29.8.07

Crónica das Hébridas - 8

Eu no escritório com um caixote na mão, encomenda do progenitor chegada da pátria lusa, com três maços de tabaco e uma data de chouriços lá dentro, a saber – dois vermelhinhos normais, um preto, duas farinheiras e um salpicão (“a Marisa vai ficar toda contente, a pensar que é um vibrador”, aproveitou logo a tarada da Moira para meter a bucha), mais dois postais com as novidades e as instruções: “se conseguires arranjar as couves, podes fazer um cozido com isto, pra mostrares aí aos selvagens o que é comida a sério”. E eu arranjei dois repolhos parecidos com couve galega e os selvagens lamberam o prato, concordando todos que depois de um almoço daqueles devíamos ir bater uma bela sorna, ficando assim explicado o hábito da “siesta” para estas cabecinhas, que continuam a achar que Portugal e Espanha têm nomes diferentes mas é tudo a mesma coisa, “assim como nós e os irlandeses, não é?” Menos clara ficou a minha grande proeza em me conseguir manter elegante (por muito que eu proteste que tou gorda que nem uma texuga) porque se os portugueses costumam enfardar comidas destas, deviam ser todos rechonchudos e luzidios; e se se vissem melhor ao espelho, iam concluir que à conta das “comidinhas leves” que fazem aqui na ilha, andam todos a rebentar as costuras, mas enfim… É como o leite – quando fiz caretas por eles beberem leite às refeições, a acompanhar comida salgada, a Marisa argumentava que era essencial para a saúde: “faz bem aos ossos e aos dentes”, dizia ela, mas se reparasse melhor, ia notar que o marido tem um lindo sorriso com dois incisivos a menos (um em cima e outro em baixo, desencontrados), a irmã tem os molares todos pretos e as filhas dividem-se entre o amarelo-desvitalisado e o cinzento translúcido das cáries interiores. Ainda não vi ninguém nesta ilha com um teclado cinematográfico, mas por falta de beberem leitinho, garanto que não é.

Noite numa festa de escola, muito ao estilo das nossas escolas, por fora com ar de estar a cair aos bocados, por dentro mais ou menos pintada e remendada para ir adiando as despesas das obras por mais uns tempos; as festas servem para arranjarem umas massitas extra para a escola. O anúncio dizia Ceilidh & coffee evening (ceilidh lê-se como “kêli” e consta de danças tradicionais com gaitas de foles), mas de ceilidh houve muito pouco e quase toda a gente preferiu beber chá. Mas eu não podia faltar. Vim por causa do coro gaélico de Point (Coisir an Rubha), onde a Moira e a Chrisella cantam, soprano e contralto respectivamente. À falta de melhor pra fazer, comecei por ir com elas aos ensaios e acabei por me interessar, por me entusiasmar com os progressos, por ficar de cabelos em pé com as fífias ainda por limar, a viver a coisa de tal maneira, que nesta noite acho que vim tão apreensiva como o próprio maestro. Mas o coro portou-se bem. O som foi talvez demasiado curto para uma sala tão grande, mas pelo menos estavam afinadinhos. Daqui a uns dias têm um concerto a sério, um concurso de coros gaélicos em Oban, e daqui até lá vai haver ensaios todas as noites, que já começam a fatigar as minhas colegas. Ainda por cima a Chrisella não se conforma que a parte dela seja tão pouco melódica; entrou no coro porque gostava de cantar, mas como tem uma bela voz de contralto, ficou limitada a servir de suporte à harmonia – “é como se os sopranos fossem de férias e os contraltos tivessem de lhes acartar com a bagagem…” – queixava-se ela um dia destes, por muito que o maestro explicasse que o coro é um trabalho de grupo e que todos são fundamentais. Lembrei-me então de uma das minhas noites em casa dela (que acabaram quase todas em copos e altas filosofias), em que estivemos a ouvir discos de vinil dos anos oitenta e a dançar em pijama, e disse-lhe que aquilo não era o triste destino dos contraltos; veja-se o exemplo da Annie Lennox. Acho que ficou mais animada, pelo menos com a ideia de que um contralto pode fazer uma bela carreira a solo quando não tem bagagens para acartar.

