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27.7.07
Tolsta
Crónica das Hébridas - 6
Roam-se de inveja: eu já posso dizer a toda a gente que vi o meu patrão de saias, coisa que com certeza muito poucos portugueses terão oportunidade de se poderem gabar (patroas não vale, hem? nada de batotas). O que eu vi foi um senhor barbudo, careca e respeitável, de saia vermelha e meias brancas pelo meio da perna. OK, ok, podem argumentar à vontade que eu estou na Escócia, que aquilo é um kilt, tudo bem, chamem-lhe lá o que quiserem, porque mesmo com nomes esquisitos é tal e qual uma saia traçada por cima do joelho, com pregas e um alfinete a prender a abertura, para o vento não mostrar a coxa peluda.
Fora de brincadeiras, de facto ver uma data de matulões em trajes típicos não tem nada de estranho, nem sequer de risível, estivessem eles a passear em Lisboa e já a coisa era outra, mas assim, dentro do contexto, posso dizer que é até bastante elegante. No casamento da filha do patrão, onde eu fui cair de paraquedas, havia por lá uma data deles, incluindo um puto pequenino ainda de chucha, de tal maneira que os poucos fulanos de calças é que destoavam à brava, como se andassem com um cartaz a apregoar “eu não sou daqui”.
A fatiota não deixa de ser estranha, mas como ainda não me informei sobre o assunto, em vez de vos instruir, só posso especular (especialidade minha):
· dado o facto dos romanos descreverem os povos celtas com calças aos quadrados, de cores vivas, presume-se que o pano se manteve mas o modelo mudou radicalmente;
· dado também que a Escócia passou praticamente o tempo todo à bulha com os diversos vizinhos, invasores, tiranos e afins, onde precisavam de se mexer à vontade, esconder-se em montanhas onde os outros dificilmente se arriscavam e meter-se em altas sarrafuscas quando tinham de chegar a vias de facto;
então por que raio é que mudaram de umas calças práticas para uma saia de pregas que só atrapalha? (experimentem andar de gatas com uma vestida e logo vêem do que estou a falar).
Dados os factos contraditórios, a minha explicação é que, dada a inferioridade numérica e as adversidades do território, os homens tinham de ser muita bravos pra conseguirem dar conta do recado; ora tendo de andar de saias, com o friozinho que aqui faz e uma data de mosquitos a dar ferroadas lá por baixo, acho que qualquer um fica capaz de atacar o próximo à dentada. Isto com certeza foi uma ideia estratégica de um comandante à rasca, com uma data de homens desmotivados, sem vontade nenhuma de ir à luta, e o inimigo prestes a aparecer. “Cambada de meninas! Pois vão combater de saias, qu’é o que lhes vai bem!” E eles ficaram todos tão lixados com a vergonha, com o frio e com os mosquitos, que nesse dia os desgraçados dos adversários devem ter levado a sova da vida deles. ...Mas suponho que quem estudou o fenómeno tenha alguma explicação mais plausível.
Agora agarrem-se bem… vocês sabem o que é que esta malta bebe à refeição, com o bacalhau e as batatas fritas?… Leite. Leram bem. Os gajos bebem leite. Menos mal que, quando falo em bacalhau, é bacalhau fresco, não é do nosso (a propósito, foi preciso vir até aqui para ver como é um bacalhau acabado de sair da água), e cozinha-se como qualquer pescada gorducha, por sinal bem agradável. Claro que sempre que o orçamento e o fígado o permitem, preferem beber vinho (a cerca de 6 € a garrafa), mas num jantarinho simples bebe-se leite e acha-se muito esquisito porque é que as meninas de fora fazem tantas caretas e tanta espantação por coisa tão corriqueira.
Também comem galinha com compota de amoras, mas isso eu só tenho de aplaudir, que sempre gramei estes contrastes, portanto venha de lá o frasco enquanto vocês torcem o nariz.
