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17.9.07

Black Houses

the black houses - aldeamento para visitas de estudo com uma resconstituição das casas tradicionais da ilha

pormenor do telhado das black houses
a rede é para o vento não levar a palha e as pedras é para o vento não levar a rede; ah sim, isto por aqui é ventoso como o caraças

Crónica das Hébridas - 9

Planos de visita à ilha de Harris com os primos reformados que vieram do Canadá. “Espero que esteja bom tempo…” dizia ela, receosa de que o passeio se transformasse numa granda banhada (literalmente); “e eu espero que ao menos lá tenham um bom pub…”, acrescentou o marido entre dentes, muito mais virado para o turismo copofónico do que propriamente para ver as vistas, mas afinal o dia acordou com um tempo invulgarmente porreiro, com sol e tudo, prova de que o São Pedro está do lado das primas canadianas, e lá fomos nós para Harris no jipe da Chrisella.
É uma ilha curiosa, primeiro que tudo porque não é uma ilha; decidiram que um riacho indecente é que faz a fronteira e pronto, e praticamente podemos pôr um pé em Lewis e outro em Harris, questão de abrir bem a perna e de ter cuidado para não escorregar nos calhaus molhados, e depois porque a paisagem, essa sim, uma divisão bem mais efectiva, é completamente diferente de Stornoway e arredores. Em vez de planícies cheias de turfa e ovelhinhas, aqui temos montes e vales e lagoas com monstros aquáticos e tudo, uma paisagem de serra onde as ovelhinhas têm de fazer muito exercício para chegar à erva, mas que para mim se revelou bestialmente relaxante. Nunca ouvi falar em síndroma das planícies nem do stress dos grandes horizontes, mas alguém já deve ter estudado alguma coisa sobre isto (e não falo de agorafobia – o pavor dos espaços abertos). Aqui há uns anos, era eu ainda chavaleca, passei uma semana no Ribatejo, em casa de uma amiga, e lembro-me que ao terceiro dia já estava capaz de morder. Por muito que até achasse que os campos cheios de vaquinhas e as plantações de arroz eram uma beleza, não deixava de ser tudo irritantemente plano. Nem uma lombazita, nem um montinho, nada que animasse a pasmaceira geográfica. Do meio da estrada conseguíamos ver o alcatrão por ali fora, todo direitinho até à linha do horizonte. E por muito bonita e verdinha que seja, é um facto, a planície contunde-me cá com o sistema. Daí que Harris tenha sido um descanso bestial para os estranhos macaquinhos que habitam o meu sótão – montanhas …aaaaah, que alívio.
A estradeca, só de uma via, é assim um vai acima vai abaixo e vira e torna a virar e lá vai outra e sobe e torna a descer, estrada de serra, pois claro, que nos levou hora e meia para fazer 15 milhas (!!!), embora todos achassem que, das duas uma, ou a história das 15 milhas é uma galga dos nativos para não assustarem os visitantes, ou então o gajo que lá pôs as placas andou a medir as distâncias com uma régua em cima do mapa – 15 milhas, só se for a direito. Mas eu cá não sei, não digo nada, que estava muito mais interessada na paisagem do que no conta-quilómetros (ou conta-milhas?) e nisto de medidas a olho eu sou uma perfeita nabiça.
A ideia era chegarmos a Rodel, mais exactamente à igreja de St. Clements, uma construção medieval dos séculos XIII ao XVI (reconstruções sucessivas) que eu já tinha visto no boneco mas agora queria ver ao vivo e a cores. Metemo-nos então pela “golden road” [estrada de ouro], assim chamada, não por ser muito boa, mas por ter custado uma fortuna a construir. Só tem uma via, mas percebe-se perfeitamente para onde foi a massa toda; para evitar tanto sobe e desce, foi preciso escavar passagens através da montanha, mas o que parece um monte de terra cheio de urze e ovelhinhas a pastar, não passa afinal de uma camadinha de turfa em cima de rocha maciça. Grande parte da estrada passa no meio de blocos compactos de pedra, partida à marretada para encurtar caminho.
St. Clements não é nenhum espanto para quem já viu muita igreja velha, mas vale sempre a pena, pelo sítio, pelo valor histórico, por ser praticamente a única construção da época ainda em bom estado (há outras por aí mas estão todas a cair), pelos túmulos lá dentro, etc etc etc, ok, pode ser isso tudo, mas a mim agradou-me especialmente pelo ambiente bestialmente gótico da coisa, e não falo só do gótico – estilo de arquitectura, mas sobretudo do gótico – estética mórbida. Uma igreja quase vazia, num cabeço longe da povoação, com o cemitério dos MacLeods de Harris cá fora, as lápides já meias tombadas, uma delas com instrumentos de tortura gravados, facas e tenazes em torno de uma caveira, corvos aos pulos na relva, e lá dentro, numa luz fraca de janelas ogivais, túmulos gastos com figuras jacentes de cavaleiros de armadura vestida, capacete incluído, a segurar as espadas, mais caveiras esculpidas, uma delas na mão do próprio St. Clements, por cima de um anjo e de um demónio que pesam as almas numa balança, sentados frente a frente, aparentemente em amena cavaqueira – “atão quantas almas vais tu levar hoje?” – enfim, um ambiente perfeito onde só falta aparecer o fantasma.
À falta de fantasma, apareceu um cão entusiasmadissimo, um Scottish Collie ( = Lassie a preto e branco), grande e gordo, que por escassez de fêmeas disponíveis nas redondezas, resolveu aliviar os calores contra as pernas dos turistas, dificultando-nos bastante a mobilidade e as fotografias; levar com um canzarrão em cima quando já temos finalmente o enquadramento perfeito para a fotografia, lixa logo o trabalhinho todo.
O túmulo mais ornamentado é o de um tal Alasdair Crotach, o oitavo chefe dos MacLeod de Dunvegan. Logo à entrada há outro semelhante, que pertence ao filho, o William MacLeod, também de espada e armadura, já que naqueles tempos os MacLeods passavam a vida à pêra com os MacDonalds (hoje são todos amigos), e ao fundo há um terceiro, do John of Minguish, seja lá ele quem tenha sido, que não consegui encontrar mais informação nenhuma.
No chão da igreja eram enterrados os porta-estandarte (não tem nada a ver com escolas de samba), sempre no mesmo sítio, em cima uns dos outros. O costume era estranho, mas tem a ver com a história do estandarte do clã, uma bandeira mágica conhecida como a “fairy flag” [bandeira das fadas], que protege os MacLeods todos até aos dias de hoje – durante a segunda guerra mundial, contam que muitos soldados do clã levaram fotografias do que resta da bandeira e que todos voltaram vivos e de saúde. O homem que transportava a bandeira, antes dela ser promovida a atracção de museu, de alguma maneira devia herdar também características mágicas, e daí este costume de guardarem os restos de todos eles no mesmo sítio; cada vez que morria um, abriam espaço entre os ossos dos anteriores e enfiavam o cadáver no meio (…ah sim, este sítio é mesmo bué da goth).
Praticamente só há uma estrada, pelo menos na zona em que Harris é quase uma ilha; pelo mapa, comecei por pensar que só aquele bocado é que contava, um torrão redondo ligado a Lewis por uma cinturinha de terra, mas afinal o nome muda muito antes, assim que as planícies acabam e as montanhas começam, no tal riacho de que já falei. Fomos por um lado e voltámos pelo outro, sempre a acompanhar costas recortadas de onde se vêem mais ilhas, Skye já aqui e as Highlands mais ao longe, Uist do outro lado, coisas que no mapa parecem distantes mas afinal, se berrarmos daqui com um megafone, estou convencida de que os indígenas das outras ilhas são bem capazes de ouvir.
Grandes praias e paisagens de muito calhau e pouca terra. De vestígios arqueológicos, sei que existem muitos mais, mas eu só vi ao longe uma pedra erguida, já um tanto inclinada, que a placa na estrada indicava como “a pedra do MacLeod” (Clach Mhic Leoid). Num terreno destes deve ser muito mais difícil encontrar um bom sítio para instalar um cromelech, como fizeram no norte, na ilha de Lewis; aqui o chão não é cavável e o espaço plano é muito curto. Mesmo hoje isto continua muito desabitado. Tirando Tarbert, uma povoação do tamanho de uma vila pequena onde o ferry aporta, o resto são só casas dispersas nos poucos terrenos mais ou menos planos que conseguiram encontrar. Provavelmente, o pessoal só cá vive pela pesca ou pela paisagem. Mesmo para cultivar umas batatinhas, deve ser uma trabalheira; duas cavadelas e poing!, entortam a enxada na rocha lá debaixo. Harris é uma ilha de pedra …ok, provavelmente nem tanto, mas a primeira impressão, pelo que se vê da estrada, é a de um grande calhau com meia dúzia de carolas que ateimam em cá viver.
O sítio é tão deserto que aqui há tempos usaram uma das ilhotas desabitadas, só calhaus, turfa e gaivotas, para fazer o programa do “sobreviventes”. Largaram lá uma série de desgraçados e agora desenrasquem-se. Mas hospitaleiros como são os ilhéus, não tardou muito e foram até lá de visita, com um barco cheio de cerveja e paparoca, prontos para fazerem uma grande farra com os concorrentes. Como as câmaras estavam por todo o lado, deram logo por eles e estragaram-lhes a festa. A partir daí tiveram de instalar patrulhas de militares à volta da ilhota, para os indígenas não poderem abastecer os esfomeados da televisão, mas mesmo assim consta que houve uns quantos furos ao bloqueio, fora as tentativas, porque conseguir chegar lá sem ser agarrado passou a ser um desafio a sério, bem mais estimulante do que assistir ao programa. Se os organizadores fossem mais espertos, tinham aproveitado para fazer o show dos fura-cerco, em vez de insitirem em mostrar um bando de chatos pagos para passarem fome em directo. Falta de olho pró negócio.
Enfim, atestados os olhinhos com estas paisagens acidentadas, vou agora tentar medir por quanto tempo me vai durar o alívio, para enfrentar as planícies da ilha de Lewis.