Sábado de filmagens. A realizadora é uma menina-miniatura, uma indiana bonita de vinte e poucos anos e menos de metro e meio de altura, que está a fazer um documentário sobre as ilhas. A ideia dela era tentar reconstruir cenas quotidianas dos anos cinquenta. E então, como precisava de actores e ainda por cima pagava para isso, ofereceram-se uns quantos do coro de Point, para arranjarem mais umas massas para pagar a estadia da equipa durante durante estes dias que vão passar em Oban. Reunidas as vestimentas da época e feitos os penteados a condizer, tínhamos três mulheres e dois homens, mais a Moira e eu para ajudar a espalhar a confusão. Metemo-nos à estrada e parámos no meio do campo, ao pé de uma casota minúscula, como as que em tempos foram usadas pelos criadores de ovelhas como “residências de verão”; o rebanho mudava de pastagem e o dono mudava-se com família e bicharada para o meio destes terrenos desertos. Esta ainda é usada e habitada por um senhor simpático, que aceitou logo emprestar a casa para as filmagens da menina indiana. Mas a pobre da rapariga teve montes de azar com o tempo, tanto que já admite voltar na Primavera e repetir tudo outra vez, porque o dia foi de banho. Dia de chuva horizontal, de tão batida a vento, escuro e miserável, dos que não dá vontade nem de pôr o nariz de fora. Nos últimos takes, com os dois homens e uma das mulheres a fingirem que cortavam a turfa (usada como combustível), as condições eram tão más que teve de ser a própria realizadora a fazer as filmagens, porque o cameraman recusou-se a continuar. Só não sei se foi por causa do tempo ou por estar ainda demasiado encavacado para sair da carrinha… Passo a explicar: estando eu, a Moira, a cortadora de turfa e um dos homens dentro do carro, todos a beber chá para aquecer, apareceu o cameraman, olhou em volta e como não viu ninguém, que os vidros do carro estavam embaciados, vá de abrir a braguilha e começar a fazer a sua mija a favor do vento, mesmo virado para nós. E então, em vez de ficar quietinha, a Moira desatou logo a limpar o vidro com a mão para ver melhor o panorama. Assim que percebeu que afinal tinha assistência, mas já demasiado lançado para poder interromper, o moço virou-se logo de costas para nós, ou seja, ficou literalmente a mijar contra o vento. Provavelmente tinha-se esquecido de que naquele dia o deserto estava particularmente habitado.