Os pequenos hábitos são muito diferentes para quem tem outros paladares e outros costumes. Apesar de normalíssimo para muitos dos meus ilustres conterrâneos, para mim é um nojo ver toda a gente, mas mesmo toda, em cada casa que tenho entrado, com um alguidar dentro do lava-louças, normalmente peganhento, asqueroso, cheio de gorduraça entranhada nos riscos do plástico. Enchem o coiso com água, deitam-lhe detergente, e depois mergulham a louça naquela sopa, passam o esfregão à rais-te-parta e põem a escorrer, ainda cheia de espuma e restos de comida. Daí vai para o armário e na refeição seguinte comemos naquilo. Deve ser por isso que eles dispensam o azeite… Pelo menos a louça ainda vê esfregão, agora o alguidar nem isso. Cada vez que vou ajudar, a primeira coisa que eu faço é tirar o coiso seboso do lava-louças e pô-lo no chão, o que causa grande galhofa entre os indígenas e até já me tiraram a fotografia, de prato na mão e alguidar aos pés, para poderem mostrar aos amigos os hábitos esquisitos que as estrangeiras têm.
Igualmente omnipresente é a cafeteira eléctrica, mas dado o gosto que eles têm por chá, essa eu entendo, porque é bestialmente rápida para ferver água. Mas outra bem menos lógica é a falta de toalheiros nas casas de banho, ou mesmo de uns ganchinhos na cozinha para pendurar os panos da louça. Assim, tudo o que é trapo é deixado nas costas das cadeiras ou largado à balda no chão da casa de banho.
E depois, toda a gente tem um fogão muito castiço que funciona com turfa. Em vez de carvão, usam turfa como combustível, o que deve sair bastante económico, porque afinal é só só cavar o quintal e encher o balde. Os fogões que tenho visto são todos castanhos, com quatro portinhas, como os antigos fogões a lenha, e a malta usa-os sobretudo como aquecimento, sempre a funcionar, do que propriamente para cozinhar. Por aqui vive-se na cozinha, a divisão maior e mais aquecida que serve de sala comum, onde se recebe o pessoal, se vê a televisão e se vai assaltando o frigorífico nos entretantos (deve ser por isso que são todos tão anafadotes).
Com a mania das originalidades, as tomadas por aqui tem 3 pinos e um interruptor, ou seja, quanto a trazer aparelhos eléctricos para cá, tratem primeiro de passar na loja e comprar fichas para substituir, pois de contrário, o telemóvel ou mesmo o computador portátil só funcionam enquanto durar a carga da bateria.
Quanto ao teclado dos computas locais, bom, eu estou a escrever com o mapa de caracteres aberto e a usar short cuts porque não há assentos. Como o gaélico leva graves e agudos, há nesta altura uma batalha local, através do jornal da terra, pela adaptação dos teclados. “E porque é que não compram uns quantos teclados como os nossos, lá de Portugal, e arrumam o assunto?” “Ah, por causa do software, então, aquilo não é só ligar e já tá…” Ainda sugeri que comprassem também o software, se é que o teclado não vem já com o respectivo disquinho de instalação, mas parece que o orçamento do escritório não dá para grandes cavalarias. ...E depois, claro que é muito mais divertido escrever artigos para o jornal a acusar os malandros dos ingleses, porque se ‘tá mesmo a ver que isto dos teclados é mais uma forma de discriminação da cultura gaélica.
Hábitos diários à parte, os das instituições também são um tanto diferentes. Ontem tive de abrir uma conta no Royal Bank of Scotland, porque o escritório paga os ordenados por lá – bom, e com a treta do câmbio, tenho pago um dinheirão de cada vez que vou levantar umas quantas libras ao multibanco com o meu cartãozinho português, portanto sempre será melhor ter umas massas no banco local. E então, pasme-se, abriram-me uma conta sem me pedirem uma librazita que fosse como depósito inicial. Mais: mesmo sem ter lá massa, ficaram de me mandar o cartão do multibanco (de uso grátis, sem taxas) para a morada da Marisa (porque eu não tenho um endereço certo, tem sido uma semana com cada uma), e se entretanto quiser movimentar a conta, tenho um número de código escrito num papelinho rabiscado que a menina me deu – “basta dar este número no balcão e pode levantar dinheiro”. Assim mesmo – toma e embrulha. Havia de ser na nossa pátria lusa… Sem massa nem morada, ‘pera lá que já cospes. Segurança, népia, mas há que concordar que é bastante confortável.