29.8.07

Crónica das Hébridas - 8

Eu no escritório com um caixote na mão, encomenda do progenitor chegada da pátria lusa, com três maços de tabaco e uma data de chouriços lá dentro, a saber – dois vermelhinhos normais, um preto, duas farinheiras e um salpicão (“a Marisa vai ficar toda contente, a pensar que é um vibrador”, aproveitou logo a tarada da Moira para meter a bucha), mais dois postais com as novidades e as instruções: “se conseguires arranjar as couves, podes fazer um cozido com isto, pra mostrares aí aos selvagens o que é comida a sério”. E eu arranjei dois repolhos parecidos com couve galega e os selvagens lamberam o prato, concordando todos que depois de um almoço daqueles devíamos ir bater uma bela sorna, ficando assim explicado o hábito da “siesta” para estas cabecinhas, que continuam a achar que Portugal e Espanha têm nomes diferentes mas é tudo a mesma coisa, “assim como nós e os irlandeses, não é?” Menos clara ficou a minha grande proeza em me conseguir manter elegante (por muito que eu proteste que tou gorda que nem uma texuga) porque se os portugueses costumam enfardar comidas destas, deviam ser todos rechonchudos e luzidios; e se se vissem melhor ao espelho, iam concluir que à conta das “comidinhas leves” que fazem aqui na ilha, andam todos a rebentar as costuras, mas enfim… É como o leite – quando fiz caretas por eles beberem leite às refeições, a acompanhar comida salgada, a Marisa argumentava que era essencial para a saúde: “faz bem aos ossos e aos dentes”, dizia ela, mas se reparasse melhor, ia notar que o marido tem um lindo sorriso com dois incisivos a menos (um em cima e outro em baixo, desencontrados), a irmã tem os molares todos pretos e as filhas dividem-se entre o amarelo-desvitalisado e o cinzento translúcido das cáries interiores. Ainda não vi ninguém nesta ilha com um teclado cinematográfico, mas por falta de beberem leitinho, garanto que não é.

Noite numa festa de escola, muito ao estilo das nossas escolas, por fora com ar de estar a cair aos bocados, por dentro mais ou menos pintada e remendada para ir adiando as despesas das obras por mais uns tempos; as festas servem para arranjarem umas massitas extra para a escola. O anúncio dizia Ceilidh & coffee evening (ceilidh lê-se como “kêli” e consta de danças tradicionais com gaitas de foles), mas de ceilidh houve muito pouco e quase toda a gente preferiu beber chá. Mas eu não podia faltar. Vim por causa do coro gaélico de Point (Coisir an Rubha), onde a Moira e a Chrisella cantam, soprano e contralto respectivamente. À falta de melhor pra fazer, comecei por ir com elas aos ensaios e acabei por me interessar, por me entusiasmar com os progressos, por ficar de cabelos em pé com as fífias ainda por limar, a viver a coisa de tal maneira, que nesta noite acho que vim tão apreensiva como o próprio maestro. Mas o coro portou-se bem. O som foi talvez demasiado curto para uma sala tão grande, mas pelo menos estavam afinadinhos. Daqui a uns dias têm um concerto a sério, um concurso de coros gaélicos em Oban, e daqui até lá vai haver ensaios todas as noites, que já começam a fatigar as minhas colegas. Ainda por cima a Chrisella não se conforma que a parte dela seja tão pouco melódica; entrou no coro porque gostava de cantar, mas como tem uma bela voz de contralto, ficou limitada a servir de suporte à harmonia – “é como se os sopranos fossem de férias e os contraltos tivessem de lhes acartar com a bagagem…” – queixava-se ela um dia destes, por muito que o maestro explicasse que o coro é um trabalho de grupo e que todos são fundamentais. Lembrei-me então de uma das minhas noites em casa dela (que acabaram quase todas em copos e altas filosofias), em que estivemos a ouvir discos de vinil dos anos oitenta e a dançar em pijama, e disse-lhe que aquilo não era o triste destino dos contraltos; veja-se o exemplo da Annie Lennox. Acho que ficou mais animada, pelo menos com a ideia de que um contralto pode fazer uma bela carreira a solo quando não tem bagagens para acartar.

Sábado de filmagens. A realizadora é uma menina-miniatura, uma indiana bonita de vinte e poucos anos e menos de metro e meio de altura, que está a fazer um documentário sobre as ilhas. A ideia dela era tentar reconstruir cenas quotidianas dos anos cinquenta. E então, como precisava de actores e ainda por cima pagava para isso, ofereceram-se uns quantos do coro de Point, para arranjarem mais umas massas para pagar a estadia da equipa durante durante estes dias que vão passar em Oban. Reunidas as vestimentas da época e feitos os penteados a condizer, tínhamos três mulheres e dois homens, mais a Moira e eu para ajudar a espalhar a confusão. Metemo-nos à estrada e parámos no meio do campo, ao pé de uma casota minúscula, como as que em tempos foram usadas pelos criadores de ovelhas como “residências de verão”; o rebanho mudava de pastagem e o dono mudava-se com família e bicharada para o meio destes terrenos desertos. Esta ainda é usada e habitada por um senhor simpático, que aceitou logo emprestar a casa para as filmagens da menina indiana. Mas a pobre da rapariga teve montes de azar com o tempo, tanto que já admite voltar na Primavera e repetir tudo outra vez, porque o dia foi de banho. Dia de chuva horizontal, de tão batida a vento, escuro e miserável, dos que não dá vontade nem de pôr o nariz de fora. Nos últimos takes, com os dois homens e uma das mulheres a fingirem que cortavam a turfa (usada como combustível), as condições eram tão más que teve de ser a própria realizadora a fazer as filmagens, porque o cameraman recusou-se a continuar. Só não sei se foi por causa do tempo ou por estar ainda demasiado encavacado para sair da carrinha… Passo a explicar: estando eu, a Moira, a cortadora de turfa e um dos homens dentro do carro, todos a beber chá para aquecer, apareceu o cameraman, olhou em volta e como não viu ninguém, que os vidros do carro estavam embaciados, vá de abrir a braguilha e começar a fazer a sua mija a favor do vento, mesmo virado para nós. E então, em vez de ficar quietinha, a Moira desatou logo a limpar o vidro com a mão para ver melhor o panorama. Assim que percebeu que afinal tinha assistência, mas já demasiado lançado para poder interromper, o moço virou-se logo de costas para nós, ou seja, ficou literalmente a mijar contra o vento. Provavelmente tinha-se esquecido de que naquele dia o deserto estava particularmente habitado.

Aqui há meses, estando a Marisa a cavar batatas no seu quintal – e o quintal é qualquer coisa como um quilómetro até à falésia, com outro tanto ou mais de largo – fez cloinc numa coisa de metal e vai-se a ver sai-lhe um arreio de cavalo, um freio ferrugento, em que ela agarrou e ficou a pensar “a qual dos meus antepassados terá pertencido esta coisa?”. Com efeito, se estava no terreno dela, pode-se dizer que de certeza era coisa de um dos avós MacKenzie (ou do cavalo do MacKenzie, mais exactamente) que por ali andaram a cultivar as suas batatinhas naquele mesmo chão. Esta ligação telúrica, esta identificação entre terra e gente, dá a este pessoal a certeza do “eu pertenço aqui”, um absoluto conforto moral, meio caminho para aceitarem os limites acanhaditos desta ilha sem qualquer problema. As famílias que até agora conheci estão cá pelo menos desde o século XVII, a cultivar os mesmos terrenos que os avós cultivaram, praticamente com as mesmas famílias como vizinhas, o que automaticamente prolonga o mesmo círculo de amigos através das sucessivas gerações. O vizinho do lado é o neto do vizinho do avô, tudo é seguro, partilhado e conhecido desde o tempo dos MacAfonsinhos.
Como consequência, quem vem de fora com propósitos de se instalar fica logo debaixo d’olho. Ninguém lhes conhece a família, ninguém os viu crescer, portanto, ou provam logo à partida que são boa gente, fazem amizades e procuram integrar-se, ou então ficam irremediavelmente condenados ao ostracismo e vão-se ver à rasca para conseguirem ter uma vida normal. Os ilhéus são boa gente, não me interpretem mal, mas uma comunidade pequena torna-se facilmente desconfiada em relação a estranhos, e se eu tenho conseguido entrar em todo o lado e ser bem recebida é porque, basicamente, eles são naturalmente hospitaleiros e eu tenho cara de menina séria (um tanto excêntrica, é um facto, mas como sou estrangeira tenho direito a desconto), mas se fosse um matulão mal encarado ou tivesse ar de quem andava a atacar no Intendente, estava lixada logo à partida.
De certa maneira, têm tido muitas razões para ser desconfiados. Ainda que nunca tenha havido nenhum problema, as Hébridas têm sido usadas como refúgio para os programas de protecção a testemunhas e outro pessoal que precisa de desaparecer; mudam-lhes o nome, inventam-lhes uma história e mandam-nos para cá para recomeçarem a vida. Erro crasso, porque os nativos já os topam à légua e por muito boas pessoas que sejam, toda a gente foge deles. Normalmente as casas entram em obras antes destas famílias se mudarem, para instalar portas blindadas, vidros especiais e reforçar paredes (que as interiores são normalmente uma bela bodega, feitas com uma matéria plástica que se parte facilmente a pontapé, mesmo sem metade do caparro do Schwarznegger). Ora como os pedreiros são recrutados na ilha, o tal programa de protecção vai logo por água abaixo (...bom, se fossem pedreiros de fora também iam levantar suspeitas). Sabendo-se que o próximo habitante tem alguém atrás dele com ganas de lhe dar cabo do canastro, claro que ninguém quer estar por perto quando isso acontecer. Pode não ser justo para quem já tem problemas de sobra, mas é uma reacção natural.
Ainda por cima, nestes últimos dias, Stornoway tem estado em destaque pelos piores motivos – prenderam um bando de tarados que molestou três miudinhas daqui, o que tem deixado toda a gente agarrada aos noticiários. O que incomoda mais os indígenas (além do crime, claro) é estarem só a divulgar que os pedófilos são habitantes da ilha, sem nunca referirem que nenhum deles é natural daqui. É tudo pessoal que veio de fora e que se tinha instalado há pouco tempo a norte de Lewis.
Depois disto, começa-se a falar em fazer petições para a câmara de Stornoway passar a proibir a instalação de gente com passados suspeitos – e a suspeita pode ser apenas o facto de ser alguém que tenha mudado meia dúzia de vezes de morada durante os últimos anos, como quem anda a fugir de alguma coisa. As vizinhanças estão já a escolher representantes da comunidade e a planear recolhas de assinaturas. Aparentemente não tarda muito para Stornoway estar novamente nos noticiários, desta vez com manifestações anti-estranhos à porta da Câmara Municipal. Brrrr...
Portanto, se alguém por aí está com ideias de vir pra cá, que trate de arranjar um curriculum perfeitinho, com muitas recomendações em anexo, passe um pente no cabelo, vista-se decentemente e vá à missa logo desde o primeiro domingo, senão arrisca-se a ser deportado para a mainland no primeiro ferry boat.