Aqui há meses, estando a Marisa a cavar batatas no seu quintal – e o quintal é qualquer coisa como um quilómetro até à falésia, com outro tanto ou mais de largo – fez cloinc numa coisa de metal e vai-se a ver sai-lhe um arreio de cavalo, um freio ferrugento, em que ela agarrou e ficou a pensar “a qual dos meus antepassados terá pertencido esta coisa?”. Com efeito, se estava no terreno dela, pode-se dizer que de certeza era coisa de um dos avós MacKenzie (ou do cavalo do MacKenzie, mais exactamente) que por ali andaram a cultivar as suas batatinhas naquele mesmo chão. Esta ligação telúrica, esta identificação entre terra e gente, dá a este pessoal a certeza do “eu pertenço aqui”, um absoluto conforto moral, meio caminho para aceitarem os limites acanhaditos desta ilha sem qualquer problema. As famílias que até agora conheci estão cá pelo menos desde o século XVII, a cultivar os mesmos terrenos que os avós cultivaram, praticamente com as mesmas famílias como vizinhas, o que automaticamente prolonga o mesmo círculo de amigos através das sucessivas gerações. O vizinho do lado é o neto do vizinho do avô, tudo é seguro, partilhado e conhecido desde o tempo dos MacAfonsinhos.
Como consequência, quem vem de fora com propósitos de se instalar fica logo debaixo d’olho. Ninguém lhes conhece a família, ninguém os viu crescer, portanto, ou provam logo à partida que são boa gente, fazem amizades e procuram integrar-se, ou então ficam irremediavelmente condenados ao ostracismo e vão-se ver à rasca para conseguirem ter uma vida normal. Os ilhéus são boa gente, não me interpretem mal, mas uma comunidade pequena torna-se facilmente desconfiada em relação a estranhos, e se eu tenho conseguido entrar em todo o lado e ser bem recebida é porque, basicamente, eles são naturalmente hospitaleiros e eu tenho cara de menina séria (um tanto excêntrica, é um facto, mas como sou estrangeira tenho direito a desconto), mas se fosse um matulão mal encarado ou tivesse ar de quem andava a atacar no Intendente, estava lixada logo à partida.
De certa maneira, têm tido muitas razões para ser desconfiados. Ainda que nunca tenha havido nenhum problema, as Hébridas têm sido usadas como refúgio para os programas de protecção a testemunhas e outro pessoal que precisa de desaparecer; mudam-lhes o nome, inventam-lhes uma história e mandam-nos para cá para recomeçarem a vida. Erro crasso, porque os nativos já os topam à légua e por muito boas pessoas que sejam, toda a gente foge deles. Normalmente as casas entram em obras antes destas famílias se mudarem, para instalar portas blindadas, vidros especiais e reforçar paredes (que as interiores são normalmente uma bela bodega, feitas com uma matéria plástica que se parte facilmente a pontapé, mesmo sem metade do caparro do Schwarznegger). Ora como os pedreiros são recrutados na ilha, o tal programa de protecção vai logo por água abaixo (...bom, se fossem pedreiros de fora também iam levantar suspeitas). Sabendo-se que o próximo habitante tem alguém atrás dele com ganas de lhe dar cabo do canastro, claro que ninguém quer estar por perto quando isso acontecer. Pode não ser justo para quem já tem problemas de sobra, mas é uma reacção natural.
Ainda por cima, nestes últimos dias, Stornoway tem estado em destaque pelos piores motivos – prenderam um bando de tarados que molestou três miudinhas daqui, o que tem deixado toda a gente agarrada aos noticiários. O que incomoda mais os indígenas (além do crime, claro) é estarem só a divulgar que os pedófilos são habitantes da ilha, sem nunca referirem que nenhum deles é natural daqui. É tudo pessoal que veio de fora e que se tinha instalado há pouco tempo a norte de Lewis.
Depois disto, começa-se a falar em fazer petições para a câmara de Stornoway passar a proibir a instalação de gente com passados suspeitos – e a suspeita pode ser apenas o facto de ser alguém que tenha mudado meia dúzia de vezes de morada durante os últimos anos, como quem anda a fugir de alguma coisa. As vizinhanças estão já a escolher representantes da comunidade e a planear recolhas de assinaturas. Aparentemente não tarda muito para Stornoway estar novamente nos noticiários, desta vez com manifestações anti-estranhos à porta da Câmara Municipal. Brrrr...
Portanto, se alguém por aí está com ideias de vir pra cá, que trate de arranjar um curriculum perfeitinho, com muitas recomendações em anexo, passe um pente no cabelo, vista-se decentemente e vá à missa logo desde o primeiro domingo, senão arrisca-se a ser deportado para a mainland no primeiro ferry boat.

11.8.07

Postais à família - 1 (para a tia do ermita)

Stornoway - postal de James Smith
Por aqui tudo Ok. Isto é a cidade onde eu estou, que vista assim parece muito grande, mas deve ser pouco maior do que a Lourinhã (6000 habitantes). O resto é campo sem árvores, só pasto e ovelhas.

Highlan Cow - postal de Colin Baxter

Aqui vai ele, o autêntico escocês das ilhas, matulão, loirinho e cabeludo, muito mais lindo que os de duas pernas (cada canastrão...). Segundo a menina que me vendeu o postal, este aqui deve ter sido lavado e penteadinho para tirar o retrato, que eles ao vivo são mais encaracoladinhos. Será que também lhe fizeram um brushing? Muuuuuú!

Lamb - postal de Normal MacSween

Ok, o animal tem cornos mas dá lã. é com esta raça de ovelhas (Scottish Black Face) que fabricam o tweed. Portanto, se é uma ovelha com cornos ou uma cabra que dá lã, decidam vocês que pró efeito é igual ao litro.

Sheep shearing - postal de Charles Tait

Tudo na palheta cheios de cotonetes à volta.


Gannet (Morus bassanus) - postal de Colin Baxter

Eu comi um destes! ...enfim, só uma coxinha, que o bicho é muito caro e não quis abusar da oferta da dona da casa; só havia um e tinha de dar para duas pessoas. A maior parte do pessoal torce o nariz, mas para os outros é uma especialidade (como gostar de queijo Rockfort - miam!); é muito salgado e com um gosto muito activo. Como a população destes passarocos estava a diminuir, a caça é limitada, dependendo da quantidade de ninhos de cada ano (mas não faço ideia como é que os contam - de helicóptero? por satélite?). Quando vi o postal perguntei à Marisa se era isto que nós tínhamos comido. Como ela sabe que eu gosto muito de bichinhos disse logo "ah, mas o que nós comemos era muito feio, não era assim bonito como esse..." Desatei-me a rir e lembrei-me de ti, de quando eu vi a travessa das lulas grelhadas à frente e fiquei com dúvidas se elas seriam inteligentes como os polvos, e tu disseste "não não, essas aí eram estúpidas que nem uma porta..."