Já menos confortável, sobretudo para quem lá trabalha, é o sistema de encomendas dos correios. Os pacotes que ninguém atende na porta ficam à espera na estação durante 6 semanas. Se ninguém aparece para os levantar durante esse tempo, são enviados para o posto de Belfast, encarregado de reenviar as encomendas para os respectivos remetentes. Agora imaginem o estado em que chegam os “black puddings” (grande chouriço de sangue em versão local) que a titia da terra tentou enviar ao sobrinho que foi para Londres… Segundo a descrição do Donald, um empregado dos correios, os pacotes chegam já com o caldo da fermentação a repassar o papel, numa sopa medonha de cheiro pestilento. A avaliar pelas caretas, os black puddings e os grilos vivos (enfim, quando os enfrascaram estavam vivos...), enviados para os donos de animais exóticos papa-grilos, parecem ser o pesadelo do Donald. Sempre que lhe toca a vez de ser ele a separar as encomendas que chegam de Belfast, entra em casa já a despir a roupa empestada e vai directamente pró banho.
Mas é uma terreola simpática com gente porreira, não se deixem levar pelos meus comentários, afinal aterrei aqui vinda de outras paragens e às vezes sinto-me no meio dos selvagens, mas a opinião deles deve ser recíproca. E depois, se não fossem as diferenças, para que é que valia a pena viajar?
Fora de brincadeiras, de facto ver uma data de matulões em trajes típicos não tem nada de estranho, nem sequer de risível, estivessem eles a passear em Lisboa e já a coisa era outra, mas assim, dentro do contexto, posso dizer que é até bastante elegante. No casamento da filha do patrão, onde eu fui cair de paraquedas, havia por lá uma data deles, incluindo um puto pequenino ainda de chucha, de tal maneira que os poucos fulanos de calças é que destoavam à brava, como se andassem com um cartaz a apregoar “eu não sou daqui”.
A fatiota não deixa de ser estranha, mas como ainda não me informei sobre o assunto, em vez de vos instruir, só posso especular (especialidade minha):
· dado o facto dos romanos descreverem os povos celtas com calças aos quadrados, de cores vivas, presume-se que o pano se manteve mas o modelo mudou radicalmente;
· dado também que a Escócia passou praticamente o tempo todo à bulha com os diversos vizinhos, invasores, tiranos e afins, onde precisavam de se mexer à vontade, esconder-se em montanhas onde os outros dificilmente se arriscavam e meter-se em altas sarrafuscas quando tinham de chegar a vias de facto;
então por que raio é que mudaram de umas calças práticas para uma saia de pregas que só atrapalha? (experimentem andar de gatas com uma vestida e logo vêem do que estou a falar).
Dados os factos contraditórios, a minha explicação é que, dada a inferioridade numérica e as adversidades do território, os homens tinham de ser muita bravos pra conseguirem dar conta do recado; ora tendo de andar de saias, com o friozinho que aqui faz e uma data de mosquitos a dar ferroadas lá por baixo, acho que qualquer um fica capaz de atacar o próximo à dentada. Isto com certeza foi uma ideia estratégica de um comandante à rasca, com uma data de homens desmotivados, sem vontade nenhuma de ir à luta, e o inimigo prestes a aparecer. “Cambada de meninas! Pois vão combater de saias, qu’é o que lhes vai bem!” E eles ficaram todos tão lixados com a vergonha, com o frio e com os mosquitos, que nesse dia os desgraçados dos adversários devem ter levado a sova da vida deles. ...Mas suponho que quem estudou o fenómeno tenha alguma explicação mais plausível.
Agora agarrem-se bem… vocês sabem o que é que esta malta bebe à refeição, com o bacalhau e as batatas fritas?… Leite. Leram bem. Os gajos bebem leite. Menos mal que, quando falo em bacalhau, é bacalhau fresco, não é do nosso (a propósito, foi preciso vir até aqui para ver como é um bacalhau acabado de sair da água), e cozinha-se como qualquer pescada gorducha, por sinal bem agradável. Claro que sempre que o orçamento e o fígado o permitem, preferem beber vinho (a cerca de 6 € a garrafa), mas num jantarinho simples bebe-se leite e acha-se muito esquisito porque é que as meninas de fora fazem tantas caretas e tanta espantação por coisa tão corriqueira.
Também comem galinha com compota de amoras, mas isso eu só tenho de aplaudir, que sempre gramei estes contrastes, portanto venha de lá o frasco enquanto vocês torcem o nariz.
Os pequenos hábitos são muito diferentes para quem tem outros paladares e outros costumes. Apesar de normalíssimo para muitos dos meus ilustres conterrâneos, para mim é um nojo ver toda a gente, mas mesmo toda, em cada casa que tenho entrado, com um alguidar dentro do lava-louças, normalmente peganhento, asqueroso, cheio de gorduraça entranhada nos riscos do plástico. Enchem o coiso com água, deitam-lhe detergente, e depois mergulham a louça naquela sopa, passam o esfregão à rais-te-parta e põem a escorrer, ainda cheia de espuma e restos de comida. Daí vai para o armário e na refeição seguinte comemos naquilo. Deve ser por isso que eles dispensam o azeite… Pelo menos a louça ainda vê esfregão, agora o alguidar nem isso. Cada vez que vou ajudar, a primeira coisa que eu faço é tirar o coiso seboso do lava-louças e pô-lo no chão, o que causa grande galhofa entre os indígenas e até já me tiraram a fotografia, de prato na mão e alguidar aos pés, para poderem mostrar aos amigos os hábitos esquisitos que as estrangeiras têm.
Igualmente omnipresente é a cafeteira eléctrica, mas dado o gosto que eles têm por chá, essa eu entendo, porque é bestialmente rápida para ferver água. Mas outra bem menos lógica é a falta de toalheiros nas casas de banho, ou mesmo de uns ganchinhos na cozinha para pendurar os panos da louça. Assim, tudo o que é trapo é deixado nas costas das cadeiras ou largado à balda no chão da casa de banho.
E depois, toda a gente tem um fogão muito castiço que funciona com turfa. Em vez de carvão, usam turfa como combustível, o que deve sair bastante económico, porque afinal é só só cavar o quintal e encher o balde. Os fogões que tenho visto são todos castanhos, com quatro portinhas, como os antigos fogões a lenha, e a malta usa-os sobretudo como aquecimento, sempre a funcionar, do que propriamente para cozinhar. Por aqui vive-se na cozinha, a divisão maior e mais aquecida que serve de sala comum, onde se recebe o pessoal, se vê a televisão e se vai assaltando o frigorífico nos entretantos (deve ser por isso que são todos tão anafadotes).
Com a mania das originalidades, as tomadas por aqui tem 3 pinos e um interruptor, ou seja, quanto a trazer aparelhos eléctricos para cá, tratem primeiro de passar na loja e comprar fichas para substituir, pois de contrário, o telemóvel ou mesmo o computador portátil só funcionam enquanto durar a carga da bateria.
Quanto ao teclado dos computas locais, bom, eu estou a escrever com o mapa de caracteres aberto e a usar short cuts porque não há assentos. Como o gaélico leva graves e agudos, há nesta altura uma batalha local, através do jornal da terra, pela adaptação dos teclados. “E porque é que não compram uns quantos teclados como os nossos, lá de Portugal, e arrumam o assunto?” “Ah, por causa do software, então, aquilo não é só ligar e já tá…” Ainda sugeri que comprassem também o software, se é que o teclado não vem já com o respectivo disquinho de instalação, mas parece que o orçamento do escritório não dá para grandes cavalarias. ...E depois, claro que é muito mais divertido escrever artigos para o jornal a acusar os malandros dos ingleses, porque se ‘tá mesmo a ver que isto dos teclados é mais uma forma de discriminação da cultura gaélica.
Hábitos diários à parte, os das instituições também são um tanto diferentes. Ontem tive de abrir uma conta no Royal Bank of Scotland, porque o escritório paga os ordenados por lá – bom, e com a treta do câmbio, tenho pago um dinheirão de cada vez que vou levantar umas quantas libras ao multibanco com o meu cartãozinho português, portanto sempre será melhor ter umas massas no banco local. E então, pasme-se, abriram-me uma conta sem me pedirem uma librazita que fosse como depósito inicial. Mais: mesmo sem ter lá massa, ficaram de me mandar o cartão do multibanco (de uso grátis, sem taxas) para a morada da Marisa (porque eu não tenho um endereço certo, tem sido uma semana com cada uma), e se entretanto quiser movimentar a conta, tenho um número de código escrito num papelinho rabiscado que a menina me deu – “basta dar este número no balcão e pode levantar dinheiro”. Assim mesmo – toma e embrulha. Havia de ser na nossa pátria lusa… Sem massa nem morada, ‘pera lá que já cospes. Segurança, népia, mas há que concordar que é bastante confortável.