11.8.07

Crónica das Hébridas - 7

Eu caída de paraquedas no concerto de um tal Mick Flavin, um irlandês muito alto com um vozeirão de baixo que chega pra sete, quanto mais pra uma salita pequena como esta da Legion (Royal British Legion). Ao vivo não é tão canastrão como nos cartazes que andaram a espalhar pelas montras, mas quando o vi aparecer no palco com um colete de cetim preto bordado a lantejoulas douradas, com um cavalinho de um lado e uma ferradura do outro, temi bastante pelo serão. Mas a seguir o homem abriu as goelas e então percebi que, quando se tem uma voz assim, até se lhe perdoam as lantejoulas. Também podia ter aparecido de boné, jardineira e enxada ao ombro, que a fatiota torna-se irrelevante em menos de nada. Aleluia.
E afinal eu até gosto de música country, não assim em dose maciça, é um facto, que duas horas disto é de empanturrar, até porque ao fim de três ou quatro cantigas já não se conseguem distinguir umas das outras – soa tudo ao mesmo – mas o pessoal está entusiasmadíssimo com o irlandês das latejoulas. Por aqui, na rádio, nos CDs que trazem para o serviço e nas cassetes que põem no carro, ou tocam música gaélica ou country. É evidente a semelhança entre as duas. Não com aquela música das gaitas de foles, que sempre me pôs os genes todos aos saltos, mas com a música gaélica cantada, com ou sem instrumentos a acompanhar (esta especialmente apreciada pelos indígenas, pra quem um cantor a sério tem de conseguir cantar sem música), bem mais popular por aqui do que as gaitas, só usadas para ocasiões especiais. São músicas agradáveis mas um tanto chatas, demasiado compridas e repetitivas. Mas percebo porque é que o country também abana a genética toda deste pessoal. O country é a música dos emigrantes, dos escoceses e dos irlandeses que tiveram de fugir daqui nos anos de penúria e levaram os sons da terrinha lá para as américas. Os temas são as saudades da casa e da família (e então passam a vida a dar-lhe com o “take me home” e o “take me back” – devem estar à espera de boleia) das miúdas lá da terra, da paisagem, enfim, é saudades e pouco mais – música de emigrantes já diz quase tudo. E antes country do que pimbas…
Quando chegámos já estava tudo cheio, mas a Moira disse logo “eu cá atrás não fico”, mesmo quando eu já estava a tentar gamar uma mesa reservada (era só mudá-la de sítio) pra não ficarmos em pé. E então, ela começou a ver quem estava, quem é que podia desenrascar, meteu-se pelo meio da maralha e quando voltou já tinha conseguido arranjar-nos três cadeiras na segunda fila da frente, não faço ideia como (somos três, que a Norag – Nora prós amigos – também veio; deveríamos ser quatro, mas o marido dela deixou-nos à porta e fugiu).
A primeira parte do concerto foi uma desgraça para aguentar aqui sentada, não pela música mas pelas ideias frescas da Moira – “levamos já duas bebidas cada uma, que assim não precisamos de interromper para vir buscar mais…” – argumento copófonico que me convenceu a trazer dois “half pints” de cerveja para o lugar, mas claro que ao intervalo já ‘távamos todas à rasquinha pra despejar.
À saída da casa de banho cruzámo-nos com o teclista do grupo, que a Moira tratou logo de convidar pra vir encher os canecos connosco. E alguém já viu um irlandês a recusar um copo? Eu também não.
Conversa puxa conversa e mais conversadores, e dali a pouco juntou-se-nos o baterista. O primeiro, o das teclas, tinha um inglês que se entendia perfeitamente; falei-lhe das minhas visitas aos calhaus e ele falou-me de túmulos e pedregulhos e druidas, e eu até achei que ele tinha um sotaque castiço que se entendia perfeitamente, agora o fulano dos tambores, caneco, teve de me repetir tudo devagarinho, que o tal sotaque castiço deve ser de outra região, tão cerrado que não se consegue entender duas seguidas – mesmo assim ainda deu pra perceber que pelos vistos eu posso vir ao bailarico de amanhã mesmo sem ter bilhete, que o moço promete que me faz entrar pelos bastidores. Até que é engraçadinho, mas eu não ‘tou inclinada pra engates e acho que não me apetece passar a noite a dizer “hã?!”, ainda por cima com alguém que começou logo da melhor maneira: “Lisboa…? Ah, na Austrália, claro.” Claríssimo.

A farra continuou pelo fim de semana, com uma data de malta abancada em casa da Marisa, a enfiar copos atrás uns dos outros até saírem de gatas, e nisso e em muita coisa são iguaizinhos a nós, provavelmente porque o bicho gente é todo igual no que toca a copos e festarolas privadas. Talvez menos comezaina do que é costume nas da minha terra, sobretudo porque só eu é que me lembrei que deveria haver uma sobremesa (o resto era tudo comida a sério para enfardar bem) e decidi fazer uma tigelada de baba de camelo. E então, em vez de a pôr na mesa, à disposição de quem quisesse, a Marisa resolveu agarrar na tigela e dar uma colher de sopa a cada um, para provarem primeiro, a ver quem ia querer mais. Tudo bem, salvo o facto de que a colher era uma só, lambida e relambida por alguns 20; em vez de baba de camelo, ficámos com cuspo de convidado, mas aparentemente toda a gente achou isto perfeitamente normal.
No geral foi uma noite divertida, em que até fizeram um concurso para ver quem tinha as mamas maiores (ganhou a Moira) e acabámos com umas guitarradas do Murdo (Murdigan para os amigos) e o pessoal todo em coro a assassinar as cantigas, enquanto os mais fracotes curtiam a buba nos sofás novos da Marisa. O trivial.

A olhar para o jornal, dei-me conta de que as fotografias do pessoal que se casou e dos moços que acabaram o curso, além dos nomes trazem também as moradas, com rua e número de porta, assim mesmo, todas escarrapachadinhas, com certeza para o caso de alguém lhes querer dar os parabéns pessoalmente. Pensei que fosse coisa das famílias, para ninguém ter dúvidas de que é mesmo o filhinho deles que aparece na página social, com um chapéu esquisito e canudo na mão, mas afinal parece que é pecha dos jornalistas, porque as moradas continuam a aparecer no resto das notícias. Como a de um puto que se enfrascou até correrem com ele do bar, por já estar a fazer muitas ondas, e resolveu ir dar uma voltinha para espairecer, com o primeiro carro aberto que encontrou (ao que parece, com chave e tudo). Daí a nada já tinha a bófia toda atrás dele, com certeza entusiasmadíssima por finalmente haver alguma coisa para fazer nesta ilha, até que o puto acabou por se enfiar numa cerca de arame, deitou os postes abaixo, pregou um cagaço medonho nas ovelhinhas e foi agarrado. Pois além de seis meses sem carta, uma multa das gordas e ano e meio de cana por andar por aí a causar distúrbios (já agora, pra que é que se deram ao trabalho de lhe apreender a carta…?), ainda lhe publicam o nome e a morada, talvez para o caso de algum dos lesados lá querer ir tirar satisfações com ele.
A não ser que os nomes que aparecem no jornal não sejam exactamente os originais, e não falo de pseudónimos, mas em combinações e abreviaturas, porque pelos vistos é normalíssimo o pessoal assinar com nomes inventados; até agora eu estava convencida que Chrisella e Marisa eram os nomes reais das minhas colegas, pelo menos é assim que elas se apresentam e assinam as cartas do escritório, mas afinal uma chama-se Christina Annabella e a outra Mary Ishbel. Abreviaram os dois, juntaram e pronto, passou a ser uma espécie de nome público. Há que concordar que é prático… e na nossa terrinha ia até resolver algumas frustrações, em casos como, por exemplo, uma Andreia Vanessa poder passar a ser Andressa ou Dreiva, ou mesmo Cátia Susana se fizesse muita questão, sem ninguém lhe levantar problemas legais por causa disso.

E então, retomando o tema da minha primeira crónica e dos meus preconceitos quanto aos ilhéus, parece-me que afinal quem está com problemas de insularidade sou eu. Ao fim de uns tempos a esbarrar com a costa a cada esquina, começo a ter a sensação de estar aqui encurralada. Isto pode parecer muito esquisito, tendo em conta que na cidade eu normalmente não ando mais do que dois quarteirões até ao comboio e que a maior parte dos meus fins de semana são passados em casa, entre as escovadelas no gato e a jogatana no computador, por falta de pachorra para saídas e noitadas. Aqui, talvez pela minha condição de estrangeira num sítio novo, a percepção do espaço ficou muito mais desperta, e isso faz-me também ter mais consciência dos limites. Porque mesmo no meu apartamentinho T1 com vista para as traseiras, ensanduichada entre dois andares, eu sei que é só pegar no carro e desatar a andar para poder chegar até à Sibéria, se me der na gana, assim haja gasolina e camisolas suficientes; na ilha tenho duas margens a 20 minutos uma da outra e campos vazios no meio. É bonito, pois, é uma paisagem praticamente minimalista, quase um deserto, e eu até sempre fui um daqueles que vivem numa cidade mas passam a vida a sonhar com os desertos, com espaços abertos sem nada a atrapalhar, onde se pode voltar às origens e resgatar o selvagem que volta e meia desata aos pulos cá por baixo da civilização toda que se carrega às costas, mas afinal, como qualquer outra treta pseudo-filosófica, esbarro com o mar e desejo uma ponte, um ferry barato (o preço é um susto), qualquer hipótese de fuga fácil, porque o que me incomoda não é o tamanho do espaço onde eu vivo, mas a falta de hipóteses de poder alargar os horizontes. Já percebi que não aguento uma prisão por muito tempo, nem que ela tenha o tamanho de uma ilha. Passada a novidade, começo a ficar um tanto sufocada, a desejar terra firme, terra grande, com montes de espaço pra fugir.Um dia destes, em vez da Crónica das Hébridas, acho que vou estar a fazer a Crónica de Cascos de Rolha, onde pelo menos um dos horizontes tenha muito chão pra pisar.

24.7.07

Broch de Carloway

o Broch visto de trás - imaginem o resto que lá falta para completar o pudim

o Broch visto de frente, numa fotografia sacada da net

interior do Broch de Carloway, onde se vê a muralha dupla

interior das paredes do Broch, com a estrutura do piso de cima

Bué da calhaus!

círculo de pedras de Cnoc Fhillbhir Bheag - não se esforcem, lindos, que a pronuncia disto não tem nada a ver com a grafia

Callanish numa fotografia que não é do ermita; é um postal com uma vista aérea e os créditos são do Colin Baxter, que conseguiu uma vista de conjunto bestial

esta sim, é o círculo de Callanish tirada pelo ermita num dia típico por estas bandas, a chover como convém

e lá vai outra, tirada de outro ângulo, agora com a pedra maior vista de frente

e esta agora tem um cão e tudo, o tal que queria que eu lhe atirasse um pauzinho já todo babado - yac! (mas eu alinhei, claro), que é a coisa preta e branca na erva à frente do calhau maior, para quem ainda não localizou

Crónica das Hébridas - 5

Eu sem saber por onde começar.
Bom; fui ver os calhaus. Posso descrever agora como eram os círculos de pedra e o broch de Carloway (Dùn Charlabhaigh Broch), mas quem quiser saber mais, que vá ver à enciclopédia ou à internet. Eu só sei de ter lá estado. E isso, meus amigos, não há fotografia, artigo ou documentário que substitua.
Depois de me ter fartado de ver fotografias da torre Eiffel em tudo o que é postal e cartaz turístico, cairam-me os queixos quando finalmente a vi ao vivo e a cores, porque só depois disso é que pude realmente fazer ideia do tamanho. O meu pai diz ter tido a mesma sensação com o coliseu de Roma. E agora, nesta voltinha de fim de semana até ao círculo de Callanish, não foi a questão do peso nem do tamanho que me fez cair os queixos, mas o aspecto praticamente intacto do alinhamento. As pedras não estão partidas nem tombadas. Estão todas lá (aparentemente). Ainda podemos tocar naqueles calhaus e ainda é possível ver o santuário praticamente tal como foi concebido pelos antepassados. E esse tempo imenso, essa distância entre os construtores e a permanência da construção, essa carga toda é que faz o peso real do lugar.
Estive noutros círculos no mesmo dia, encantei-me com o que restava das pedras erguidas, com as paisagens enormes ao longe, sítios altos de onde se avistam outras colinas com mais círculos em ruínas, as pedras maiores em verticalidades já difíceis de manter, as outras em pedaços dispersos que a turfa vai tratando de engolir, sítios que posso entender porque é que foram escolhidos, mas que me exigem bastante da imaginação para tentar reconstruir a imagem original.
Em Callanish não é preciso imaginar. Está lá tudo. É só abrir os olhinhos.
Também já tinha visto postais e T-shirts e posters e o diabo a quatro; é a atracção local e as fotografias das pedras estão por todo o lado. Agora sei que as imagens são falsas, por muitas sombras artísticas e pôres-de-sol que tenham conseguido captar. A perspectiva desaparece completamete e a ideia que dá é de uma floresta de grandes pedras um tanto ao acaso. Muito bonito, mas não tem nada a ver com a realidade.
No terreno, começamos por ver as pedras ao longe e esquecer imediatamente as fotografias todas; a tridimensionalidade arrasa logo com elas. Mesmo enquanto só vemos uma aparente linha de pedras no horizonte, a sequência de volumes já dá uma impressão bestialmente forte, a impressão de que estamos a ver qualquer coisa absolutamente acima do resto, como se não fosse totalmente deste mundo. A impressão de sítio sagrado…? Hummm… pois, pra mim, claro, mas pra quem se está nas tintas para o assunto também entender, eu diria que é assim a impressão de “coisa importante”, de uma coisa daquelas em que nem o maior morcão deste mundo consegue ignorar. Topam?
E depois paramos o carro, saímos já com os olhos arremelgadinhos, repletos até à celulazinha mais raquítica do nervo óptico, e vamos andando ao longo da avenida de pedras até chegarmos ao círculo central com a certeza de se estar a entrar num templo, olhamos para o calhau rectangular ao centro, cinco metros de pedra lisa que reduzem qualquer santinho pintalgado à sua insigificância, e nessa altura já entendemos tudo, entendemos porque é que os antepassados andaram a acartar pedregulhos, entendemos porque é que os alinharam naquela posição e sentimos que está tudo no sítio certo, com as dimensões certas, e qual canhanhos dos doutores, qual teorias, não é preciso mais nada, basta estar lá pra qualquer coisa cá dentro entender tudo, porque o espírito da coisa mantém-se tão visível como há 4000 anos atrás e não é preciso mais porra de explicação nenhuma. Em resumo: a construção de facto funciona.
Mandem os nossos arquitectos vir pra cá olhar prós calhaus. Bem precisam.
A única coisa estragada em Callanish é a cripta, porque o tecto caiu. Aos pés da pedra central (e mais um pouquinho e ia dizer altar mor) há uma cripta escavada no chão, com um corredor e duas câmaras; um átrio quase quadrado seguido de uma divisão ainda mais pequena, como um armário ao fundo. Pelo que li, quando fizeram as primeiras escavações encontraram alguns ossos no meio da turfa, que assumiram serem humanos, depois de vários entendidos os estudarem. Hoje em dia seria possível de determinar, mas entretanto perderam-nos. Se era um bacano importante ali enterrado ou os restos de algum carneiro que caiu no buraco, já não há maneira de saber. Mesmo se houvesse a certeza de que eram ossos de gente, também ninguém se lembrou de descrever a posição em que estavam, o que poderia indicar se o indígena tinha sido tranquilamente sepultado pelos compadres ou assassinado pelos invasores que se supõe terem deitado o tecto abaixo durante a foçanguice das pilhagens.
Como já disse, os círculos de pedra por aqui são mais que muitos e estavam em pontos altos, relativamente próximos uns dos outros, de onde se podiam avistar, sobretudo se acendessem fogueiras. Dada a grande quantidade de igrejas rivais que actualmente invadem a ilha, lembrou-se a Chrisella de que calhando sempre foi assim já desde o tempo dos pedregulhos. E de repente imaginámos os nativos do antigamente todos divididos em seitas, porque “o nosso santuário é que vale e os outros são todos um bando de heréticos”.
De facto, a religião entrou em força na vida dos ilhéus, em todas as versões conhecidas do cristianismo. “Igrejas a mais pra tão pouca gente”, comentava a Moira um dia destes. Com efeito, são tantas que duas delas, rivais entre si, estão só à distância de um quarteirão. “Se estes gajos se chateiam, estão tão próximos que dá pra desatarem todos a atirar tomates uns aos outros…”, comentei eu, ao que a Chrisella, cheia de olho pró negócio, imaginou logo o dinheirão que faria com o jipe carregado de tomates para vender à saída da missa.
E depois há o Broch (o ch lê-se como em alemão, a arranhar as goelas), que é uma fortaleza circular, uma torre toda em pedra solta, de paredes duplas, com uma escada no meio das duas para chegar aos andares de cima. Coisa bestialmente sólida, apesar da falta de cimento, feita por antepassados que sabiam bem o que estavam a fazer; um improviso que fosse e arriscavam-se a levar com a torre em cima. O de Carlabhaigh (lê-se carlavag, Carloway na versão inglesa) já está só em metade, mas há outros por essa Escócia fora ainda praticamente intactos (um, pelo menos, parece estar ainda completo, com tecto e tudo). Claro que o sítio é óptimo, uma colina estratégica de lindas vistas sobre um loch ( = laguinho escocês – não esquecer a arranhadela), de onde podiam ver quando lá vinha o inimigo e bombardeá-lo em força (com calhaus, claro – quem pensou em tomates?).
Mas apesar dos esforços todos que os antepassados tiveram para fazer edifícios sólidos, capazes de resistir aos milénios, acho que ainda ninguém inventou nada à prova de miúdo. Palavra que eu cheguei a temer pelos pedregulhos. Porque a primeira coisa que um puto faz quando vê uma pedra já meia tombada é… amarinhar por ela acima e ir pra baixo de escorrega, claro. Agora imaginem-me com seis putos a esgravilhar à minha volta, todos entusiasmadíssimos com a mudança de parque de diversões, enquanto as mamãs punham a cusca em dia, completamente alheias ao ataque dos bárbaros. Felizmente, à chegada a Callanish, tiveram o bom senso de os segurarem dentro dos carros à conta de um pacote de bolachas, para me darem uma trégua e eu poder tirar as minhas fotografias em paz. Mas depois foi a festa total, claro, ainda com a ajuda de um cão analfabeto (não leu a placa do “no dogs”) que passou o tempo a desafiar-me com um pauzinho já muito mastigado. Finalmente os putos pararam todos ao redor da cripta e eu fui ver qual era o assunto. Discutia-se a utilidade do buraco. Para eles, aquilo era sem dúvida uma sepultura dos vikings, mas o tamanho estava a deixá-los preocupados; os compartimentos eram demasiado pequenos para adultos, portanto devia ser um túmulo para os bebés (típica poesia infantil). Um dos mais velhos, que aprendeu na escola que os vikings enterravam os mortos com barcos e tudo, fartava-se de tirar medidas a ver se conseguia provar que lá cabia um drakar bem apertadinho, ao que os outros contestavam que eram barcos grandes demais, portanto o drakar devia estar enterrado noutro lado qualquer – ali só ficavam os bebés e pronto, até dava para vários, um ao atravessar, três ao comprido e mais outro no corredor. Quanto à minha tentativa de explicar que aquilo era muito mais antigo, levou logo um pleno atestado de ignorância, porque afinal toda a gente sabe que os antepassados eram todos vikings matulões, de tranças louras e cornos no capacete. Com efeito, à conversa com os indígenas, nota-se que é muito mais forte a ideia dos homens do norte como os antepassados directos, do que propriamente os celtas. Há quase uma espécie de culto ao viking, evidente no nome que põem nas casas (a da Moira chama-se “Norvik”, abreviatura para northern viking), nas ruas ou mesmo nos filhinhos. Os pictos são assunto do resto da Escócia e os celtas devem ter fugido todos prá Irlanda, quando muito andaram por aí em passeio turístico; aqui, o passado comum são os vikings, e vá lá agora vir uma gaja de fora a falar nuns fulanos quaisquer que nunca ninguém viu… “Nós cá somos todos homens do norte, carago!”
Callanish não está sequer num sítio alto, ou melhor, está numa pequena colina, entre colinas mais altas, onde também existiam círculos de pedra – o núcleo de onde partiam os raios de um complexo de templos menores? – os tais círculos que não sobreviveram e que hoje são os escorregas dos fedelhos que os turistas trazem nas voltinhas de fim de semana. O de Callanish conservou-se quase intacto e não posso deixar de pensar que é a impressão que causa ao mais céptico que deve ter salvo os pedregulhos do vandalismo dos invasores e da ignorância dos nativos (uma pedra erguida, última resistente de um círculo desaparecido, foi derrubada há menos de um século porque uma lenda falava num pote de ouro enterrado lá por baixo). As pedras de Callanish nem sempre estiveram tão visíveis. Durante séculos foram também semi-engolidas pela turfa, como tudo o resto. Provavelmente, o facto do círculo ter ficado menos exposto durante a época do fanatismo religioso salvou-o mais uma vez. E hoje aí estão elas, em plena luz, protegidas pela lei e cultuadas como ícone turístico, a fazer manguitos ao tempo.

Os deuses venceram.

22.7.07

Aignish

a Moira junto ao Aignish Cairn, um monumento recente, alusivo à luta pela posse da terra nas ilhas


o site do patrão do ermita, com um artigo sobre a inauguração do cairn:
a igreja em ruínas de St. Columba em Aignish numa fotografia sacada da net, que as do ermita saíram altamente ranhosas (acho que vou passar a usar rolos de 200 ASA)



vista de outro ângulo, numa fotografia do Colin Palmer, um senhor que também apanhou um tempo farrusco mas se saiu bem melhor do que o ermita


cemitério dos McLeod, junto à igreja de St. Columba, um missionário irlandês que andou a converter escoceses e se tornou um santo muito popular por aqui
lápide funerária em forma de cruz celta no cemitério de St. Columba


Mais sobre o sítio:
http://en.wikipedia.org/wiki/Aignish

Crónica das Hébridas - 4

Meninos, hoje guiei pela esquerda! Num carro com o volante ao contrário, ignição do lado da porta e a caixa de velocidades ao meio, tal como as nossas, só que neste é preciso lembrar-me que a mão que lá mexe é a outra (senão lá vai mais uma estalada na porta), e menos mal que os pedais estão todos no sítio certo. E depois, bom, é como estar a ver tudo num espelho. Andar para a frente é canja, já fazer as curvas dentro da mão tem algo que se lhe diga, que a tendência é logo chegar o carro prá direita, e quanto às rotundas, bem, nem me atrevi a pegar no volante antes de lá chegarmos, senão é que ia ser o fim da macacada. Da primeira vez que lá passámos, lembro-me que me agarrei ao assento e até os cabelos se me devem ter eriçado. Mesmo agora, a passar por lá todos os dias, ainda me faz uma confusão do caneco ver o trânsito a girar ao contrário e a usar acessos que eu nunca descobriria nem à segunda, quanto mais à primeira...
Quanto às estradas… bom, em Portugal, quando temos uma estrada secundaríssima, daquelas de terra batida, só com uma via, e de repente nos aparece um caramelo pela frente, um de nós tem de se enfiar na valeta e até a carroceria se encolhe para cabermos os dois. Aqui, alcatroaram as estradas mas nem se deram ao trabalho de acrescentar outra faixa; resolveram o problema fazendo umas maminhas ao longo do caminho, com o sinal de “passage place”, que é como quem diz, quando aparece o tal caramelo em sentido contrário, o que tiver a maminha mais próxima do seu lado encosta ali e deixa o outro passar.
Ah, e por aqui os sinais de trânsito têm legendas, como “give way” quando a prioridade é dos outros, ou “blind summit” se há uma lomba, o que deve ser porreiro para os putos que estão a tirar a carta; com a papinha assim toda feita, deve ser preciso ser mesmo muita burro pra chumbar no exame.

A minha comunicação com os indígenas tem vindo a melhorar. Já começo a apanhar as nuances do sotaque e a habituar-me a traduzir rapidamente alguns sons esquisitos pelas letras certas, ainda que de vez em quando me aconteçam alguns incidentes, como hoje, quando eu disse que ia ao supermercado e a Moira me pediu um pimento verde [green pepper], ao que eu percebi “um papel verde” [green paper] e fui à sala das fotocópias buscar um molhinho de folhas, sem perceber porque é que ela desatou à gargalhada.
Quanto a tudo o que é pequenino, esqueçam o que aprenderam nas aulas de inglês, que aqui não se usa o small, nem o little, nem o tiny – é tudo “wee”. Influência dos duendes…? [wee people]. E se a coisa for porreira, então é “lovely”, seja ela o jantar, o tempo, uma pessoa, a paisagem ou uma situação. Se traduzirmos à letra (amoroso) e entretanto tivermos um matulão ao lado a usar o termo constantemente, a conversa soa um tanto amaricada, mas enfim, é uma questão de hábito.
Claro que para eles eu também tenho um palavreado bestiamente estranho; além da ferrugem na língua, ainda me meto a inventá-las, como aqui há dias, em que só me vinha à cabeça “a praça da rotunda” e em vez de dizer “round about”, saiu-me a bela tradução à letra de “round square” ( = “praça redonda” mas também “quadrado redondo”), expressão que a partir daí passei a adoptar plenamente, rendida à genialidade surrealista destas traduções.
Mas quando não sei peço ajuda, claro, como quando estava à procura de uma palavra para “friorenta” e perguntei “como se chama a uma pessoa que está sempre fria?” “Uma mulher”, respondeu a Moira.
Piadas à parte, o facto é que afinal isto não está tudo super-aquecido, como toda a gente me dizia quando eu estava a fazer a mala, talvez porque os meus conselheiros fossem todos meninos que só estiveram em Londres, ou porque eu é que sou mesmo uma friorenta do caneco e vou logo buscar o casaco mal o termómetro desce abaixo dos 20. Se continuar por aqui mais uns tempos, acho que vou ter de sair de casa enrolada num edredon. Quanto aos indígenas, perfeitamente adaptados ao clima depois de uma série de gerações de celtas e vikings e gajos rijos, é vê-los por aí de manguinhas curtas e sandálias, como se não fosse nada com eles.