Crónica das Hébridas - 7

Eu caída de paraquedas no concerto de um tal Mick Flavin, um irlandês muito alto com um vozeirão de baixo que chega pra sete, quanto mais pra uma salita pequena como esta da Legion (Royal British Legion). Ao vivo não é tão canastrão como nos cartazes que andaram a espalhar pelas montras, mas quando o vi aparecer no palco com um colete de cetim preto bordado a lantejoulas douradas, com um cavalinho de um lado e uma ferradura do outro, temi bastante pelo serão. Mas a seguir o homem abriu as goelas e então percebi que, quando se tem uma voz assim, até se lhe perdoam as lantejoulas. Também podia ter aparecido de boné, jardineira e enxada ao ombro, que a fatiota torna-se irrelevante em menos de nada. Aleluia.
E afinal eu até gosto de música country, não assim em dose maciça, é um facto, que duas horas disto é de empanturrar, até porque ao fim de três ou quatro cantigas já não se conseguem distinguir umas das outras – soa tudo ao mesmo – mas o pessoal está entusiasmadíssimo com o irlandês das latejoulas. Por aqui, na rádio, nos CDs que trazem para o serviço e nas cassetes que põem no carro, ou tocam música gaélica ou country. É evidente a semelhança entre as duas. Não com aquela música das gaitas de foles, que sempre me pôs os genes todos aos saltos, mas com a música gaélica cantada, com ou sem instrumentos a acompanhar (esta especialmente apreciada pelos indígenas, pra quem um cantor a sério tem de conseguir cantar sem música), bem mais popular por aqui do que as gaitas, só usadas para ocasiões especiais. São músicas agradáveis mas um tanto chatas, demasiado compridas e repetitivas. Mas percebo porque é que o country também abana a genética toda deste pessoal. O country é a música dos emigrantes, dos escoceses e dos irlandeses que tiveram de fugir daqui nos anos de penúria e levaram os sons da terrinha lá para as américas. Os temas são as saudades da casa e da família (e então passam a vida a dar-lhe com o “take me home” e o “take me back” – devem estar à espera de boleia) das miúdas lá da terra, da paisagem, enfim, é saudades e pouco mais – música de emigrantes já diz quase tudo. E antes country do que pimbas…
Quando chegámos já estava tudo cheio, mas a Moira disse logo “eu cá atrás não fico”, mesmo quando eu já estava a tentar gamar uma mesa reservada (era só mudá-la de sítio) pra não ficarmos em pé. E então, ela começou a ver quem estava, quem é que podia desenrascar, meteu-se pelo meio da maralha e quando voltou já tinha conseguido arranjar-nos três cadeiras na segunda fila da frente, não faço ideia como (somos três, que a Norag – Nora prós amigos – também veio; deveríamos ser quatro, mas o marido dela deixou-nos à porta e fugiu).
A primeira parte do concerto foi uma desgraça para aguentar aqui sentada, não pela música mas pelas ideias frescas da Moira – “levamos já duas bebidas cada uma, que assim não precisamos de interromper para vir buscar mais…” – argumento copófonico que me convenceu a trazer dois “half pints” de cerveja para o lugar, mas claro que ao intervalo já ‘távamos todas à rasquinha pra despejar.
À saída da casa de banho cruzámo-nos com o teclista do grupo, que a Moira tratou logo de convidar pra vir encher os canecos connosco. E alguém já viu um irlandês a recusar um copo? Eu também não.
Conversa puxa conversa e mais conversadores, e dali a pouco juntou-se-nos o baterista. O primeiro, o das teclas, tinha um inglês que se entendia perfeitamente; falei-lhe das minhas visitas aos calhaus e ele falou-me de túmulos e pedregulhos e druidas, e eu até achei que ele tinha um sotaque castiço que se entendia perfeitamente, agora o fulano dos tambores, caneco, teve de me repetir tudo devagarinho, que o tal sotaque castiço deve ser de outra região, tão cerrado que não se consegue entender duas seguidas – mesmo assim ainda deu pra perceber que pelos vistos eu posso vir ao bailarico de amanhã mesmo sem ter bilhete, que o moço promete que me faz entrar pelos bastidores. Até que é engraçadinho, mas eu não ‘tou inclinada pra engates e acho que não me apetece passar a noite a dizer “hã?!”, ainda por cima com alguém que começou logo da melhor maneira: “Lisboa…? Ah, na Austrália, claro.” Claríssimo.

