica das Hébridas - 7

Eu caída de paraquedas no concerto de um tal Mick Flavin, um irlandês muito alto com um vozeirão de baixo que chega pra sete, quanto mais pra uma salita pequena como esta da Legion (Royal British Legion). Ao vivo não é tão canastrão como nos cartazes que andaram a espalhar pelas montras, mas quando o vi aparecer no palco com um colete de cetim preto bordado a lantejoulas douradas, com um cavalinho de um lado e uma ferradura do outro, temi bastante pelo serão. Mas a seguir o homem abriu as goelas e então percebi que, quando se tem uma voz assim, até se lhe perdoam as lantejoulas. Também podia ter aparecido de boné, jardineira e enxada ao ombro, que a fatiota torna-se irrelevante em menos de nada. Aleluia.
E afinal eu até gosto de música country, não assim em dose maciça, é um facto, que duas horas disto é de empanturrar, até porque ao fim de três ou quatro cantigas já não se conseguem distinguir umas das outras – soa tudo ao mesmo – mas o pessoal está entusiasmadíssimo com o irlandês das latejoulas. Por aqui, na rádio, nos CDs que trazem para o serviço e nas cassetes que põem no carro, ou tocam música gaélica ou country. É evidente a semelhança entre as duas. Não com aquela música das gaitas de foles, que sempre me pôs os genes todos aos saltos, mas com a música gaélica cantada, com ou sem instrumentos a acompanhar (esta especialmente apreciada pelos indígenas, pra quem um cantor a sério tem de conseguir cantar sem música), bem mais popular por aqui do que as gaitas, só usadas para ocasiões especiais. São músicas agradáveis mas um tanto chatas, demasiado compridas e repetitivas. Mas percebo porque é que o country também abana a genética toda deste pessoal. O country é a música dos emigrantes, dos escoceses e dos irlandeses que tiveram de fugir daqui nos anos de penúria e levaram os sons da terrinha lá para as américas. Os temas são as saudades da casa e da família (e então passam a vida a dar-lhe com o “take me home” e o “take me back” – devem estar à espera de boleia) das miúdas lá da terra, da paisagem, enfim, é saudades e pouco mais – música de emigrantes já diz quase tudo. E antes country do que pimbas…
Quando chegámos já estava tudo cheio, mas a Moira disse logo “eu cá atrás não fico”, mesmo quando eu já estava a tentar gamar uma mesa reservada (era só mudá-la de sítio) pra não ficarmos em pé. E então, ela começou a ver quem estava, quem é que podia desenrascar, meteu-se pelo meio da maralha e quando voltou já tinha conseguido arranjar-nos três cadeiras na segunda fila da frente, não faço ideia como (somos três, que a Norag – Nora prós amigos – também veio; deveríamos ser quatro, mas o marido dela deixou-nos à porta e fugiu).
A primeira parte do concerto foi uma desgraça para aguentar aqui sentada, não pela música mas pelas ideias frescas da Moira – “levamos já duas bebidas cada uma, que assim não precisamos de interromper para vir buscar mais…” – argumento copófonico que me convenceu a trazer dois “half pints” de cerveja para o lugar, mas claro que ao intervalo já ‘távamos todas à rasquinha pra despejar.
À saída da casa de banho cruzámo-nos com o teclista do grupo, que a Moira tratou logo de convidar pra vir encher os canecos connosco. E alguém já viu um irlandês a recusar um copo? Eu também não.
Conversa puxa conversa e mais conversadores, e dali a pouco juntou-se-nos o baterista. O primeiro, o das teclas, tinha um inglês que se entendia perfeitamente; falei-lhe das minhas visitas aos calhaus e ele falou-me de túmulos e pedregulhos e druidas, e eu até achei que ele tinha um sotaque castiço que se entendia perfeitamente, agora o fulano dos tambores, caneco, teve de me repetir tudo devagarinho, que o tal sotaque castiço deve ser de outra região, tão cerrado que não se consegue entender duas seguidas – mesmo assim ainda deu pra perceber que pelos vistos eu posso vir ao bailarico de amanhã mesmo sem ter bilhete, que o moço promete que me faz entrar pelos bastidores. Até que é engraçadinho, mas eu não ‘tou inclinada pra engates e acho que não me apetece passar a noite a dizer “hã?!”, ainda por cima com alguém que começou logo da melhor maneira: “Lisboa…? Ah, na Austrália, claro.” Claríssimo.

A farra continuou pelo fim de semana, com uma data de malta abancada em casa da Marisa, a enfiar copos atrás uns dos outros até saírem de gatas, e nisso e em muita coisa são iguaizinhos a nós, provavelmente porque o bicho gente é todo igual no que toca a copos e festarolas privadas. Talvez menos comezaina do que é costume nas da minha terra, sobretudo porque só eu é que me lembrei que deveria haver uma sobremesa (o resto era tudo comida a sério para enfardar bem) e decidi fazer uma tigelada de baba de camelo. E então, em vez de a pôr na mesa, à disposição de quem quisesse, a Marisa resolveu agarrar na tigela e dar uma colher de sopa a cada um, para provarem primeiro, a ver quem ia querer mais. Tudo bem, salvo o facto de que a colher era uma só, lambida e relambida por alguns 20; em vez de baba de camelo, ficámos com cuspo de convidado, mas aparentemente toda a gente achou isto perfeitamente normal.
No geral foi uma noite divertida, em que até fizeram um concurso para ver quem tinha as mamas maiores (ganhou a Moira) e acabámos com umas guitarradas do Murdo (Murdigan para os amigos) e o pessoal todo em coro a assassinar as cantigas, enquanto os mais fracotes curtiam a buba nos sofás novos da Marisa. O trivial.