Acompanhando os nativos nas suas deambulações, dou-me conta de que isto é realmente um meio muito pequeno, onde toda a gente se conhece e se cumprimenta constantemente. Como todos os meios pequenos, o prato do dia é falar da vida alheia. Mas a cusca tem algumas vantagens. As terras altas e as ilhas da Escócia foram estatisticamente consideradas como os lugares mais seguros de todo o Reino Unido. E pelo que vejo, as ilhas devem ser praticamente à prova de ladrão. A Chrisella tem um belo jipe, novinho e lustroso, que nem precisa de trancar – como a estas alturas já toda a gente sabe que ela tem um jipe e lhe diz adeus quando a vê passar, se um malandro qualquer se aproveitasse da porta aberta e tentasse fugir com ele, o pessoal ia começar por achar muito estranho (mas quem é aquele manjerico a guiar o jipe da Chrisella?) e a seguir, mal se soubesse que tinha sido roubado, o meliante seria caçado num instante e provavelmente ainda levava uns bons muquecos. Mas nenhum ladrão é assim tão parvo; os carros só conseguem sair da ilha pelo ferry boat e é preciso ter os papéis em ordem para os embarcar. Quanto a desmanchá-los e passar as peças aos poucos, com os limites de bagagem e o preço dos bilhetes ficaria tão caro que mais valia comprar um novo no stand.
Os efeitos da cusca têm muitas facetas, umas melhores do que outras. A falta de privacidade é talvez a mais chata e pode atrapalhar bastante, como no caso da recente abertura de uma associação de alcoólicos anónimos aqui na ilha. Por muito que jurem manter segredo sobre quem estava a reunião, não sei como vão conseguir lá entrar sem ninguém dar por isso (“viste o MacCoiso?” “Sim sim, vi-o agora mesmo a entrar ali nos alcoólicos anónimos”). Será que têm uma porta nas traseiras?
Mas tem facetas óptimas, como quando o único radar de velocidade da polícia local teve uma avaria e tiveram de o mandar arranjar em Edinburgh… Eles bem que continuaram a fazer de conta que estavam a controlar os aceleras, mas como já toda a malta sabia que era só bluff, passavam na broa pela frente deles e ainda aproveitavam pra fazer caretas.
Muito falado na semana passada foi o caso de uma miudinha de 14 anos que se pisgou de casa com um canastrão de 46 (baixote, gordo, feio, óculos tipo vitrine, e assim ficou provado que há mesmo gostos pra tudo). Mas o mais bizarro é que, como eles queriam passar despercebidos, resolveram fugir para a Escócia. Se tivessem ficado em Londres, misturados com a maralha, talvez conseguissem ganhar tempo até haver menos controle e poderem sair do país, mas na Escócia, onde qualquer estranho que aparece fica logo debaixo de olho, é claro que foram logo agarrados. O gajo, além de feio, ainda por cima é burro. Realmente, não sei lá o que é que a miúda viu naquilo…
Muito comentado também foi a edição de um dicionário de gaélico com palavras novas (até agora usavam as do inglês para o efeito), The New English-Gaelic Dictionary, pelo Prof. Derick S. Thomson. É claro que as minhas colegas fizeram o que toda a gente faz quando pega num dicionário novo: foram à procura dos palavrões. E quanto a isso, este senhor parece ter ideias muito estranhas sobre o sexo e traduz expressões como fuck (suponho que ninguém precisa da tradução em português) por “pôr-se por cima de alguém” ou masturbação como “pressionar-se a si mesmo com o dedo” (!!!) Como podem calcular, esta da masturbação deu brado e toda a gente gostava de saber como é que o Professor Thomson terá chegado a uma descrição destas. Dada a óbvia inutilidade das palavras novas, as minhas colegas discutiam ao almoço qual seria a palavra mais lógica que se deveria usar. E então perguntaram-me a mim como se dizia lá na minha terra. “Masturbação é como em inglês, praticamente é só uma questão de pronúncia” – e disse a palavra devagar para elas perceberem. Pois, não servia. “Então e se for em palavrão?” Um tanto relutante, lá disse “punheta”, à espera que ninguém fosse capaz de reproduzir aquilo, mas contra todas as minhas expectativas, além de gramarem o termo, desataram logo a repetir umas para as outras para afinarem o sotaque (e mesmo a esconder a cabeça debaixo da mesa, posso garantir que ficou perfeito). Como depois era preciso dar-lhe um ar mais gaélico, a palavra acabou por ficar estabelecida como “punhetaroc”. E foi assim que eu dei a minha contribuição para o vocabulário local. Se por acaso a coisa pega, tou pra ver, daqui a uns anos os linguistas todos a tentarem explicar a origem do termo.Ontem, para mostrar as habilidades, despedi-me da Chrisella e do marido com um “boa noite” em gaélico. “Eïche vá!” (oidhche mhath) – disse eu. “Punheta” – responderam eles; mas afinal, é a única palavra que sabem dizer na minha língua.

20.7.07

Paisagens e pedregulhos

o maior pedregulho que sobrou de Steinacleit

a Moira ao pé do Clach an Truisel, o maior calhau destas bandas

vista do outro lado, com o ermita a segurar o Clach an Truisel

paisagem de Lewis: lagos, mar ao fundo, ovelhinhas e casas dispersas



costa de Uper Bayble, em Point, com a povoação lá ao fundo

Crónica das Hébridas - 3

Malta muito hospitaleira, é um facto. Logo na primeira noite em casa da minha colega enfiaram-me uma borracheira das boas, em que eu, muito naturalmente, colaborei apenas por uma questão de solidariedade com os meus anfitriões, claro.
A casa é tal e qual uma réplica das construções dos Sims. Para quem conhece o jogo, pode fazer uma ideia muito exacta do género de construção, do papel das paredes, da alcatifa e mesmo dos objectos. Quando ontem me falavam da vizinha que construiu uma sala de jogos com uma mesa de bilhar, um coiso de flippers, um bar e uma jukebox, pensei imediatamente que a boneca já conseguiu juntar simoleons suficientes para poder comprar mais objectos do jogo. Estão cá todos, inclusivamente os que faltam. Como o bidé, que aqui também ninguém tem nem sabe pra que serve, e depois ficam muito admirados para que raio é que eu de vez em quando levo uma cafeteira para a casa de banho. Admiram-se mas também não se atrevem a perguntar nada, como manda a educação britânica, apesar de ser perfeitamente normal comer directamente em cima da mesa, sem toalha nem guardanapo, e largar displicentemente um bruto arroto no final. Nada de importante; afinal é tudo malta porreira e ninguém é de cerimónia.
O marido da Moira, Ivor, tem um barco que é os seus encantos, herança do pai dele, e passa a vida na garagem a meter mais cola nas tábuas e a pulir o casco. Parentesis:
“Sabes tricotar?”, perguntou-me alguém antes de eu cá vir parar, já que, segundo o fulano, aqui nas Hébridas o pessoal ou anda na pesca ou faz camisolas de lã – ponto de vista limitado de um londrino que nem sabe lá muito bem onde é que isto fica. “Como eu suponho que não vais para lá apanhar peixe, o melhor é ires treinando o tricot…”
Fechando o parentesis: com efeito, na ilha o mar é inevitável. Esbarra-se com ele a cada volta da estrada. As povoações crescem ao longo da costa e toda a gente quer ter direito a um pedaço de vistas marítimas. Ter um barco na garagem, como o do Ivor, é como um lisboeta com uma bicicleta debaixo da cama: dá sempre jeito para um giro de fim de semana, com a aliciante adicional de se poder voltar do passeio com uns quantos carapaus no saco.
E em terra há as ovelhinhas, que também praticamente toda a gente tem. As ventanias são péssimas para as árvores poderem crescer, por isso a paisagem é feita de campos de pasto, cheios de ovelhas em cima, todas a produzir lã para as camisolas.
As aldeias muitas vezes não passam de dúzia e meia de vivendas de construção bastante curiosa, não tanto pelos materiais usados (paredes duplas em blocos de cimento com uma carapaça de reboco rugoso no exterior, cheio de pedrinhas minúsculas sobre uma base colorida), mas pela uniformidade dos feitios, como se houvesse um catálogo oficial da ilha, só com meia dúzia de modelos à escolha. Nada de exibicionismos ou inovações, nada que contraste com a casa do vizinho do lado, nem em cores nem em dimensões. São todas muito discretas, de um cinzento mais rosado ou mais amarelado ou mais esverdeado, mas daí não passa. É sem dúvida uma paisagem muito característica, mas cheira-me muito mais a receio da diferença do que a falta de imaginação.