A farra continuou pelo fim de semana, com uma data de malta abancada em casa da Marisa, a enfiar copos atrás uns dos outros até saírem de gatas, e nisso e em muita coisa são iguaizinhos a nós, provavelmente porque o bicho gente é todo igual no que toca a copos e festarolas privadas. Talvez menos comezaina do que é costume nas da minha terra, sobretudo porque só eu é que me lembrei que deveria haver uma sobremesa (o resto era tudo comida a sério para enfardar bem) e decidi fazer uma tigelada de baba de camelo. E então, em vez de a pôr na mesa, à disposição de quem quisesse, a Marisa resolveu agarrar na tigela e dar uma colher de sopa a cada um, para provarem primeiro, a ver quem ia querer mais. Tudo bem, salvo o facto de que a colher era uma só, lambida e relambida por alguns 20; em vez de baba de camelo, ficámos com cuspo de convidado, mas aparentemente toda a gente achou isto perfeitamente normal.
No geral foi uma noite divertida, em que até fizeram um concurso para ver quem tinha as mamas maiores (ganhou a Moira) e acabámos com umas guitarradas do Murdo (Murdigan para os amigos) e o pessoal todo em coro a assassinar as cantigas, enquanto os mais fracotes curtiam a buba nos sofás novos da Marisa. O trivial.

A olhar para o jornal, dei-me conta de que as fotografias do pessoal que se casou e dos moços que acabaram o curso, além dos nomes trazem também as moradas, com rua e número de porta, assim mesmo, todas escarrapachadinhas, com certeza para o caso de alguém lhes querer dar os parabéns pessoalmente. Pensei que fosse coisa das famílias, para ninguém ter dúvidas de que é mesmo o filhinho deles que aparece na página social, com um chapéu esquisito e canudo na mão, mas afinal parece que é pecha dos jornalistas, porque as moradas continuam a aparecer no resto das notícias. Como a de um puto que se enfrascou até correrem com ele do bar, por já estar a fazer muitas ondas, e resolveu ir dar uma voltinha para espairecer, com o primeiro carro aberto que encontrou (ao que parece, com chave e tudo). Daí a nada já tinha a bófia toda atrás dele, com certeza entusiasmadíssima por finalmente haver alguma coisa para fazer nesta ilha, até que o puto acabou por se enfiar numa cerca de arame, deitou os postes abaixo, pregou um cagaço medonho nas ovelhinhas e foi agarrado. Pois além de seis meses sem carta, uma multa das gordas e ano e meio de cana por andar por aí a causar distúrbios (já agora, pra que é que se deram ao trabalho de lhe apreender a carta…?), ainda lhe publicam o nome e a morada, talvez para o caso de algum dos lesados lá querer ir tirar satisfações com ele.
A não ser que os nomes que aparecem no jornal não sejam exactamente os originais, e não falo de pseudónimos, mas em combinações e abreviaturas, porque pelos vistos é normalíssimo o pessoal assinar com nomes inventados; até agora eu estava convencida que Chrisella e Marisa eram os nomes reais das minhas colegas, pelo menos é assim que elas se apresentam e assinam as cartas do escritório, mas afinal uma chama-se Christina Annabella e a outra Mary Ishbel. Abreviaram os dois, juntaram e pronto, passou a ser uma espécie de nome público. Há que concordar que é prático… e na nossa terrinha ia até resolver algumas frustrações, em casos como, por exemplo, uma Andreia Vanessa poder passar a ser Andressa ou Dreiva, ou mesmo Cátia Susana se fizesse muita questão, sem ninguém lhe levantar problemas legais por causa disso.

E então, retomando o tema da minha primeira crónica e dos meus preconceitos quanto aos ilhéus, parece-me que afinal quem está com problemas de insularidade sou eu. Ao fim de uns tempos a esbarrar com a costa a cada esquina, começo a ter a sensação de estar aqui encurralada. Isto pode parecer muito esquisito, tendo em conta que na cidade eu normalmente não ando mais do que dois quarteirões até ao comboio e que a maior parte dos meus fins de semana são passados em casa, entre as escovadelas no gato e a jogatana no computador, por falta de pachorra para saídas e noitadas. Aqui, talvez pela minha condição de estrangeira num sítio novo, a percepção do espaço ficou muito mais desperta, e isso faz-me também ter mais consciência dos limites. Porque mesmo no meu apartamentinho T1 com vista para as traseiras, ensanduichada entre dois andares, eu sei que é só pegar no carro e desatar a andar para poder chegar até à Sibéria, se me der na gana, assim haja gasolina e camisolas suficientes; na ilha tenho duas margens a 20 minutos uma da outra e campos vazios no meio. É bonito, pois, é uma paisagem praticamente minimalista, quase um deserto, e eu até sempre fui um daqueles que vivem numa cidade mas passam a vida a sonhar com os desertos, com espaços abertos sem nada a atrapalhar, onde se pode voltar às origens e resgatar o selvagem que volta e meia desata aos pulos cá por baixo da civilização toda que se carrega às costas, mas afinal, como qualquer outra treta pseudo-filosófica, esbarro com o mar e desejo uma ponte, um ferry barato (o preço é um susto), qualquer hipótese de fuga fácil, porque o que me incomoda não é o tamanho do espaço onde eu vivo, mas a falta de hipóteses de poder alargar os horizontes. Já percebi que não aguento uma prisão por muito tempo, nem que ela tenha o tamanho de uma ilha. Passada a novidade, começo a ficar um tanto sufocada, a desejar terra firme, terra grande, com montes de espaço pra fugir.Um dia destes, em vez da Crónica das Hébridas, acho que vou estar a fazer a Crónica de Cascos de Rolha, onde pelo menos um dos horizontes tenha muito chão pra pisar.

27.7.07

Tolsta

"a ponte para lado nenhum" - a prova de que a verba por aqui também é curta - a "bridge to nowhere" fica perto da praia de Tolsta e tem uma estrada até lá, mas a seguir é só um campo baldio onde praticamente já só dá para virar o carro (pouco aconselhável, de qualquer maneira, que a ponte é velha e não parece lá muito segura)

vista da ponte, com a praia de Tolsta lá ao fundo

praia de Tolsta - um grande areal de água gelada em pleno Agosto

urze florida

Crónica das Hébridas - 6

Roam-se de inveja: eu já posso dizer a toda a gente que vi o meu patrão de saias, coisa que com certeza muito poucos portugueses terão oportunidade de se poderem gabar (patroas não vale, hem? nada de batotas). O que eu vi foi um senhor barbudo, careca e respeitável, de saia vermelha e meias brancas pelo meio da perna. OK, ok, podem argumentar à vontade que eu estou na Escócia, que aquilo é um kilt, tudo bem, chamem-lhe lá o que quiserem, porque mesmo com nomes esquisitos é tal e qual uma saia traçada por cima do joelho, com pregas e um alfinete a prender a abertura, para o vento não mostrar a coxa peluda.
Fora de brincadeiras, de facto ver uma data de matulões em trajes típicos não tem nada de estranho, nem sequer de risível, estivessem eles a passear em Lisboa e já a coisa era outra, mas assim, dentro do contexto, posso dizer que é até bastante elegante. No casamento da filha do patrão, onde eu fui cair de paraquedas, havia por lá uma data deles, incluindo um puto pequenino ainda de chucha, de tal maneira que os poucos fulanos de calças é que destoavam à brava, como se andassem com um cartaz a apregoar “eu não sou daqui”.
A fatiota não deixa de ser estranha, mas como ainda não me informei sobre o assunto, em vez de vos instruir, só posso especular (especialidade minha):
· dado o facto dos romanos descreverem os povos celtas com calças aos quadrados, de cores vivas, presume-se que o pano se manteve mas o modelo mudou radicalmente;
· dado também que a Escócia passou praticamente o tempo todo à bulha com os diversos vizinhos, invasores, tiranos e afins, onde precisavam de se mexer à vontade, esconder-se em montanhas onde os outros dificilmente se arriscavam e meter-se em altas sarrafuscas quando tinham de chegar a vias de facto;
então por que raio é que mudaram de umas calças práticas para uma saia de pregas que só atrapalha? (experimentem andar de gatas com uma vestida e logo vêem do que estou a falar).
Dados os factos contraditórios, a minha explicação é que, dada a inferioridade numérica e as adversidades do território, os homens tinham de ser muita bravos pra conseguirem dar conta do recado; ora tendo de andar de saias, com o friozinho que aqui faz e uma data de mosquitos a dar ferroadas lá por baixo, acho que qualquer um fica capaz de atacar o próximo à dentada. Isto com certeza foi uma ideia estratégica de um comandante à rasca, com uma data de homens desmotivados, sem vontade nenhuma de ir à luta, e o inimigo prestes a aparecer. “Cambada de meninas! Pois vão combater de saias, qu’é o que lhes vai bem!” E eles ficaram todos tão lixados com a vergonha, com o frio e com os mosquitos, que nesse dia os desgraçados dos adversários devem ter levado a sova da vida deles. ...Mas suponho que quem estudou o fenómeno tenha alguma explicação mais plausível.