Já menos confortável, sobretudo para quem lá trabalha, é o sistema de encomendas dos correios. Os pacotes que ninguém atende na porta ficam à espera na estação durante 6 semanas. Se ninguém aparece para os levantar durante esse tempo, são enviados para o posto de Belfast, encarregado de reenviar as encomendas para os respectivos remetentes. Agora imaginem o estado em que chegam os “black puddings” (grande chouriço de sangue em versão local) que a titia da terra tentou enviar ao sobrinho que foi para Londres… Segundo a descrição do Donald, um empregado dos correios, os pacotes chegam já com o caldo da fermentação a repassar o papel, numa sopa medonha de cheiro pestilento. A avaliar pelas caretas, os black puddings e os grilos vivos (enfim, quando os enfrascaram estavam vivos...), enviados para os donos de animais exóticos papa-grilos, parecem ser o pesadelo do Donald. Sempre que lhe toca a vez de ser ele a separar as encomendas que chegam de Belfast, entra em casa já a despir a roupa empestada e vai directamente pró banho.
Mas é uma terreola simpática com gente porreira, não se deixem levar pelos meus comentários, afinal aterrei aqui vinda de outras paragens e às vezes sinto-me no meio dos selvagens, mas a opinião deles deve ser recíproca. E depois, se não fossem as diferenças, para que é que valia a pena viajar?
24.7.07
Broch de Carloway
o Broch visto de trás - imaginem o resto que lá falta para completar o pudim
o Broch visto de frente, numa fotografia sacada da net
interior do Broch de Carloway, onde se vê a muralha dupla
interior das paredes do Broch, com a estrutura do piso de cima
Bué da calhaus!
círculo de pedras de Cnoc Fhillbhir Bheag - não se esforcem, lindos, que a pronuncia disto não tem nada a ver com a grafia
Callanish numa fotografia que não é do ermita; é um postal com uma vista aérea e os créditos são do Colin Baxter, que conseguiu uma vista de conjunto bestial
esta sim, é o círculo de Callanish tirada pelo ermita num dia típico por estas bandas, a chover como convém
e lá vai outra, tirada de outro ângulo, agora com a pedra maior vista de frente
e esta agora tem um cão e tudo, o tal que queria que eu lhe atirasse um pauzinho já todo babado - yac! (mas eu alinhei, claro), que é a coisa preta e branca na erva à frente do calhau maior, para quem ainda não localizou
Crónica das Hébridas - 5
| Eu sem saber por onde começar. Bom; fui ver os calhaus. Posso descrever agora como eram os círculos de pedra e o broch de Carloway (Dùn Charlabhaigh Broch), mas quem quiser saber mais, que vá ver à enciclopédia ou à internet. Eu só sei de ter lá estado. E isso, meus amigos, não há fotografia, artigo ou documentário que substitua. Depois de me ter fartado de ver fotografias da torre Eiffel em tudo o que é postal e cartaz turístico, cairam-me os queixos quando finalmente a vi ao vivo e a cores, porque só depois disso é que pude realmente fazer ideia do tamanho. O meu pai diz ter tido a mesma sensação com o coliseu de Roma. E agora, nesta voltinha de fim de semana até ao círculo de Callanish, não foi a questão do peso nem do tamanho que me fez cair os queixos, mas o aspecto praticamente intacto do alinhamento. As pedras não estão partidas nem tombadas. Estão todas lá (aparentemente). Ainda podemos tocar naqueles calhaus e ainda é possível ver o santuário praticamente tal como foi concebido pelos antepassados. E esse tempo imenso, essa distância entre os construtores e a permanência da construção, essa carga toda é que faz o peso real do lugar. Estive noutros círculos no mesmo dia, encantei-me com o que restava das pedras erguidas, com as paisagens enormes ao longe, sítios altos de onde se avistam outras colinas com mais círculos em ruínas, as pedras maiores em verticalidades já difíceis de manter, as outras em pedaços dispersos que a turfa vai tratando de engolir, sítios que posso entender porque é que foram escolhidos, mas que me exigem bastante da imaginação para tentar reconstruir a imagem original. Em Callanish não é preciso imaginar. Está lá tudo. É só abrir os olhinhos. Também já tinha visto postais e T-shirts e posters e o diabo a quatro; é a atracção local e as fotografias das pedras estão por todo o lado. Agora sei que as imagens são falsas, por muitas sombras artísticas e pôres-de-sol