Hoje atravessei mais um bocado de terra até chegar a uma outra margem, com mais casinhas à beira mar e desertos alagados no interior, onde nem as ovelhas pastam. A Moira levou-me a ver os calhaus. Não há antas nem menires, poucos aqui sabem sequer o que isso seja, mas em compensação há carradas de alinhamentos circulares. Nesta quinta-feira anunciaram a descoberta de mais outro, perto do maior círculo conhecido encontrado até hoje aqui nas ilhas. Provavelmente haverá mais, já que os calhaus têm aparecido em pontos estratégicos, de onde se podem ver uns aos outros, como partes de uma grande rede. É quase impossível ter uma imagem próxima do que seria esta paisagem durante a idade do bronze, mas só a ideia de uma ilha semeada de pedregulhos erguidos já impressiona. E se não os vemos todos agora é porque estão partidos ou enterrados na turfa. Séculos e séculos de sedimentos de plantas rasteiras que vão nascendo em cima das progenitoras já podres, adubadas com caganitas de carneiro das ilhas, e assim sucessivamente, em renovadas camadas de pasto e de bosta. A terra cresceu, literalmente, e engoliu os calhaus, povoações inteiras, restos de passado. Num terreno destes, às vezes basta cavar um buraco no quintal e lá vem brinde.
Aos saltos pelo meio das poias e dos calhaus, e as ovelhas todas a fugir com injúrias barregadas, cheguei ao cimo de uma colina onde em tempos levantaram um destes círculos. Um sítio alto e ventoso, de vistas enormes a toda a volta, onde com certeza as pedras erguidas pareceriam bicos de coroa. Agora é preciso lá estar para os ver. Já só restam as bases dos pilares e os pedaços espalhados no chão. O do meio, aparentemente uma coluna mais grossa, conservou-se um pouco mais, mas mesmo assim terá pouco mais de um metro de altura. As placas chamam-lhe Steinacleit e classificam-no como um monumento funerário. E aqui, desculpem lá, mas classificar um coiso circular, que ninguém sabe exactamente o que é, como um monumento funerário, só porque lá encontraram meia dúzia de ossitos e provavelmente uns caquinhos votivos, parece-me tão leviano como um extraterrestre que aqui chegasse, já depois de nos termos exterminado todos uns aos outros, e concluísse que as nossas igrejas eram monumentos funerários porque havia túmulos lá dentro. Até pode ser que tenham todos muita razão, mas eu ainda não ‘tou nada convencida de que os avôzinhos do bronze tivessem tido uma trabalheira do caneco a acartar com pedrugulhos monstros, a arrumá-los todos de acordo com o alinhamento dos astros (o que implica vários anos de observaçôes), só para depois enterrarem os mortos lá no meio. Ná… Esta do “monumento funerário” é directamente proporcional ao diagnóstico da virose. Se um desgraçado aparece no médico com algum sintoma que não vem no livro, é porque apanhou uma virose (ou então é do stress, que também serve pra tudo).
Mais adiante, sem mais classificações do que uma placa a chamar-lhe “Truisel Stone” (ou Clach an Truiseil), há um enorme calhau no meio de uma povoação, com uma casa mesmo ao lado, onde em tempos deveriam estar os seus irmãozinhos. Do alinhamento original só sobreviveu um gigante, um pedregulho bestialmente matulão, até agora o mais alto de toda a Escócia, pelo menos enquanto não descascarem a turfa a mais uns quantos, como os tais que apareceram na semana passada. Pelo tamanho, alvitro que fosse o pilar central, ou pelo menos um dos centrais, já que o costume local era de construir vários círculos, raramente concêntricos, com os calhaus maiores a formar as linhas interiores. Ressalvo que isto sou eu nas minhas especulações; ainda não fiz os trabalhos de casa, não fui ler o que haverá na internet sobre Clach an Truiseil e a minha única fonte de informação é a Moira, que nunca foi muito dada a arqueologias e agora só me atura por estas encostas acima porque eu dou pulinhos de contente cada vez que vejo um pedregulho. Para ela e para o pessoal daqui, sempre foi uma pedra solitária. Quem está a imaginar círculos sou eu. De qualquer maneira, um só ou último sobrevivente, é um belo calhau, sobretudo para quem gosta de calhaus. Deve ter perto de seis metros de altura por um e tal de largo e é espalmado como uma laje, com o topo a direito (entretanto partido), nada que se pareça com os nossos pirilaus solitários (vulgo menires, pra quem não entendeu). Os pedregulhos daqui têm uma secção rectangular. Tentaram talhá-los lisos e regulares como bocados de parede e até admito (mais especulação minha) que tivesse havido intenção de lhes poderem pôr barrotes em cima; uma fila de blocos lisos está mesmo a pedir um remate, como um tecto ou umas traves horizontais. Acho que preciso mesmo de consultar os livrinhos que a Chrisella me prometeu, para saber se estou a delirar.


Calhaus à parte, outra das notícias da semana passada foi o avistamento de mais 36 tubarões a rondar a costa do que no ano passado pela mesma altura. No frigorífico da pensão havia um íman muito giro, com um tubarão de boca aberta e uma legenda a dizer “mandem mais turistas – os últimos estavam uma delicia”, mas tanto quanto dizem os nativos, é só uma piada, porque os tubarões daqui só comem plancton… se bem que eles também nunca falam nos mosquitos que mordem, portanto não sei lá muito bem se posso confiar nas informações destes gajos… Bom, como me convidaram para ir à pesca num barquinho a remos, fui tirar informações à internet e pois, com efeito parece que esta raça só come plancton, mas também lá diz que têm 12 metros de comprimento e pesam 3 toneladas, portanto, independentemente da dieta dos bichinhos, espero bem que nenhum se lembre de dar uma marrada no barquito, mesmo que depois diga que foi sem querer.

18.7.07

Stornoway - Ilha de Lewis

igreja de São João Baptista (primo afastado do ermita)


câmara municipal de Stornoway


Lews castle, no porto de Stornoway


parque do Lews castle



Stornoway vista do molhe

Crónica das Hébridas - 2

Serão na pensão, já com um bloco de papel que não vale nem metade do que paguei por ele.
Afinal parece que os mosquitos que eu vi ao pé da água não são dos tais que mordem, e digo isto pela brilhante dedução da dona da pensão, a Norma, que me diz que “se não te morderam, então não eram eles”. Pelos vistos há por aqui várias raças de pintinhas voadoras.
E quanto às ovelhas, nada a fazer. Não é por timidez que não se deixam fotografar, nem por racismo que se afastam das estrangeiras que as tentam atrair com punhados de erva e piropos do género “anda cá minha linda cotonete…”; é porque são mesmo raça assustadiça e nesta época fogem de tudo o que mexe. Nesta época, pois, porque ainda segundo a Norma, a minha melhor fonte indígena até ao momento, no inverno é ao contrário. Como estão habituadas a que apareça o dono com a ração do dia, vêm atrás das pessoas sempre a ver se há mais comida (lambonas). Uma das pensionistas que por aqui passou foi ver os pedregulhos do neolítico na costa oeste e as ovelhas seguiram-na em bando até ao autocarro. A miúda bem fazia “chô! chô!”, mas qual chô… A preocupação dela era que alguém pensasse que estava a roubar as ovelhas… mas felizmente, apesar dos piores receios, as bichas não entraram atrás dela para dentro do autocarro.
Mas se a rapariga tivesse ido passear de carro, poderia não ter melhor sorte. Os donos das ovelhas deixam-nas à solta no campo e quando levam a comida chamam-nas com a buzina. Como elas não têm grande ouvido para a música, quando ouvem as buzinas dos outros automóveis pensam que vem lá mais ração. E assim, os turistas bem que apitam a ver se elas desimpedem a estrada, mas em vez disso, cada vez vêm mais, todas bestialmente impacientes, a pensar que as estão a chamar para o almoço. Ah sim, o inverno por aqui deve ser um prato…
Felizmente, ou pelo menos para os meus idealismos, percebo que os ilhéus não são todos chapa-4, moldados pelos tais moralismos locais, e que tal como seria de esperar, também se enfrascam alegremente aos domingos, feriados e dias santos, com o stock de bebidas com que se abasteceram nos dias úteis. E pelo que me contam dos rigores do inverno, posso supor que isto seja tudo pessoal muito dado ao bicoque. Afinal são esoceses, raio, foram estes gajos que inventaram o wisky, não têm nada a ver com o bando de abjectos pregadores abstémios que andou por aí a espalhar cartazes pela cidade.
E depois, sejam ou não efeitos da graduação, o facto é que este pessoal é bestialmente hospitaleiro.
Depois de conferenciarem todas, as minhas novas colegas concordaram que não há alojamentos baratos aqui na ilha e que portanto o melhor era levarem-me para casa delas, uma de cada vez, “e ai que divertido que vai ser, com o marido e os meninos e o cão e as galinhas” (dizem elas, enquanto eu, com a minha timidez crónica, começo logo à procura de um buraco para me esconder), e entretanto há uma que me quer levar para os copos no sábado e outra que me vai levar à pesca dos caranguejos no domingo, e com um calendário destes, a ver se não tou c’uma bruta ressaca, senão nem pra isco vou prestar.
“Safe place, nice people”, como me dizia alguém por e-mail aqui há dois meses atrás, quando eu ainda hesitava em vir. Se eu os entendesse melhor (e eles a mim…) talvez fosse perfeito.
Até agora sempre achei que é muito mais fácil entender um escocês do que um inglês, porque o escocês pronuncia as letras todas. Mas o raças do sotaque dos ilhéus é bestialmente cerrado, com umas entoações que lembram o sueco, e nem eles parecem entender facilmente um inglês de Londres – e quanto ao londrino, coitado, se já acha que o sotaque escocês é difícil, quando ouve estes gajos não entende um boi.
Só um exemplo: há uma semana atrás, a secretária do MacLean, toda prestável ao telefone, ofereceu-se para me procurar um sítio onde dormir e às tantas perguntou-me se eu sempre ia trazer o “cait”. “O quê? …o meu carro [car]?” – e pensei que depois da conversa com o MacLean, em que ele me tinha aconselhado a trazer o meu rodinhas, porque sem rodinhas nesta ilha ninguém chega a lado nenhum, ele tivesse ficado convencido de que eu ia mesmo arriscar-me a atravessar quatro países e dois paralelos com um Renault 5 de 88. “Não, o cait”, insistia ela lá do outro lado, “o animal… não tens um cait? O Malky (o Malky é o patrão) falou-me num cait.” “Aaaah… claro, pois, eu falei ao Malky no cait, mas entretanto já arrangei uma cait-sitter para me tomar conta da fera…” e assim de repente estava-me a esquecer que até nas Hébridas já ouviram falar no meu gato [cat].
A conversa das minhas colegas é uma coisa surrealista. A meio das frases passam do inglês-ilhéu para o gaélico, exactamente à mesma velocidade, e volta e meia usam palavras de uma e de outra língua intercaladas ao acaso; suponho que deve sair a que se lembram primeiro, completamente nas tintas para a coerência do código. A verdadeira salada das Hébridas…
E a propósito de salada, ainda uma nota sobre o que se come por estas bandas: bom, fundamentalmente é batatas. Toda a gente as cultiva no quintal e a maior parte tem um corpinho que evidencia bem a qualidade da dieta. Mas também comem coisinhas leves como a salada, onde usam ingredientes bastante curiosos, como uns tomatinhos pequeninos, do tamanho de berlindes, muito parecidos com os frutos de um arbusto que eu tive no quintal e que sempre tiveram fama de venenosos (má língua), mais umas ervas escuras e carnudas, a puxar para o vermelho, assim como um espinafre com ferrugem, e serralhas, pois, aquela coisa que se dá aos coelhos, e se não são serralhas são as primas delas, que a pinta é tal e qual. E depois, quando eu perguntei muito interessada, com uma folhinha na ponta do garfo, “ena, isto é muito bom, o que é?”, respondeu-me a autora do prato “ah, também não sei, mas ali o meu quintal está cheio disso…” Suponho que o critério deve ser “se é verde, papa-se”. E foi assim que eu passei a dar toda a razão aos coelhos.