Agora agarrem-se bem… vocês sabem o que é que esta malta bebe à refeição, com o bacalhau e as batatas fritas?… Leite. Leram bem. Os gajos bebem leite. Menos mal que, quando falo em bacalhau, é bacalhau fresco, não é do nosso (a propósito, foi preciso vir até aqui para ver como é um bacalhau acabado de sair da água), e cozinha-se como qualquer pescada gorducha, por sinal bem agradável. Claro que sempre que o orçamento e o fígado o permitem, preferem beber vinho (a cerca de 6 € a garrafa), mas num jantarinho simples bebe-se leite e acha-se muito esquisito porque é que as meninas de fora fazem tantas caretas e tanta espantação por coisa tão corriqueira.
Também comem galinha com compota de amoras, mas isso eu só tenho de aplaudir, que sempre gramei estes contrastes, portanto venha de lá o frasco enquanto vocês torcem o nariz.
Os pequenos hábitos são muito diferentes para quem tem outros paladares e outros costumes. Apesar de normalíssimo para muitos dos meus ilustres conterrâneos, para mim é um nojo ver toda a gente, mas mesmo toda, em cada casa que tenho entrado, com um alguidar dentro do lava-louças, normalmente peganhento, asqueroso, cheio de gorduraça entranhada nos riscos do plástico. Enchem o coiso com água, deitam-lhe detergente, e depois mergulham a louça naquela sopa, passam o esfregão à rais-te-parta e põem a escorrer, ainda cheia de espuma e restos de comida. Daí vai para o armário e na refeição seguinte comemos naquilo. Deve ser por isso que eles dispensam o azeite… Pelo menos a louça ainda vê esfregão, agora o alguidar nem isso. Cada vez que vou ajudar, a primeira coisa que eu faço é tirar o coiso seboso do lava-louças e pô-lo no chão, o que causa grande galhofa entre os indígenas e até já me tiraram a fotografia, de prato na mão e alguidar aos pés, para poderem mostrar aos amigos os hábitos esquisitos que as estrangeiras têm.
Igualmente omnipresente é a cafeteira eléctrica, mas dado o gosto que eles têm por chá, essa eu entendo, porque é bestialmente rápida para ferver água. Mas outra bem menos lógica é a falta de toalheiros nas casas de banho, ou mesmo de uns ganchinhos na cozinha para pendurar os panos da louça. Assim, tudo o que é trapo é deixado nas costas das cadeiras ou largado à balda no chão da casa de banho.
E depois, toda a gente tem um fogão muito castiço que funciona com turfa. Em vez de carvão, usam turfa como combustível, o que deve sair bastante económico, porque afinal é só só cavar o quintal e encher o balde. Os fogões que tenho visto são todos castanhos, com quatro portinhas, como os antigos fogões a lenha, e a malta usa-os sobretudo como aquecimento, sempre a funcionar, do que propriamente para cozinhar. Por aqui vive-se na cozinha, a divisão maior e mais aquecida que serve de sala comum, onde se recebe o pessoal, se vê a televisão e se vai assaltando o frigorífico nos entretantos (deve ser por isso que são todos tão anafadotes).
Com a mania das originalidades, as tomadas por aqui tem 3 pinos e um interruptor, ou seja, quanto a trazer aparelhos eléctricos para cá, tratem primeiro de passar na loja e comprar fichas para substituir, pois de contrário, o telemóvel ou mesmo o computador portátil só funcionam enquanto durar a carga da bateria.
Quanto ao teclado dos computas locais, bom, eu estou a escrever com o mapa de caracteres aberto e a usar short cuts porque não há assentos. Como o gaélico leva graves e agudos, há nesta altura uma batalha local, através do jornal da terra, pela adaptação dos teclados. “E porque é que não compram uns quantos teclados como os nossos, lá de Portugal, e arrumam o assunto?” “Ah, por causa do software, então, aquilo não é só ligar e já tá…” Ainda sugeri que comprassem também o software, se é que o teclado não vem já com o respectivo disquinho de instalação, mas parece que o orçamento do escritório não dá para grandes cavalarias. ...E depois, claro que é muito mais divertido escrever artigos para o jornal a acusar os malandros dos ingleses, porque se ‘tá mesmo a ver que isto dos teclados é mais uma forma de discriminação da cultura gaélica.
Hábitos diários à parte, os das instituições também são um tanto diferentes. Ontem tive de abrir uma conta no Royal Bank of Scotland, porque o escritório paga os ordenados por lá – bom, e com a treta do câmbio, tenho pago um dinheirão de cada vez que vou levantar umas quantas libras ao multibanco com o meu cartãozinho português, portanto sempre será melhor ter umas massas no banco local. E então, pasme-se, abriram-me uma conta sem me pedirem uma librazita que fosse como depósito inicial. Mais: mesmo sem ter lá massa, ficaram de me mandar o cartão do multibanco (de uso grátis, sem taxas) para a morada da Marisa (porque eu não tenho um endereço certo, tem sido uma semana com cada uma), e se entretanto quiser movimentar a conta, tenho um número de código escrito num papelinho rabiscado que a menina me deu – “basta dar este número no balcão e pode levantar dinheiro”. Assim mesmo – toma e embrulha. Havia de ser na nossa pátria lusa… Sem massa nem morada, ‘pera lá que já cospes. Segurança, népia, mas há que concordar que é bastante confortável.
Já menos confortável, sobretudo para quem lá trabalha, é o sistema de encomendas dos correios. Os pacotes que ninguém atende na porta ficam à espera na estação durante 6 semanas. Se ninguém aparece para os levantar durante esse tempo, são enviados para o posto de Belfast, encarregado de reenviar as encomendas para os respectivos remetentes. Agora imaginem o estado em que chegam os “black puddings” (grande chouriço de sangue em versão local) que a titia da terra tentou enviar ao sobrinho que foi para Londres… Segundo a descrição do Donald, um empregado dos correios, os pacotes chegam já com o caldo da fermentação a repassar o papel, numa sopa medonha de cheiro pestilento. A avaliar pelas caretas, os black puddings e os grilos vivos (enfim, quando os enfrascaram estavam vivos...), enviados para os donos de animais exóticos papa-grilos, parecem ser o pesadelo do Donald. Sempre que lhe toca a vez de ser ele a separar as encomendas que chegam de Belfast, entra em casa já a despir a roupa empestada e vai directamente pró banho.

