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28.9.08

Diário do Oeste - 23

Ermita um tanto preguiçoso e algo empanado, entupidinho de ilvicos e vitamina C, sem pachorra nem grandes temas para blogar, apesar do grande intervalo sem pôr cá nada.


Começo por umas photos que tirei há coisa de minutos, quando vi uma osguinha minúscula a subir pela parede do escritório e é claro que a fui lá agarrar. E aqui está ela a posar para a posteridade nas costas da minha mão:
Uma coisinha linda toda às pintinhas, com ventosas nos dedos.


Aqui dá para ver o pormenor do olho, de pupila vertical:
E mais um plano, agora de costas. Ah, e para os que estão aí a fazer caretas, faço notar que a pele humana das costas da minha mão, cheia de veias salientes a topar-se à transparência, é que pode meter nojo.
E já que estamos em maré de bicharada, aqui vai mais uma grilinha:Entrou-me pela janela quando eu andava a pintar, provavelmente por ser a única janela aberta e iluminada num prédio às escuras, facto assinalável porque eu estou num terceiro andar e os grilos não costumam fazer grandes voos; basicamente dão um pulinho e depois planam um bocado com as asas a vibrar, num voo um tanto atabalhoado que nunca os leva muito longe. Ou assim pensava eu. Porque esta entrou-me pelo quarto adentro que nem um foguete e pum!, enfiou uma bruta marrada contra a parede.
E como a tinta ainda estava fresca, a pobre da grilinha ficou com a cara pintada de branco, como podem ver aqui.
O meu amigo Antero ao telefone:
— Pois, eu já andava p’ra te ligar há mais tempo, mas depois pensava “a Isa vai-me dar nas orelhas porque eu nunca vou ao blog dela”, e não me conseguia lembrar do nome, só me vinha à ideia que era “o troglodita”…
— Ermita, qual troglodita!
— Sim, depois lembrei-me, não é o troglodita, é o ermita. “O ermita solitário”, não é?
— Arrrghh!!!
Mas a ideia do troglodita até não é nada má... Para um blog dedicado à cacetada, por exemplo.
Aqui há uns anos, quando eu trabalhava numa biblioteca, abria a janela de manhã e via na parede em frente, escrito em letras garrafais, um grafitti a dizer "orgulho branco". O raças do grafitti era irritante, mas a única coisa a fazer era não olhar para ele. Até que alguém com um óptimo sentido de oportunidade se foi à inscrição e lhe acrescentou um G, na mesma cor e com o mesmo tipo de letra. E assim, um belo dia eu abro a janela e vejo lá escrito "gorgulho branco". Acho que passei o resto da manhã com acessos de riso.
Na fotografia que aqui vêem, o motivo foi bem mais brejeiro do que nobre, mas o sentido de oportunidade é semelhante. Encontrei esta beleza ao pé dos correios aqui da Terra dos Loureiros. Só lá ao pé é que vi que não é pintado, é um bocadinho de fita adesiva branca a transformar o L num C. E agora podia dizer umas ordinarices a propósito da utilidade deste caixote e mesmo sobre o buraquinho tão apropriado que o contentor tem, mas acho melhor não me meter por aí.
Começou o Outono e o ventinho, sempre atento ao calendário, desatou a soprar pelas minhas janelas adentro. Uma das graças de ter instalado o meu ermitério no cimo de uma torre é exactamente o de levar com o vento à força toda. É um facto, gosto de ventanias. Tanto que já tenho a fita para calafetar as janelas há mais de um ano e ainda não me decidi a colá-la. É que depois lá se vão os uivos do vento nas frinchas, que dão à casa esta banda sonora de castelo fantasma nas noites de vento, e eu gosto à brava de adormecer a ouvir aquele embalo. E aqui temos o meu gato todo intelectual, a meditar em cima dos canhenhos.