Memorial das guerras mundiais

torre do memorial da 1ª guerra

aqui não parece, mas isto fica num cabeço

vista do memorial sobre Stornoway

memorial da 2ª guerra, feito à semelhança de um círculo megalítico

Crónica das Hébridas - 1

Eu cá no alto a escrever nas costas de uma conta de supermercado.
A primeira surpresa foram os números.
Para mim, a Primeira Guerra sempre foi conhecida como a de 14-18. Aqui, no memorial aos mortos das duas guerras mundiais, as datas aparecem escritas várias vezes, mas sempre como 14-19. Não que um ano faça muita diferença em questões de memória, mas quando se trata de uma guerra, qualquer dia a mais já é excessivo. E um ano é muitos dias. Acho que vou ter de rever a história.
Vim até aqui atraída pela torre. Vi-a de longe e meti-me a caminho, em voltas complicadas pelo meio de um campo de golfe, à procura da estrada certa, a tentar convencer-me de que não devia faltar muito (mas afinal faltava, ufff…). E agora que cheguei, confesso que fiquei um tanto desapontada por ver que afinal é uma coisa recente. A silhueta lembra muito as fotografias que vi do Thor de Glastonbury, mas esta é uma construção do século XX, feita entre guerras, quando ainda não faziam ideia de que o memorial ia voltar a servir para mais um montão de mortos próximos. Acrescentaram então um círculo de pedras aos pés da torre, com uns banquinhos onde eu agora me instalei, e em cada pedra há uma lista de nomes de soldados da ilha, organizados por batalhão.
Outra frustração são as ovelhas, uns floquinhos lindos, mais pequenas do que as nossas, com a cara malhada de preto e uma lã bestialmente branquinha e fofinha: andam por aí a pastar mesmo à beira da estrada, mas dão aos cascos em alta velocidade sempre que me tento aproximar de máquina fotográfica em riste.
Mas o sítio é bestial. Não fossem alguns montinhos na paisagem e conseguia ter uma vista de 360 graus. Lá em baixo fica Stornoway, mais uma série de povoações dispersas de que não sei o nome, o mar ao fundo e a silhueta azul das montanhas da Escócia mais ao longe. Visto daqui, o recorte da costa, que quase parte o horizonte em dois, dá-me finalmente a sensação de estar numa ilha. Pode parecer estúpido, afinal aterrei aqui ontem e lá de cima deu pra ver perfeitamente em que sítio me estava a meter, mas depois, quando se chega a terra, há uma grande tendência para esquecer. Ainda esta manhã, à procura da única loja aberta ao domingo, a sensação era a de estar a passear ao longo de um porto de pesca, numa costa qualquer, sem a mínima noção de exiguidade.
Falo da sensação do ilhéu, do indígena atracado à ilha, que só tem o mar pra poder fugir da terra. Não sei se alguém já se lembrou de estudar qual é o limite territorial do bicho gente. Como vivemos em apartamentos, esquecemo-nos disso, mas de certeza que temos ainda um sentido dos limites. Um gato pode cobrir uma área de mais de 3 quilómetros quadrados, território marcado a que chama dele, portanto é natural que, em proporção ao tamanho, um homem precise de bem mais. Ou seja, é evidente que isto aqui não chega pra todos. Vista no mapa, a ilha começa por parecer grande, mas depois começamos a reparar que quase não há estradas e que as povoações são só no litoral. A seguir vamos ao turismo comprar um mapa bem grandão e percebemos porquê: o interior é só água. Uma rede de laguinhos, provavelmente pantanosos, um habitat perfeito para mosquitos e passarocos, mas impróprio para construção.
Parto, claro, do assumidíssimo preconceito de que os ilhéus são todos um tanto apanhadinhos, desejosos de fugirem para o continente sempre que têm oportunidade. Tal como os nossos. Até agora ainda só tive oportunidade de falar com o taxista que me trouxe do aeroporto e com a dona da pensão onde me instalei ( = pardieiro mais barato que encontrei). Não posso, portanto, fazer uma apreciação razoável do carácter dos indígenas, mas pelas queixas que ouço, parece-me que o sonho comum da rapaziada cá do sítio é poder cavar daqui pra fora.
Entre ontem e hoje ainda vi muito pouco. Assim que pude largar a mala, aproveitei para dar uma voltinha de reconhecimento pelo centro, até que os mosquitos acordaram ao fim da tarde e me atacaram como se eu fosse um prato exótico (miam!). Já me tinham falado neles, mas ninguém me avisou que eram canibais. Hoje, na minha caminhada até cá acima, passei pela borda de um riacho e vi-os lá todos, núvens de pontinhos voadores a ganhar apetite para a noite, talvez a combinar ementas e estratégias. Devo confessar que as ferroadas da véspera foram uma experiência interessante. De repente reformulei, à luz dos mosquitos, tudo o que eu li sobre a história destas terras, desde o tempo dos povos primitivos que andaram por aí a levantar calhaus. Imagino séculos e séculos de resistência aos mosquitos, numa batalha absolutamente inglória, porque ainda por cima ganharam eles. Esta noite, os meus colegas da pensão, três mergulhadores que vieram aos caranguejos, mostravam os braços cheios de ferroadas, ainda incrédulos pela falta de um repelente eficaz. Há dias que procuram nas farmácias e experimentam as receitas caseiras dos indígenas, mas nada resulta realmente. O pessoal daqui encara os mosquitos como um mal irremediável e já se resignou a servir-lhes de refeição. Mas para quem vem de fora, a impotência frente aos canibais voadores é uma enorme frustração.
Mas bem mais curiosas são as regras dos nativos.
Hoje de manhã estive a comprar yogurtes na loja da bomba de gasolina, aparentemente uma lojita de bomba como todas as que eu conheço, mas esta é a tal excomungada que se atreve a abrir ao domingo, entre as nove e o meio dia (nada de abusos) e só por isso já foi alvo de protestos à porta e incitações ao boicote, porque aqui dia santo é dia santo e portanto é proibido trabalhar. Nem os autocarros andam, nem barcos, nem coisa nenhuma, e quando o aeroporto abriu ao domingo foi uma escandaleira semelhante, com manifestações e direito a porrada e tudo, mas isso parece que foi por causa de uns quantos contras que apareceram por lá a bater palmas só pra chatear. Pois apesar de todo o revolucionarismo da lojita da bomba, há letreiros por todo o lado a avisar que “não vendemos bebidas alcoólicas ao domingo”. Assim mesmo. Montes de garrafas alinhadinhas nas prateleiras e o respectivo aviso por baixo. Ora esta… será que nesta terra é proibido encher os canecos ao domingo? (convém tirar esta a limpo antes que ainda me lixe). Até aposto que a venda de cervejas ao sábado deve subir que nem um foguete.
Já ontem tinha topado com uma placa em pleno centro da cidade, a avisar que são 500 libras de multa (+750 € – porra…) para quem for agarrado a beber álcool na rua. Ou seja, quanto a comprar uma latinha de cerveja e ir despachá-la para o porto, a ver passar os barquinhos, 'tá quieto.
Mais adiante havia uma montra cheia de traquitana para incentivar o pessoal a deixar de fumar, penduricalhos para os carros, autocolantes, T-shirts, calendários, dísticos a defender o projecto “ilha sem tabaco”, e mais uns cartazes a pedir voluntarios para ajudarem a acabar com a raça maldita dos fumadores (provavelmente precisarão de metralhadoras).
À vista disto, será então que os ilhéus se desgraçam nos vícios para escaparem à sensação de isolamento? Será essa a pancada deles? Ou isto será só a obra de um grupinho puritano com uma noção fundamentalista de comunidade ideal?
Sempre pensei que um grupo de pessoas a viver em cascos de rolha, afastado do cabresto de um governo que ficou lá na metrópole, tivesse no isolamento uma oportunidade bestial para subverter as regras, para criar uma comunidade com dimensões humanas, enfim, sempre pensei que seria uma óptima maneira do pessoal poder mijar fora do penico sem ninguém se incomodar com isso. Admito, ainda cheia de boas intenções, a querer acreditar na liberdade como uma das pulsões humanas (e no Pai Natal e na fada madrinha), que haverá aqui apenas a obra de algum tiranozinho de serviço, que ao ver as suas ovelhinhas em risco de se tresmalharem, tenta desesperado refrear qualquer veleidade com ameaças celestes e cartazes de proibição. A comunidade tem de ser mantida na linha, apertada nas regras como na geografia, senão isto fica uma balda.
Comentavam ontem os mergulhadores que aqui proíbem tudo o que seja divertido. Tabém são escoceses, pessoal de Edimburgo, mas parecem tão descolhoados como eu.
Aproveito o facto de estar sozinha para despachar o meu primeiro cigarrito. Vista daqui, a ilha é um sítio bonito, muito calmo, quase idílico, coisa própria para folheto turístico, desde que não se fale dos mosquitos nem dos tubarões. Aqui em cima, no meio da paz dos mortos das duas guerras, vejo a cidade lá em baixo, num absoluto silêncio dominical, e só me ocorre “ia mesmo bem uma bejeca, caraças – como é que raio se começa uma revolução?”