Mas é uma terreola simpática com gente porreira, não se deixem levar pelos meus comentários, afinal aterrei aqui vinda de outras paragens e às vezes sinto-me no meio dos selvagens, mas a opinião deles deve ser recíproca. E depois, se não fossem as diferenças, para que é que valia a pena viajar?

24.7.07

Broch de Carloway

o Broch visto de trás - imaginem o resto que lá falta para completar o pudim

o Broch visto de frente, numa fotografia sacada da net

interior do Broch de Carloway, onde se vê a muralha dupla

interior das paredes do Broch, com a estrutura do piso de cima

Bué da calhaus!

círculo de pedras de Cnoc Fhillbhir Bheag - não se esforcem, lindos, que a pronuncia disto não tem nada a ver com a grafia

Callanish numa fotografia que não é do ermita; é um postal com uma vista aérea e os créditos são do Colin Baxter, que conseguiu uma vista de conjunto bestial

esta sim, é o círculo de Callanish tirada pelo ermita num dia típico por estas bandas, a chover como convém

e lá vai outra, tirada de outro ângulo, agora com a pedra maior vista de frente

e esta agora tem um cão e tudo, o tal que queria que eu lhe atirasse um pauzinho já todo babado - yac! (mas eu alinhei, claro), que é a coisa preta e branca na erva à frente do calhau maior, para quem ainda não localizou