que tenham conseguido captar. A perspectiva desaparece completamete e a ideia que dá é de uma floresta de grandes pedras um tanto ao acaso. Muito bonito, mas não tem nada a ver com a realidade. No terreno, começamos por ver as pedras ao longe e esquecer imediatamente as fotografias todas; a tridimensionalidade arrasa logo com elas. Mesmo enquanto só vemos uma aparente linha de pedras no horizonte, a sequência de volumes já dá uma impressão bestialmente forte, a impressão de que estamos a ver qualquer coisa absolutamente acima do resto, como se não fosse totalmente deste mundo. A impressão de sítio sagrado…? Hummm… pois, pra mim, claro, mas pra quem se está nas tintas para o assunto também entender, eu diria que é assim a impressão de “coisa importante”, de uma coisa daquelas em que nem o maior morcão deste mundo consegue ignorar. Topam? E depois paramos o carro, saímos já com os olhos arremelgadinhos, repletos até à celulazinha mais raquítica do nervo óptico, e vamos andando ao longo da avenida de pedras até chegarmos ao círculo central com a certeza de se estar a entrar num templo, olhamos para o calhau rectangular ao centro, cinco metros de pedra lisa que reduzem qualquer santinho pintalgado à sua insigificância, e nessa altura já entendemos tudo, entendemos porque é que os antepassados andaram a acartar pedregulhos, entendemos porque é que os alinharam naquela posição e sentimos que está tudo no sítio certo, com as dimensões certas, e qual canhanhos dos doutores, qual teorias, não é preciso mais nada, basta estar lá pra qualquer coisa cá dentro entender tudo, porque o espírito da coisa mantém-se tão visível como há 4000 anos atrás e não é preciso mais porra de explicação nenhuma. Em resumo: a construção de facto funciona. Mandem os nossos arquitectos vir pra cá olhar prós calhaus. Bem precisam. A única coisa estragada em Callanish é a cripta, porque o tecto caiu. Aos pés da pedra central (e mais um pouquinho e ia dizer altar mor) há uma cripta escavada no chão, com um corredor e duas câmaras; um átrio quase quadrado seguido de uma divisão ainda mais pequena, como um armário ao fundo. Pelo que li, quando fizeram as primeiras escavações encontraram alguns ossos no meio da turfa, que assumiram serem humanos, depois de vários entendidos os estudarem. Hoje em dia seria possível de determinar, mas entretanto perderam-nos. Se era um bacano importante ali enterrado ou os restos de algum carneiro que caiu no buraco, já não há maneira de saber. Mesmo se houvesse a certeza de que eram ossos de gente, também ninguém se lembrou de descrever a posição em que estavam, o que poderia indicar se o indígena tinha sido tranquilamente sepultado pelos compadres ou assassinado pelos invasores que se supõe terem deitado o tecto abaixo durante a foçanguice das pilhagens. Como já disse, os círculos de pedra por aqui são mais que muitos e estavam em pontos altos, relativamente próximos uns dos outros, de onde se podiam avistar, sobretudo se acendessem fogueiras. Dada a grande quantidade de igrejas rivais que actualmente invadem a ilha, lembrou-se a Chrisella de que calhando sempre foi assim já desde o tempo dos pedregulhos. E de repente imaginámos os nativos do antigamente todos divididos em seitas, porque “o nosso santuário é que vale e os outros são todos um bando de heréticos”. De facto, a religião entrou em força na vida dos ilhéus, em todas as versões conhecidas do cristianismo. “Igrejas a mais pra tão pouca gente”, comentava a Moira um dia destes. Com efeito, são tantas que duas delas, rivais entre si, estão só à distância de um quarteirão. “Se estes gajos se chateiam, estão tão próximos que dá pra desatarem todos a atirar tomates uns aos outros…”, comentei eu, ao que a Chrisella, cheia de olho pró negócio, imaginou logo o dinheirão que faria com o jipe carregado de tomates para vender à saída da missa. E depois há o Broch (o ch lê-se como em alemão, a arranhar as goelas), que é uma fortaleza circular, uma torre toda em pedra solta, de paredes duplas, com uma escada no meio das duas para chegar aos andares de cima. Coisa bestialmente sólida, apesar da falta de cimento, feita por antepassados que sabiam bem o que estavam a fazer; um improviso que fosse e arriscavam-se a levar com a torre em cima. O de