Não sei se já deram por isso, mas as rolas são umas brutinhas sem maneiras nenhumas. Normalmente comem sempre com as patas dentro do prato e a beber água fazem o mesmo, sem se importarem nada de molhar a barriga (e de irem largando alguns presentes ao mesmo tempo, claro).
Tive o cuidado de escolher pratos de vaso em barro exactamente por terem um rebordo grosso, bom para a passarada se empoleirar, e os pardais perceberam logo a ideia. Às vezes também saltam para dentro do prato, sobretudo quando já está meio vazio, mas o normal é comerem da borda. Elas não, é logo à grande e à bruta, tipo "isto aqui é tudo meu". São no entanto bastante mais sociáveis. Não fogem quando eu apareço, observam-me um bocadinho e a seguir voltam a concentrar-se na paparoca. Os pardais ficam também mais afoitos quando elas estão na minha varanda. Normalmente são uns espantadiços que fogem com um "tchiiiip!" histérico assim que me vêem, mas enquanto as rolas não saem dali eles também se vão deixando estar, um tanto à parte, altamente desconfiados, mas pelo menos não fogem. Aparentemente sentem-se mais seguros. Não sei se acham que eu me vou atirar ao pássaro maior se estiver com fome (realmente um passarinho do tamanho deles deve caber na cova de um dente, aquilo só como aperitivo), ou se para eles as rolas serão um passarão possante, cheio de caparro, que os vai defender em caso de ataque (esperem por essa...). De qualquer maneira, há ali uma hierarquia qualquer. Quando vem um grupo de pardais, andam à bicada uns aos outros, em grandes refilices vocálicas e avanços espanejados, todos à bulha pelo direito de comer do prato, mas quando há uma ou duas rolas os gajos portam-se lindamente e comem todos sossegados, sem jogar à bicada. Talvez se lembrem que é melhor não dar ideias ao matulão...


E agora uma pequena colecção de rebentos:
O filhote da Tiquitas.

Os filhotes da Riscadinha.

O filhote da Sílvia.

O filhote da Tânia.
Um dia eu ainda arranjo um coiso destes.

E mais alguns rebentos vegetais, como não podia deixar de ser:
O hibisco quase laranja do progenitor.

Uma flor de um hibisco enorme, que conseguiu passar ao estatuto de arbusto farfalhudo, coisa rara por estas bandas em que o pessoal parece que não pode ver uma planta matulona, que fica logo cheio de cócegas na tesoura e até se põe a inventar motivos parvos para a poder derrotar, tipo "gasta a terra" (mesmo quando é suposto ser um jardim) ou "dá cabo dos muros" (mas dar uma caiadela no dito ou tapar-lhe os buracos, 'tá quieto).

A relação com as árvores (e com as plantas em geral, mas sobretudo com as árvores) é aparentemente bastante diferente entre o pessoal das várias zonas. Aqui no Oeste há normalmente uma preocupação com a utilidade da coisa. As flores não são úteis; o que interessa são as nabiças e as batatas. E esta utilidade tem de ser exclusiva para o dono. Aqui há uns anos, na aldeola onde agora mora a minha tia, contou-me uma vizinha que os sacristas dos putos costumavam roubar peras do quintal dela, mas que agora tinha arranjado um veneno bestial, que deixava os malandros todos com uma caganeira medonha. A chatice é que ela também não podia comer as peras, mas paciência, porque pelo menos lixava os larápios. Porra de lógica, não? Mas há mais. Isto é típico cá da região. O meu pai conta que um tio meu, um saloio da banda saloia da família por afinidade (que já não tem nada a ver com o meu lado, hem?!) tinha uma bela figueira no quintal. Um dia foi-se à figueira e cortou-a rente. O motivo era o mesmo da outra: como os putos lhe roubavam figos, o gajo decidiu que não era para ele mas também não havia de ser para os outros. E a pobre da árvore é que pagou as favas à conta da sovinice do dono. O meu avô, o pai do meu pai, um beirão que não tem nada a ver com saloios, tinha exactamente a atitude oposta. Contavam-lhe que os putos lhe assaltavam as árvores do pomar e ele respondia que isso não tinha importância porque o melhor ficava sempre para o dono (que tinha uma escada para ir lá acima buscar o grosso da fruta, ora pois). Lembro-me de um documentário onde um árabe (não seria forçosamente da Arábia, mas já não sei em que terra se passava aquilo) estava a apreciar um sítio com árvores, porque era bonito e fresquinho e tinha sombras e ai que bem que se está aqui. O fulano do documentário perguntava-lhe então porque é que ele não plantava árvores no pátio dele. E o gajo respondeu que as árvores demoravam tanto a crescer que a sombra já não ia ser para ele, mas sim para os filhos dele. Portanto, eles que as plantassem (e contra isto batatas...).
Ora cá temos então a origem da lógica saloia. Isto deve estar-lhes nos genes. Os mouros vieram por aí acima com ideias destas e os descendentes deles ainda não tiveram melhoras nenhumas.


E aqui temos outro exemplar todo ramalhudo que escapou à furia assassina da tesourada, um belo arbusto cheio de florinhas roxas em frente ao escritório da Paulinha contabilista, que me trata do IVA e do IRS
que por sinal ainda não houve meio de chegar, oh rai's parta. Pelos vistos fiquei para o fim. Sorte malvada.
Segue-se agora uma rosa lilás, e pois, garanto que é mesmo desta cor, não há cá photoshop.
A única coisa que eu fiz foi cortar as margens da fotografia porque as pétalas de fora estavam já um bocado estragadas. Presumo que esta variedade seja rara de encontrar exactamente por ser mais frágil.
E aqui temos uma rosa amarela bastante mais rústica, daquelas que se abrem tanto que acabam por se escangalhar.

10.8.08

Diário do Oeste - 22

E pronto, acabaram as obras e já tenho os armários montados - conforme prometido, aqui vai a cozinha do ermita para vocês verem:
E tenho um lava-louças amarelo! Weeee!
Mas há uma coisa que não entendo lá muito bem. Falo da minha panca inédita pelas limpezas. É um tanto estranho, sobretudo para uma baldas como eu, passar agora a vida a limpar a mínima dedada dos armários, com um zelo como nunca tive. Talvez por ser uma coisa nova - mas não tenho tantos pruridos com a casa de banho, que também foi toda reformada, como já aqui mostrei no último Diário. Ou talvez por ter custado bastante mais do que eu estava à espera, porque afinal o sacrista do carpinteiro tinha-me dado um orçamento sem IVA e em seguida ainda meteu mais uma série de extras com que eu não contava. Ou então, mais provavelmente, é por eu ter finalmente uma cozinha ao meu gosto, uma cozinha como nunca tive, porque até agora sempre vivi com remedeios, a aproveitar os móveis de umas casas para as outras, sempre na base do desenrasca, do provisório e do dá pra safar. De raiz, do zero, acho que nunca tive coisa nenhuma. E agora é ver-me de pano na mão todos os dias, cheia de zelos, a limpar todos os pingos de água de cima da bancada, para o calcário não deixar manchas na minha bela cozinha nova.
Mas isto passa. Ou não. Logo se vê.

E além das obras e da semana atrapalhada, cheia de trabalho, a única novidade foi a comadre ter aparecido com o afilhado para passarem umas mini-férias comigo, aqui na Terra dos Loureiros.
Já o apresentei aqui, mas ainda ninguém o tinha visto com os óculos. Nem eu. Pelo menos ao vivo. Mas ficou muito giro:

Aqui a versão do Harry Potter em miniatura é o meu afilhado com um casaco de malha da madrinha, no dia em que eles cá chegaram.

Pois vinha a comadre cheia de fungas para ir passar estes dias na praia, a torrar ao sol que nem uma iguana dos Galápagos, e chegou aqui e deu com o belo microclima cá do sítio, farrusco, ventoso e instável - o costume. Mas sempre é mais saudável (e agradável) do que o calor poluído de Lisboa nesta altura do ano. E depois, mesmo que agora não apanhem grandes dias de sol, eles já tinham andado a banhos este ano, como nesta photo tirada pelo compadre que descarreguei há bocado da maquineta dela:
A comadre na piscina com o Gabriel, antes deles terem vindo para cá tomar banho de areia, que na praia tem estado um ventinho do caraças.

E quanto ao pobre do compadre, ficou em Lisboa a trabalhar e a tratar dos miaus,
a Quicas e o Yuki, estas duas fofuras aqui.

Mas ainda vai dando para molhar o rabiosque aqui na Areia Branca, evidentemente, como fez o Gabriel dentro da sua barroca:
E vocês não se assarapantem, que nem o gaiato está desta cor, nem a areia daqui é amarelo torrado; isto é simplesmente uma photo da comadre com photoshop meu - está demasiado saturada para se distinguir bem a água a esparrinhar.

Hoje fomos almoçar na praia de Santa Rita, nós os três mais a tia, como podem comprovar aqui na photo que o Gabriel nos tirou no parque de estacionamento:
O ermita, a tia e a comadre; três bruxas em três estilos. Uma pandilha do caraças. Ehehehe.

E o meu lindinho não é tão fotogénico? Oh pra ele:



A seguir parámos na praia de Porto Novo, logo ali ao lado, e fomos fotografar os patos reais na foz do rio Alcabrichel.
Em 2003 e 2004 houve aí uns cabrões, daqueles que estavam melhor sem cabeça, que fizeram descargas de produtos tóxicos para o rio e deram cabo dos patos todos aqui da zona. Não sei como está agora a situação dos patos reais de Porto Novo, mas pelo menos encontrámos um bom grupinho deles a tomar banho de sol nas margens e a posar para os turistas.

Uma photo da comadre, com um patinho a catar-se,
que o zoom da minha máquina não é suficiente para apanhar patinhos lá tão longe.

E entretanto apareceram dois putos chatos que resolveram ir à areia ter com eles, o que só resultou numa debandada geral de pato ao banho.
fujam, que vêm lá os bárbaros

E fugiram todos rio acima. Fim da sessão fotográfica. Ah putos dum sacana.

Voltámos então a casa da tia, onde ela aproveitou para atacar os cigarros da comadre, como vocês podem comprovar aqui, no momento em que a apanhei com a boca na botija:
Para quem não se lembra ou nunca passou pelo meu blog, basta dar uma espreitadela às entradas antigas para a verem no hospital aqui há um mês, depois de operada aos gasganetes, com tubos no pescoço e no nariz e na mão e sei lá mais aonde. Nessa altura, cada vez que alguém lhe dizia que ela nunca mais podia tocar no tabaco, a tia confirmava que não, nunca jamais, que tinha feito uma jura sagrada (seja lá o que isso for...) e que nunca mais ia tocar em tal coisa. E agora, depois de já me ter cravado duas passas esporádicas (à terceira ofereci-lhe porrada) e de hoje ter chuchado um cigarro inteiro, continua a dizer que não, que "é só para ver a que sabe", argumento de viciado na ressaca antes de começar a amarinhar pelas paredes, como toda a gente sabe. Pois a acreditar na tal jura, acho que teria sido a altura certa para os anjinhos lhe mandarem um raio à cabeça. Mas pelos vistos esses tais devem ter mais que fazer.

Enfim, passando para o quintal da tia, onde o ar é bem mais respirável (quando o vizinho não anda a espalhar estrume, claro), temos aqui duas florinhas de erva da fortuna roxa:
Existem várias qualidades de erva da fortuna e creio que esta é a única que dá flor. Mas eu também não devo conhecer as variedades todas. Quando muito umas cinco...

E aqui são flores de uma trepadeira ainda a ganhar força num vaso antes de poder passar para a terra do canteiro:
Mas já está toda arrebitadinha:

E uma grilinha que encontrei no quintal, na noite do domingo passado:
Abram a photo, que vale a pena ver bem o bicho. Topa-se que é uma grila porque os grilos machos têm dois rabinhos e as fêmeas têm três. Não cantam mas são uns bichinhos simpáticos na mesma, que nem se importam de posar na mão dos maraus que as querem fotografar. Belas antenas, hem?

Termino com mais uma photo de texturas, desta vez com calhaus. Bué da calhaus, aliás.