A olhar para o jornal, dei-me conta de que as fotografias do pessoal que se casou e dos moços que acabaram o curso, além dos nomes trazem também as moradas, com rua e número de porta, assim mesmo, todas escarrapachadinhas, com certeza para o caso de alguém lhes querer dar os parabéns pessoalmente. Pensei que fosse coisa das famílias, para ninguém ter dúvidas de que é mesmo o filhinho deles que aparece na página social, com um chapéu esquisito e canudo na mão, mas afinal parece que é pecha dos jornalistas, porque as moradas continuam a aparecer no resto das notícias. Como a de um puto que se enfrascou até correrem com ele do bar, por já estar a fazer muitas ondas, e resolveu ir dar uma voltinha para espairecer, com o primeiro carro aberto que encontrou (ao que parece, com chave e tudo). Daí a nada já tinha a bófia toda atrás dele, com certeza entusiasmadíssima por finalmente haver alguma coisa para fazer nesta ilha, até que o puto acabou por se enfiar numa cerca de arame, deitou os postes abaixo, pregou um cagaço medonho nas ovelhinhas e foi agarrado. Pois além de seis meses sem carta, uma multa das gordas e ano e meio de cana por andar por aí a causar distúrbios (já agora, pra que é que se deram ao trabalho de lhe apreender a carta…?), ainda lhe publicam o nome e a morada, talvez para o caso de algum dos lesados lá querer ir tirar satisfações com ele.
A não ser que os nomes que aparecem no jornal não sejam exactamente os originais, e não falo de pseudónimos, mas em combinações e abreviaturas, porque pelos vistos é normalíssimo o pessoal assinar com nomes inventados; até agora eu estava convencida que Chrisella e Marisa eram os nomes reais das minhas colegas, pelo menos é assim que elas se apresentam e assinam as cartas do escritório, mas afinal uma chama-se Christina Annabella e a outra Mary Ishbel. Abreviaram os dois, juntaram e pronto, passou a ser uma espécie de nome público. Há que concordar que é prático… e na nossa terrinha ia até resolver algumas frustrações, em casos como, por exemplo, uma Andreia Vanessa poder passar a ser Andressa ou Dreiva, ou mesmo Cátia Susana se fizesse muita questão, sem ninguém lhe levantar problemas legais por causa disso.

E então, retomando o tema da minha primeira crónica e dos meus preconceitos quanto aos ilhéus, parece-me que afinal quem está com problemas de insularidade sou eu. Ao fim de uns tempos a esbarrar com a costa a cada esquina, começo a ter a sensação de estar aqui encurralada. Isto pode parecer muito esquisito, tendo em conta que na cidade eu normalmente não ando mais do que dois quarteirões até ao comboio e que a maior parte dos meus fins de semana são passados em casa, entre as escovadelas no gato e a jogatana no computador, por falta de pachorra para saídas e noitadas. Aqui, talvez pela minha condição de estrangeira num sítio novo, a percepção do espaço ficou muito mais desperta, e isso faz-me também ter mais consciência dos limites. Porque mesmo no meu apartamentinho T1 com vista para as traseiras, ensanduichada entre dois andares, eu sei que é só pegar no carro e desatar a andar para poder chegar até à Sibéria, se me der na gana, assim haja gasolina e camisolas suficientes; na ilha tenho duas margens a 20 minutos uma da outra e campos vazios no meio. É bonito, pois, é uma paisagem praticamente minimalista, quase um deserto, e eu até sempre fui um daqueles que vivem numa cidade mas passam a vida a sonhar com os desertos, com espaços abertos sem nada a atrapalhar, onde se pode voltar às origens e resgatar o selvagem que volta e meia desata aos pulos cá por baixo da civilização toda que se carrega às costas, mas afinal, como qualquer outra treta pseudo-filosófica, esbarro com o mar e desejo uma ponte, um ferry barato (o preço é um susto), qualquer hipótese de fuga fácil, porque o que me incomoda não é o tamanho do espaço onde eu vivo, mas a falta de hipóteses de poder alargar os horizontes. Já percebi que não aguento uma prisão por muito tempo, nem que ela tenha o tamanho de uma ilha. Passada a novidade, começo a ficar um tanto sufocada, a desejar terra firme, terra grande, com montes de espaço pra fugir.Um dia destes, em vez da Crónica das Hébridas, acho que vou estar a fazer a Crónica de Cascos de Rolha, onde pelo menos um dos horizontes tenha muito chão pra pisar.

27.7.07

Tolsta

"a ponte para lado nenhum" - a prova de que a verba por aqui também é curta - a "bridge to nowhere" fica perto da praia de Tolsta e tem uma estrada até lá, mas a seguir é só um campo baldio onde praticamente já só dá para virar o carro (pouco aconselhável, de qualquer maneira, que a ponte é velha e não parece lá muito segura)

vista da ponte, com a praia de Tolsta lá ao fundo

praia de Tolsta - um grande areal de água gelada em pleno Agosto

urze florida