15.3.08

Diário do Oeste - 12

E pronto, já fiquei a saber que o meu alarme funciona, pois, mas o ginásio tem música e o raças do aparelho apita tão baixinho que eu só dou conta demasiado tarde, quando já estou a sentir que tenho uma aorta - o que não é nada agradável, acreditem. Quer isto dizer que tenho de passar a vida a olhar para o mostrador, para ir controlando as pulsações e para fazer umas pausas mais longas sempre que já estiverem demasiado animadinhas. Nunca deixar subir muito, para o motor não se engasgar.
Pois. Sabem que mais? Isto é uma chatice. Uma grande chatice.
E alguém se lembra daquelas pantufinhas horrendas que o Pai Natal me trouxe? Que até lhes tirei o retrato e tudo? Só para assinalar que, além de as ter estreado no final de Janeiro e a esta altura já estarem praticamente desintegradas (eu tenho um estranho efeito sobre as pantufas...), andava a estranhar elas estarem tão largas, mas pensei que isso fizesse parte do processo de desintegração. Só hoje, quando estava com elas na mão, a ponderar se iam já pró lixo ou se ainda as metia na máquina a ver se encolhiam, é que vi que na sola está escrito 40/41. Ora eu calço o 35. Concluo portanto que, ou o Pai Natal está a ficar um tanto gagá - porque há alguns quinze anos que o gajo me traz pantufas do número certo - ou então confundiu o meu pezinho com o da sua senhora (a Merry Christmas, como toda a gente sabe), que se deve então ter visto à nora para calçar umas pantufas 35...
Quanto à minha dieta, ia de vento em popa até chegar esta época pré-Páscoa e aparecerem os ovos de maçapão do Liedl. A casquinha de chocolate não é grande coisa (sabe a velho), mas aquele naco de massa de amêndoa lá por dentro... hummm... O difícil é conseguir comer só um bocadinho. E quando não se consegue, vai-se enfardando alegremente até o enjoo ser mais forte que a lambarice e a seguir vem a crise de figadeira e as borbulhinhas na testa. Uma gaita. Acabaram-se as idas ao Liedl até passarem as festas. Ah pois, tem de ser.
...Ok, eu confesso que ainda tenho dois ovos e meio na gaveta dos talheres. Mas vou retomar a dieta e perder os quilitos que faltam. A sério. Até porque quero muito caber dentro do meu lindo espartilho de vinil sem ficar com a banhola a sair, na Gathering do dia 7 de Junho. Não sabem o que é? Então sigam o link:
http://www.thegatheringparty.org/home.html
É só para tarados. Espero vê-los lá a todos. E desta vez vou levar a tia; acho que ela anda cheia de fungas pra dar porrada em alguém e pode ser que encontre uns voluntários por lá.
Parte da tarde passada com a tia no cemitério dos Campelos, com a missão de limpar os limos que sarapintavam a pedra mármore da campa de dois tios-avós e de deitar no lixo as horrendas flores de plástico já carcomidas e desbotadas que estavam na campa da minha avó - lá postas por um ilustre desconhecido, com certeza com a melhor das intenções.
Em geral, e como qualquer gó que se preze, eu gosto de cemitérios. Encontram-se lá algumas coisas surpreendentes, outras interessantes, outras caricatas. Mas há coisas que eu não encaixo, como esta ideia do pessoal passar a vida a ir lá pôr flores moribundas em cima de corpos em decomposição. Demasiado macabro. Doentio, até. E não faz sentido. Se não, reparem:
- para quem acredita que a alma saiu do corpo e foi lá não sei pra onde, então aquilo que ali está é só um resíduo, uma casca velha sem capacidade nenhuma para apreciar as florinhas que os parentes lá põem;
- para quem lá vai por causa da memória do ente querido... bom, não seria melhor lembrá-lo vivo e a mexer? É que depois de morto ele nunca mais fez nada de interessante... É para isso que servem as photos e as lembranças pessoais. ...Acho eu;
- para quem acha que os vizinhos se vão fartar de dizer mal se a campa do defunto não tiver flores frescas todas as semanas, bom, então talvez esteja na altura de mandar esses gajos todos à fava, até porque eles falam na mesma ("pois, quando ele era vivo tratava-o abaixo de cão, mas agora anda lá sempre a pôr flores. Deve ser a consciência a pesar...").
Ah sim, a cremação é uma coisa óptima. Higiénica. Ecológica. E podemos sempre largar as cinzas num sítio bonito, dizer adeus ao parente e pronto, assunto arrumado. Sem flores, nem obrigações, nem cuscas.
E se o meu motor fizer pum (ou se levar com um camião TIR em cima, ou escorregar na casca da banana e bater com a cabeça na nuca), já sabem: eu quero ser cromada, hem?! Nada de buracos no chão com florinhas por cima. Senão eu venho lá do outro mundo e ajusto contas com voceses todos. Muáháháhá...! (isto era uma gargalhada sinistra)







O cemitério cá do burgo, comprido que se farta - quando eu era miúda isto tinha menos de metade do tamanho. E acho que as campas são já todas dos meados do século XX. Por aqui morre-se muito...
Floresta de pedra. Assim visto ao longe isto até é bonito...
O pior é ao perto:
Corações de pedra com dizeres, um livro em cima, uma estátua enorme com as mãos no ar, uma lanterna, uns passarinhos a voar, a respectiva photo do defunto e mooontes de florinhas. E um bocadinho de sobriedade? ...Não? A sério, qual é a ideia? O morto fica mais contente? Os santinhos vão ter mais consideração pela alma dele? Os vizinhos vão achar que vocês gostavam muito do homem? E que ele deixou tanto dinheiro que até deu para fazer isto tudo? Talvez seja mais por aí, não?
Pelos vistos, este tema do homem barbudo com as mãos no ar é recorrente. Aqui temos uma versão em pedra: A posição é um tanto estranha. Ele estará a dar vivas? ("Yes! Yes! Livrámo-nos dele!") Ou estará a implorar misericórdia aos céus? ...mas então o defunto era assim tão bera que precisa que implorem por ele ad aeternum? Não estou a ver bem a ideia.
Ok, se um dia destes eu quinar com uma sacholada nos cornos, já sabem porque é que foi.
E pronto, agora umas coisas bonitas para limpar a vista:


Uma árvore que dá flores, no quintal da Teresa Padeira. Gostava de saber o nome disto; tem um aspecto bastante exótico.
Cheirinho a Primavera.


A Zarosky a beber água da Companhia - e aparentemente não a acha assim tão má, que ao princípio eu dava-lhe água da minha, do garrafão, porque às vezes até me agonio só a lavar os dentes, tal é o gosto, mas ela continua a pedir-me a da torneira. E eu faço-lhe a vontade, claro.

Sem comentários: