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14.1.10

Diário do Oeste - 34

O ermita não foi levado na enxurrada que passou aqui pelo Oeste, estava simplesmente com a preguiça habitual e só agora, aos catorze dias de 2010, é que arranjou pachorra para o primeiro diário do ano.


Quanto à tempestade, acordei nessa madrugada com o vendaval lá de fora e levantei-me para ir fechar os estores. A chuva não caía, redemoinhava, de tal maneira que quase não se via um boi lá para fora. Mesmo assim ainda dava para distinguir o pinheiro à frente do meu ermitério a dançar a conga do outro lado da rua e os faróis dos desgraçados apanhados ao volante, a passarem pela rotunda. Ouvia-se o barulho de coisas a partir e a serem arrastadas, mas não se conseguia ver o que era. Nessa manhã fui para a rua de máquina em punho, a pensar que ia encontrar a Terra dos Loureiros toda de pantanas, mas afinal não havia tantos estragos como estava à espera. O pinheiro safou-se, mas algumas árvores do separador da rua de trás e outras à volta do campo de futebol já não tiveram tanta sorte. Além das árvores desenraizadas, havia ramos partidos por todo o lado e lixo, montes de lixo dos contentores virados, espalhado pela rua toda (aqueles barulhos de coisas a arrastar deviam ser dos caixotes). Grande parte dos sinais de trânsito e a maioria dos placards dos anúncios foram deitados abaixo ou ficaram dobrados. Um tapume de placas onduladas ficou só em metade e uma casa bonitinha à saída da vila ficou com o torreão meio destelhado. Não vi ao vivo as estufas destruídas nem os grandes estragos que apareceram na televisão. Isso passou-se aqui à volta, nas zonas mais descampadas - e as estufas são estruturas fraquitas, nunca aguentam grandes borrascas.


Passada a tempestade, decidi-me finalmente a pôr as fitas de espuma a calafetar as janelas e agora, com muita pena minha, é que lá se foi a banda sonora de castelo fantasma. A casa deixou de assobiar com o vento. Uma chatice. Mas com este tempo, convinha, é um facto.


E uns dias depois foi o Natal e eu tive cá oito galfarros a jantar - uma óptima oportunidade para finalmente estrear a mesa da sala toda aberta. Aqui já estava tudo na altura da sobremesa e ninguém se dignou a bater-se à photo. Ah sacristas. O meu mano com o seu belo barrete à gandulo.


Tal como é habitual nestas alturas, foi uma comilança daquelas, até já não caber mais. Um atentado à figadeira e à dieta, que foi logo às urtigas assim que eu vi uma lampreia de ovos à minha frente. A do ano passado tinha um ar mais patusco, tinha a língua de fora e os olhinhos arregalados. Esta tinha um ar mais carrancudo, um tanto sarcástico, até, mas marchou que foi uma beleza - ah faneca! (...ou ah lampreia?)


E depois veio o ano novo e mais outra dose de calorias. A minha figadeira estava já tão combalida por causa das primeiras festas, que disse à minha tia que estava a pensar em comer só uma sopinha e meia dúzia de gambas, para ela não fazer um granda banquete como de costume, a pensar que eu ia ajudar a comer aquilo tudo. Com efeito, o meu jantar foi realmente a sopa mais as gambas; o pior foi quando apareceu um bolo brigadeiro à sobremesa para estragar tudo... O grupinho do ano novo, na casa da minha tia.
E no entanto - maravilha das maravilhas - não engordei nem nada. Fiquei com o fígado aos apitos, meia enjoada com a comida nos dias que se seguiram, antes de fazer uma semana de desintoxicação, mas mantive o peso (yupi yupi). O site da tal dieta que eu tinha feito dizia que isto alterava o metabolismo e que a seguir podíamos comer normalmente e manter o peso durante três anos. Treta - pensei eu. Ainda por cima isto não foi comer normalmente, foi enfardar à grande. Mas o facto é que consegui chegar aos 52 quilitos, o que já não é nada mau para o meu metro e sessenta e três de estrutura leve, e mantê-los mesmo com aquela comezaina toda. Continuo a acreditar que não há dieta nenhuma com uns efeitos que se prolonguem durante três anos, mas ver resultados no presente pelo menos é bastante animador.


Uns dias depois apareceu-me aqui o meu amigo Antero, que eu já não via há três anos, desde que vim morar para a Terra dos Loureiros. O ermita mais o Antero na Areia Branca.


Sempre o conheci com a barba inteira, mas pelos vistos agora rapou os queixos e ficou só com um bigode. Lembrei-me logo de um colega meu do grupo de teatro da faculdade, que uma vez me disse que nunca confiasse num homem com bigodes. Ele lá teria os seus motivos para ter esta teoria, um passado com bigodudos que lhe tivessem puxado o tapete, talvez. A ideia era de que um fulano com bigodes está sempre nas meias tintas, naquela zona do não é nem deixa de ser. Nunca dei grande crédito à teoria, mas o facto é que é das tais coisas que me vêm à ideia assim que vejo uns bigodes à frente.


O Antero anda a aprender a tocar guitarra e trouxe o brinquedo novo para me mostrar as habilidades. Sempre tive vontade de aprender, mas foi altamente instrutivo ter uma coisa daquelas na mão e alguém para me explicar onde pôr os dedos; o facto é que me passaram logo as fungas todas. Começa por eu afinal não ter umas mãos suficientemente grandes para abarcar o braço da guitarra e pisar convenientemente as cordas. Os dedos não chegam lá e tenho de fazer uma grande ginástica para conseguir dar a volta ao braço, à custa de ter de largar o polegar - e como é que se faz força nas cordas sem ter o polegar a segurar aquilo do outro lado? Também não sei. Para o tamanho das minhas mãos, acho que só um banjo ou um bandolim. Guitarra, 'tá quieto. E depois, nunca ninguém me tinha dito que afinal aquela porcaria aleija os dedos.
"Ah pois, é preciso ganhar calo", dizia-me ele.
Calos?! Nos dedinhos da menina?! O caraças! Já desisti, pronto.


Como o Antero tem um zoom bastante melhor do que o meu, conseguiu apanhar uns passarinhos esgravulhas a correr pela areia molhada da foz entre o Areal e a Areia Branca:
E por falar em passarinhos, o meu pai teve a sorte de apanhar um pardal a fazer pose num dos pratos da minha varanda, já vazio depois da dose da manhã (há dias em que chego a pôr lá três). Uma sorte do caraças, de facto, porque eles fogem assim que nos chegamos à cortina. As manchas esbranquiçadas são pingos de água no vidro da janela. Normalmente isto é o melhor que se consegue:
Tirada a puxar a cortina devagarinho para esticar as pregas e se conseguir ver as rolas à volta do prato. O pardal que o meu pai fotografou devia ser meio pitosga. Ou então tem uma confiança do caneco.


Mas voltando ao passeio com o Antero.
Fomos até à praia da Areia Branca, que desta vez estava completamente sem areia - de onde se conclui que o gajo que lhe deu o nome só a deve ter visto no Verão. Bué da caniços logo à entrada. Aqui nesta zona é onde o pessoal costuma abancar durante o Verão, sentado no murete, uns a comer tremoços (a senhora dos tremoços e das pevides arma aqui o estaminé) e os outros a sacudir a areia dos pés antes de calçarem as chanatas. Mas como podem ver, isto agora é só calhaus. A zona cinzenta por onde a água avança não é areia, é rocha lisa. Pela altura a que ficam os degraus das escadas, tanto numa fotografia como na outra, podem calcular a quantidade areia que aqui falta. O que vale é que daqui a uns meses o mar devolve tudo outra vez. E a minha pena foi não ter umas galochas para poder ir lá abaixo. Agora é que era uma altura bestial para ir aos fósseis. Se a areia não voltar entretanto, vou tentar ir lá com o progenitor no fim de semana que vem.


Acho que nunca contei que aqui há uns anos o meu pai e eu passávamos a vida de cu p'ó ar pelas praias do Oeste à caça de dinossauros. Ou do que resta deles. O que por vezes é muito pouco, mas nem por isso deixam de escapar a um olho treinado - olaré. Porque, acreditem ou não (problema vosso), isto aqui a enfeitar o meu dedo torto é um ossinho fossilizado, o mais pequeno que encontrei até hoje e que, apesar da forma regular, está tal e qual o encontrei (engaste à parte, evidentemente). O mar e a areia encarregaram-se de o tornar oval, ao longo de uns quantos milénios ao rebolão.E como é que eu sei que isto é um osso? Pela estrutura, ora bem. Depois de ver uma data de ossitos fossilizados e de lhes conhecer as cores e os padrões, um caçador de dinossauros já não tem dúvida nenhuma. Ou melhor, tem uma. A respeito do bicho. Com um fragmento deste tamanho não se consegue saber se o osso pertencia a um dinossauro ou a um crocodilo, por exemplo. Fosse o que fosse, cento e oitenta milhões de anos depois veio parar à mão de um primata, coisa que ainda não existia no tempo em que o animal andou por aqui.
Ora vejam lá bem o coisinho ao perto:E isto aqui é uma vértebra, o melhor exemplar que encontrei até hoje. Uma vez achei uma maior, mas estava metida num granda pedregulho. Acartei com ela, com a ajuda da comadre (que nessa altura ainda nem imaginava que viria a ter tal título), e fomos entregá-la ao museu. Mas esta ficou comigo até agora. Vista de um lado e do outro. Tem cerca de quinze centímetros de largura e é assinalavelmente macia ao tacto. E aqui vista de topo:A estrutura da ponta mais em pormenor: A cor aqui está diferente porque nas primeiras fotografias a vértebra levou com uma flashada em cima e ficou cinzenta. Ao vivo é de facto mais para o cinzento do que para o castanho, mas à luz das lâmpadas saiu com um tom mais quente.
E aqui podem ver a mesma estrutura ainda mais de perto: Os dinossauros tornaram-se o emblema da Terra dos Loureiros já há uns anos, destronando o próprio loureiro que lhe deu o nome. E agora é vê-los por todo o lado. Duas photos do progenitor tiradas neste Verão, com rotundas e dinossauros. A de cima nem sei onde fica, mas a de baixo é aqui mesmo na vila, com três silhuetas aparentemente em tamanho natural. Uma pena não terem pintado o metal, porque a ferrugem vai acabar por comer a estátua: Aqui há tempos andei a vasculhar nos sites dos criacionistas. Os criacionistas são umas criaturas que acreditam que a Bíblia conta de facto a história da Terra, ou seja, como aquilo não fala lá em dinossauros de espécie nenhuma, é porque eles nunca existiram. Deus fez o mundo em sete dias e pronto - literalmente.
Esta é das tais que me deixam de cabelos em pé. Ver os sites, uns brasileiros e outros norte-americanos (aparentemente a praga só tem proporções graves lá pelas Américas), é daquelas coisas que dá medo e vontade de rir ao mesmo tempo. Impressiona sobretudo ver tanto pessoal com um fanatismo à prova de bala. Seria de imaginar que fosse uma coisa de malta analfabruta, mas nem isso; há por lá muito gajo que tinha obrigação de conseguir ver um palmo à frente do nariz. Um deles até foi o presidente lá da terra - o Bush é um criacionista, pois, mas vindo daquela cabecinha também não é nenhuma admiração.
O meu pai teve um cunhado que era pastor de uma igreja protestante. Entre um caçador de fósseis e um pastor, seria de temer que a conversa fosse por vezes um tanto espinhosa, mas o homem tinha suficiente bom senso para não discutir religião com pessoal agnóstico. No entanto, sempre se recusou a entrar no museu para ver a colecção de fósseis. Suponho que tivesse receio de vir a ter dúvidas. Ou de um conflito qualquer entre as evidências e a fé. De facto, deve ser um bocado difícil negar um esqueleto de trinta metros à frente do nariz. Cá não temos disso, mas na América e na China há esqueletos inteiros. Como é que fazem os crentes por lá? Tapam os olhinhos e dizem "isto não existe, eu não estou a ver nada"? Ah, mas para isso tinham de entrar no museu, claro...
A fé é uma coisa cegueta, é um facto.


Só mais umas coisas fofas para rematar; a Yara com a última cria da ninhada a ser entregue aos novos donos, e que se passou a chamar Fanny:
A patinha esticada é a imagem de marca da Yara.

4.6.09

Olhópassarinho!

melro na relva ratada à porta da minha casa - uma pena o zoom não dar p'ra mais

rola na varanda, a ver a minha mão a segurar a máquina por entre a cortina e ainda a decidir se será caso p'ra fugir ou não

dois pombos no telhado da Manuela a tentarem perceber por que raio estarei eu com a mão no ar, por cima do muro, a segurar uma coisinha prateada

28.9.08

Diário do Oeste - 23

Ermita um tanto preguiçoso e algo empanado, entupidinho de ilvicos e vitamina C, sem pachorra nem grandes temas para blogar, apesar do grande intervalo sem pôr cá nada.


Começo por umas photos que tirei há coisa de minutos, quando vi uma osguinha minúscula a subir pela parede do escritório e é claro que a fui lá agarrar. E aqui está ela a posar para a posteridade nas costas da minha mão:
Uma coisinha linda toda às pintinhas, com ventosas nos dedos.


Aqui dá para ver o pormenor do olho, de pupila vertical:
E mais um plano, agora de costas. Ah, e para os que estão aí a fazer caretas, faço notar que a pele humana das costas da minha mão, cheia de veias salientes a topar-se à transparência, é que pode meter nojo.
E já que estamos em maré de bicharada, aqui vai mais uma grilinha:Entrou-me pela janela quando eu andava a pintar, provavelmente por ser a única janela aberta e iluminada num prédio às escuras, facto assinalável porque eu estou num terceiro andar e os grilos não costumam fazer grandes voos; basicamente dão um pulinho e depois planam um bocado com as asas a vibrar, num voo um tanto atabalhoado que nunca os leva muito longe. Ou assim pensava eu. Porque esta entrou-me pelo quarto adentro que nem um foguete e pum!, enfiou uma bruta marrada contra a parede.
E como a tinta ainda estava fresca, a pobre da grilinha ficou com a cara pintada de branco, como podem ver aqui.
O meu amigo Antero ao telefone:
— Pois, eu já andava p’ra te ligar há mais tempo, mas depois pensava “a Isa vai-me dar nas orelhas porque eu nunca vou ao blog dela”, e não me conseguia lembrar do nome, só me vinha à ideia que era “o troglodita”…
— Ermita, qual troglodita!
— Sim, depois lembrei-me, não é o troglodita, é o ermita. “O ermita solitário”, não é?
— Arrrghh!!!
Mas a ideia do troglodita até não é nada má... Para um blog dedicado à cacetada, por exemplo.
Aqui há uns anos, quando eu trabalhava numa biblioteca, abria a janela de manhã e via na parede em frente, escrito em letras garrafais, um grafitti a dizer "orgulho branco". O raças do grafitti era irritante, mas a única coisa a fazer era não olhar para ele. Até que alguém com um óptimo sentido de oportunidade se foi à inscrição e lhe acrescentou um G, na mesma cor e com o mesmo tipo de letra. E assim, um belo dia eu abro a janela e vejo lá escrito "gorgulho branco". Acho que passei o resto da manhã com acessos de riso.
Na fotografia que aqui vêem, o motivo foi bem mais brejeiro do que nobre, mas o sentido de oportunidade é semelhante. Encontrei esta beleza ao pé dos correios aqui da Terra dos Loureiros. Só lá ao pé é que vi que não é pintado, é um bocadinho de fita adesiva branca a transformar o L num C. E agora podia dizer umas ordinarices a propósito da utilidade deste caixote e mesmo sobre o buraquinho tão apropriado que o contentor tem, mas acho melhor não me meter por aí.
Começou o Outono e o ventinho, sempre atento ao calendário, desatou a soprar pelas minhas janelas adentro. Uma das graças de ter instalado o meu ermitério no cimo de uma torre é exactamente o de levar com o vento à força toda. É um facto, gosto de ventanias. Tanto que já tenho a fita para calafetar as janelas há mais de um ano e ainda não me decidi a colá-la. É que depois lá se vão os uivos do vento nas frinchas, que dão à casa esta banda sonora de castelo fantasma nas noites de vento, e eu gosto à brava de adormecer a ouvir aquele embalo. E aqui temos o meu gato todo intelectual, a meditar em cima dos canhenhos.


Não sei se já deram por isso, mas as rolas são umas brutinhas sem maneiras nenhumas. Normalmente comem sempre com as patas dentro do prato e a beber água fazem o mesmo, sem se importarem nada de molhar a barriga (e de irem largando alguns presentes ao mesmo tempo, claro).
Tive o cuidado de escolher pratos de vaso em barro exactamente por terem um rebordo grosso, bom para a passarada se empoleirar, e os pardais perceberam logo a ideia. Às vezes também saltam para dentro do prato, sobretudo quando já está meio vazio, mas o normal é comerem da borda. Elas não, é logo à grande e à bruta, tipo "isto aqui é tudo meu". São no entanto bastante mais sociáveis. Não fogem quando eu apareço, observam-me um bocadinho e a seguir voltam a concentrar-se na paparoca. Os pardais ficam também mais afoitos quando elas estão na minha varanda. Normalmente são uns espantadiços que fogem com um "tchiiiip!" histérico assim que me vêem, mas enquanto as rolas não saem dali eles também se vão deixando estar, um tanto à parte, altamente desconfiados, mas pelo menos não fogem. Aparentemente sentem-se mais seguros. Não sei se acham que eu me vou atirar ao pássaro maior se estiver com fome (realmente um passarinho do tamanho deles deve caber na cova de um dente, aquilo só como aperitivo), ou se para eles as rolas serão um passarão possante, cheio de caparro, que os vai defender em caso de ataque (esperem por essa...). De qualquer maneira, há ali uma hierarquia qualquer. Quando vem um grupo de pardais, andam à bicada uns aos outros, em grandes refilices vocálicas e avanços espanejados, todos à bulha pelo direito de comer do prato, mas quando há uma ou duas rolas os gajos portam-se lindamente e comem todos sossegados, sem jogar à bicada. Talvez se lembrem que é melhor não dar ideias ao matulão...


E agora uma pequena colecção de rebentos:
O filhote da Tiquitas.

Os filhotes da Riscadinha.

O filhote da Sílvia.

O filhote da Tânia.
Um dia eu ainda arranjo um coiso destes.

E mais alguns rebentos vegetais, como não podia deixar de ser:
O hibisco quase laranja do progenitor.

Uma flor de um hibisco enorme, que conseguiu passar ao estatuto de arbusto farfalhudo, coisa rara por estas bandas em que o pessoal parece que não pode ver uma planta matulona, que fica logo cheio de cócegas na tesoura e até se põe a inventar motivos parvos para a poder derrotar, tipo "gasta a terra" (mesmo quando é suposto ser um jardim) ou "dá cabo dos muros" (mas dar uma caiadela no dito ou tapar-lhe os buracos, 'tá quieto).

A relação com as árvores (e com as plantas em geral, mas sobretudo com as árvores) é aparentemente bastante diferente entre o pessoal das várias zonas. Aqui no Oeste há normalmente uma preocupação com a utilidade da coisa. As flores não são úteis; o que interessa são as nabiças e as batatas. E esta utilidade tem de ser exclusiva para o dono. Aqui há uns anos, na aldeola onde agora mora a minha tia, contou-me uma vizinha que os sacristas dos putos costumavam roubar peras do quintal dela, mas que agora tinha arranjado um veneno bestial, que deixava os malandros todos com uma caganeira medonha. A chatice é que ela também não podia comer as peras, mas paciência, porque pelo menos lixava os larápios. Porra de lógica, não? Mas há mais. Isto é típico cá da região. O meu pai conta que um tio meu, um saloio da banda saloia da família por afinidade (que já não tem nada a ver com o meu lado, hem?!) tinha uma bela figueira no quintal. Um dia foi-se à figueira e cortou-a rente. O motivo era o mesmo da outra: como os putos lhe roubavam figos, o gajo decidiu que não era para ele mas também não havia de ser para os outros. E a pobre da árvore é que pagou as favas à conta da sovinice do dono. O meu avô, o pai do meu pai, um beirão que não tem nada a ver com saloios, tinha exactamente a atitude oposta. Contavam-lhe que os putos lhe assaltavam as árvores do pomar e ele respondia que isso não tinha importância porque o melhor ficava sempre para o dono (que tinha uma escada para ir lá acima buscar o grosso da fruta, ora pois). Lembro-me de um documentário onde um árabe (não seria forçosamente da Arábia, mas já não sei em que terra se passava aquilo) estava a apreciar um sítio com árvores, porque era bonito e fresquinho e tinha sombras e ai que bem que se está aqui. O fulano do documentário perguntava-lhe então porque é que ele não plantava árvores no pátio dele. E o gajo respondeu que as árvores demoravam tanto a crescer que a sombra já não ia ser para ele, mas sim para os filhos dele. Portanto, eles que as plantassem (e contra isto batatas...).
Ora cá temos então a origem da lógica saloia. Isto deve estar-lhes nos genes. Os mouros vieram por aí acima com ideias destas e os descendentes deles ainda não tiveram melhoras nenhumas.


E aqui temos outro exemplar todo ramalhudo que escapou à furia assassina da tesourada, um belo arbusto cheio de florinhas roxas em frente ao escritório da Paulinha contabilista, que me trata do IVA e do IRS
que por sinal ainda não houve meio de chegar, oh rai's parta. Pelos vistos fiquei para o fim. Sorte malvada.
Segue-se agora uma rosa lilás, e pois, garanto que é mesmo desta cor, não há cá photoshop.
A única coisa que eu fiz foi cortar as margens da fotografia porque as pétalas de fora estavam já um bocado estragadas. Presumo que esta variedade seja rara de encontrar exactamente por ser mais frágil.
E aqui temos uma rosa amarela bastante mais rústica, daquelas que se abrem tanto que acabam por se escangalhar.