Carlabhaigh (lê-se carlavag, Carloway na versão inglesa) já está só em metade, mas há outros por essa Escócia fora ainda praticamente intactos (um, pelo menos, parece estar ainda completo, com tecto e tudo). Claro que o sítio é óptimo, uma colina estratégica de lindas vistas sobre um loch ( = laguinho escocês – não esquecer a arranhadela), de onde podiam ver quando lá vinha o inimigo e bombardeá-lo em força (com calhaus, claro – quem pensou em tomates?). Mas apesar dos esforços todos que os antepassados tiveram para fazer edifícios sólidos, capazes de resistir aos milénios, acho que ainda ninguém inventou nada à prova de miúdo. Palavra que eu cheguei a temer pelos pedregulhos. Porque a primeira coisa que um puto faz quando vê uma pedra já meia tombada é… amarinhar por ela acima e ir pra baixo de escorrega, claro. Agora imaginem-me com seis putos a esgravilhar à minha volta, todos entusiasmadíssimos com a mudança de parque de diversões, enquanto as mamãs punham a cusca em dia, completamente alheias ao ataque dos bárbaros. Felizmente, à chegada a Callanish, tiveram o bom senso de os segurarem dentro dos carros à conta de um pacote de bolachas, para me darem uma trégua e eu poder tirar as minhas fotografias em paz. Mas depois foi a festa total, claro, ainda com a ajuda de um cão analfabeto (não leu a placa do “no dogs”) que passou o tempo a desafiar-me com um pauzinho já muito mastigado. Finalmente os putos pararam todos ao redor da cripta e eu fui ver qual era o assunto. Discutia-se a utilidade do buraco. Para eles, aquilo era sem dúvida uma sepultura dos vikings, mas o tamanho estava a deixá-los preocupados; os compartimentos eram demasiado pequenos para adultos, portanto devia ser um túmulo para os bebés (típica poesia infantil). Um dos mais velhos, que aprendeu na escola que os vikings enterravam os mortos com barcos e tudo, fartava-se de tirar medidas a ver se conseguia provar que lá cabia um drakar bem apertadinho, ao que os outros contestavam que eram barcos grandes demais, portanto o drakar devia estar enterrado noutro lado qualquer – ali só ficavam os bebés e pronto, até dava para vários, um ao atravessar, três ao comprido e mais outro no corredor. Quanto à minha tentativa de explicar que aquilo era muito mais antigo, levou logo um pleno atestado de ignorância, porque afinal toda a gente sabe que os antepassados eram todos vikings matulões, de tranças louras e cornos no capacete. Com efeito, à conversa com os indígenas, nota-se que é muito mais forte a ideia dos homens do norte como os antepassados directos, do que propriamente os celtas. Há quase uma espécie de culto ao viking, evidente no nome que põem nas casas (a da Moira chama-se “Norvik”, abreviatura para northern viking), nas ruas ou mesmo nos filhinhos. Os pictos são assunto do resto da Escócia e os celtas devem ter fugido todos prá Irlanda, quando muito andaram por aí em passeio turístico; aqui, o passado comum são os vikings, e vá lá agora vir uma gaja de fora a falar nuns fulanos quaisquer que nunca ninguém viu… “Nós cá somos todos homens do norte, carago!” Callanish não está sequer num sítio alto, ou melhor, está numa pequena colina, entre colinas mais altas, onde também existiam círculos de pedra – o núcleo de onde partiam os raios de um complexo de templos menores? – os tais círculos que não sobreviveram e que hoje são os escorregas dos fedelhos que os turistas trazem nas voltinhas de fim de semana. O de Callanish conservou-se quase intacto e não posso deixar de pensar que é a impressão que causa ao mais céptico que deve ter salvo os pedregulhos do vandalismo dos invasores e da ignorância dos nativos (uma pedra erguida, última resistente de um círculo desaparecido, foi derrubada há menos de um século porque uma lenda falava num pote de ouro enterrado lá por baixo). As pedras de Callanish nem sempre estiveram tão visíveis. Durante séculos foram também semi-engolidas pela turfa, como tudo o resto. Provavelmente, o facto do círculo ter ficado menos exposto durante a época do fanatismo religioso salvou-o mais uma vez. E hoje aí estão elas, em plena luz, protegidas pela lei e cultuadas como ícone turístico, a fazer manguitos ao tempo. Os deuses venceram. |
22.7.07
Aignish
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